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E se o vinho do Porto aprendesse com o champanhe?

O vinho do Porto reúne vários exemplos de empresas familiares num setor tradicional
O vinho do Porto reúne vários exemplos de empresas familiares num setor tradicional

 

Projeto CV3 – Criação de Valor na Vinha e no Vinho – quer ajudar o sector a reposicionar-se e a criar mais valor, vendendo os vinhos mais caros e distribuindo melhor a riqueza gerada

Com menos produtores e menos hectares de vinha plantados do que no Douro, a região de Champagne consegue colocar no mercado três vezes mais garrafas do que o vinho do Porto e, sobretudo, consegue vendê-las muito mais caras: com 4,9 mil milhões de euros de vendas, a região francesa consegue uma faturação 12 vezes superior à do vinho do Porto (400 milhões). E é na diminuição deste gap que o projeto CV3 – Criação de Valor na Vinha e no Vinho quer ajudar.

“Sendo um produto com um reconhecimento de excelência idêntico, o vinho do Porto deve tentar reproduzir os mecanismos utilizados pelo champanhe ao longo das décadas para se tornar num produto de luxo pelo qual os consumidores globais estejam dispostos a pagar caro – e muito caro”, diz António Manuel Vaz, do projeto CV3, uma parceria da AESE Business School com a Universidade de Trás-os-Montes (UTAD), a Associação de Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID), do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinário (INIAV) e da PwC.

O preço médio de uma garrafa de champanhe é de 16 euros, enquanto o vinho do Porto, em média, é vendido a menos de cinco euros. E é para ajudar a perceber como aproximar estas duas realidades que o projeto CV3 convidou Martin Kunc, professor da Southampton Business School, a vir participar no seminário ‘Excelência e luxo no vinho’, que esta quinta-feira, dia 24 de outubro, decorre no Palácio Nacional de Queluz, a vir falar sobre o desafio da cocriação. Segundo este investigador, “uma das chaves do sucesso” de Champagne está na distribuição, “muito mais equilibrada do que no Douro”, do valor gerado pelo vinhos pelos diversos agentes. “Em Champagne, os agricultores que fornecem uvas para as grandes casas andam de Mercedes. No Douro, quem vende as uvas para Porto tem muitas dificuldades em pagar as contas da vindima”, destaca António Manuel Vaz.

No evento serão, ainda, apresentados exemplos de sucesso desta estratégia de valorização dos vinhos, especificamente os casos do grupo Symington, em Portugal, e de Vega Sicília, em Espanha. Os primeiros pela sua “estratégia consistente”, iniciada na década passada, de tornar os seus vintages e outros vinhos do Porto de topo em produtos de luxo, “mais raros e mais caros”, permitindo que a faturação cresça, apesar da diminuição do número de garrafas vendidas. O grupo Vega Sicília é o exemplo de uma marca que, com o seu prestígio, conseguiu alavancar a região onde produz os seus vinhos, a Ribera del Duero. O objetivo é perceber como é que marcas como o Barca Velha e o Pêra Manca podem fazer o mesmo no Douro e no Alentejo.

Mas nem só de vinho do Porto se falará no Palácio Nacional de Queluz, com a organização do evento a dar a conhecer a experiência da Comissão Vitivinícola da Bairrada que usou o segmento de espumantes ‘Baga-Bairrada’ para reposicionar os vinhos da região e elevá-los a um patamar de valorização especial. “Vale muito a pena estudar os benefícios desta estratégia que, através de um sub-segmento, apostou na certificação e na consistência da qualidade para valorizar o preço por garrafa de um tipo de vinho português”, diz António Manuel Vaz, que fala mesmo em “sinais interessantes” de que o espumante da Bairradas se poderá estar a afirmar “como uma espécie de ‘Prosecco português’, com uma grande capacidade de ser competitivo no mercado internacional”.

Durante a manhã, o evento decorre à porta fechada e apenas para uma vintena de convidados, mas, da parte da tarde, o programa continua com sessões plenárias e painéis de discussão abertos ao público, com mais de 80 inscritos.

O projeto CV3 arrancou em 2018 e pretende promover uma discussão crítica juntos dos vários intervenientes do sector, de podo a que possam partilhar ideias e visões, criando, assim, um ecossistemas que possa potenciar a criação de valor para a fileira, como um todo. Os millenials e o vinho ou o enoturismo foram outros temas já analisados em encontros anteriores. O objetivo é promover a “coopetição” entre as várias empresas e atores. “O vinho português tem que se reposicionar para que possa criar mais valor. O problema está identificado, mas não é de resposta fácil e muito menos de execução fácil. Há que trabalhar sobre a criação do dito ecossistema favorável, que puxe pelo sector como um todo, e, para isso, é preciso que as empresas cooperem, contribuindo todas na criação de uma maior notoriedade dos vinhos portugueses. O consumidor tem que ter a perceção de que o vinho português é um vinho de qualidade pelo qual estará disposto a pagar mais”, explica António Manuel Vaz.

Isto não significa que as empresas não continuem a competir na venda dos seus produtos. Mas têm de o fazer, colaborando para promover o ganho de notoriedade. “Este é um sector muito fragmentado e com empresas pequenas. Se se juntarem, partilhando os custos que são partilháveis neste reposicionamento e afirmação dos vinhos nacionais, podem seguir competindo na venda dos seus produtos”, acrescenta.

O projeto prevê a elaboração de um estudo final designado por ‘Uma nova proposta para potenciar a criação de valor na vinha e no vinho”, cujas recomendações deverão estar disponível no início do próximo ano. “Mais do que sermos prescritivos, queremos recolher os contributos dos diferentes atores e, com base nisso, criar uma consciência global comum. Para que as medidas sejam incorporadas, têm que ser aceites pelo sector, que tem de se rever naquilo que está a ser feito. Não pode ser um mero estudo académico”, salienta António Manuel Vaz.

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