"Economia circular: não há outra opção, não temos outro planeta"

Como a pandemia está a mudar a forma como produzimos alimentos ou compramos produtos? Deborah Dull, especialista em cadeias de abastecimento da GE Digital, traça um retrato do futuro que já é hoje.

A forma como produzimos e compramos produtos está a mudar e a pandemia acelerou o processo de mudança. No futuro não vamos ter apenas supermercados a 15 minutos de casa, mas sim verdadeiras quintas urbanas, muito possivelmente no telhado do prédio onde mora ou até na cozinha lá de casa.

Deborah Dull, especialista em cadeias de abastecimento e gestor da produção e produto na GE Digital e ex-impact Investir & health supply chains da Fundação Bill & Melinda Gates, traça o caminho, que considera inevitável, para uma economia mais circular. Dull é uma das oradoras no evento online Accelerating Retail: Grocery Edition, organizado pelo Instituto Kaizen, que decorre no dia 24.

A pandemia tornou evidente a fragilidade da cadeia de abastecimento na aldeia global. Foi o acordar que a indústria precisava para repensar a forma como compramos os produtos ou será necessário outro susto?


Espero que não. Quando os riscos atingiram a cadeia de abastecimento em todo o mundo, os profissionais do sectornão ficaram surpreendidos. Não temos tomado decisões em termos de desenho da cadeia de abastecimento com base na mitigação dos riscos, mas com base, tipicamente, apenas em custo. Esta procura de mercados com custos de trabalho baixos tem de mudar e penso que a economia circular tem aí um papel.

A gestão de risco não tinha a quota de atenção que merecia e não fizemos o nosso processo de due dilligence na mitigação dos riscos na cadeia de abastecimento que assistimos ao longo do ano passado. Podemos aproveitar este momento para alertar para os riscos e a forma de os mitigar e, ao mesmo tempo, ajudar o negócio a progredir, encurtar a cadeia de abastecimento, reduzindo emissões, endereçar estes temos usando uma estratégia de economia circular, em que se procura e transforma matérias-primas numa região e não em todo o mundo. O comércio mundial continuará a ser uma parte importante das nossas economias, mas penso que será mais regional e há muitas vantagens em fazer isso.

O confinamento levou a um boom do comércio online, muitas empresas foram obrigadas a saltar para o barco digital mas as cadeias logísticas e de entregas não estavam preparadas. O que sente que as empresas aprenderam com tudo isto?

Começamos a falar de omnicanal há cerca de 10 anos. Do ponto de vista de sistemas, apanhou algumas empresas de surpresa. Tradicionalmente, as cadeias de abastecimento das lojas físicas estavam separadas das lojas online, o que significa que os sistemas, as pessoas e, por vezes, até os armazéns, são completamente distintos. As cadeias de abastecimento que já tinham iniciado a sua jornada de transformação digital ou tinham algum nível de digitalização das suas cadeias superaram melhor os desafios.

A outra componente é como podemos reorganizar as nossas cadeias de abastecimento para trabalhar online. Passamos de uma situação de enviar uma enorme quantidade de um determinado produto para uma loja - que tem todo um embalamento diferente, feito em paletes - com enormes camiões, a meio da noite para que a entrega seja feita antes da loja abrir, para entregas em casa dos consumidores, realizadas através de um outro tipo de camiões, por outra empresa, feita durante o dia quando as pessoas estão acordadas. Esta mudança é bastante disrutiva para a infraestrutura da cadeia de abastecimento e começamos a ver falhas na infraestrutura necessária para levar os produtos a casa das pessoas.


Entregas em uma hora, num máximo três dias, é algo que os consumidores dão por adquirido, mas isso tem grandes impactos em termos ambientais. Como é que se dá passos no sentido de ser uma empresa mais sustentável quando se tem o desafio de fazer entregas em uma hora o que nem sempre é o que faz mais sentido do ponto de vista logístico ou financeiro?


Essa ideia parte do pressuposto que a comida é produzida em zonas muito distantes. Numa economia circular não é o caso. Esse mundo de centralização massiva tem de mudar, vamos começar a ver a produção descentralizada de alimentos, isto inclui novas tecnologias num conceito de agricultura dentro de casa, vertical, dar melhor uso aos terrenos e à água. A agricultura hidropónica está a ter enormes investimentos em todo o mundo porque na verdade exige menos água do que a tradicional.

A forma como produzimos os bens e onde os produzimos vai mudar. A comida produzida a menos de 50 quilómetros de onde é consumida torna-se mais barata, do que a produzida longe e depois transportada. A forma como as cidades podem funcionar - até 2050 estima-se que 80% da população mundial viva em cidades - tem de mudar. Paris estabeleceu recentemente o objetivo de se transformar numa 'cidade 15 minutos": tudo o que uma pessoa precisa está a 15 minutos a pé ou de bicicleta de sua casa. Esta ideia de descentralizar as cidades e a forma como tratamos as operações comerciais no mundo parece contraintuitiva porque passamos os últimos 150 anos, desde a industrialização, a centralizar a produção em massa, e não mudamos de todo esse modelo. Vai mudar e estamos a ver o início dessa mudança agora.

Não estamos a falar de ter supermercados a 15 minutos de distância, mas 'quintas urbanas' na cidade. Que iniciativas estão já a acontecer que considere que podem marcar tendências no agroalimentar?


Estamos já a ver telhados a serem usados para produzir alimentos nas cidades, isto está já a acontecer em Paris, Nova Iorque, em várias cidades asiáticas, em Barcelona. Temos telhados que podem ser usados como um recurso para adicionar dinheiro à economia e criar empregos menos dispendiosos de criar, que tem o benefício de ajudar a regular a temperatura do edifício. Também assistimos ao movimento de agricultura vertical, há alguns conceitos, sobretudo na Ásia, onde vemos as laterais dos edifícios a serem plantados, em vez de uma parede temos verde e é comestível.

Vejo um maior desenvolvimento de agricultura dentro de caso: assistimos a um boom de kits de produção hidropónica nas cozinhas dos lares e que se irão tornar mais populares quando as pessoas perceberam que podem produzir a sua própria comida em casa, sem ocupar muito espaço. É a última descentralização, é a cadeia de abastecimento mais curta que podemos ter: a um metro de mesa da sala de jantar ter produtos a crescer. A ideia de dar a capacidade às pessoas de produzir a sua própria comida, torna-se mais atrativa, se tivermos em conta a escassez de produtos a que assistimos. Parece louco as pessoas produzirem os seus alimentos, mas temos a tecnologia agora, não têm de ser bons agricultores para produzir os alimentos dentro de casa. Podemos usar algumas das tecnologias que estão a sair da 4º revolução industrial, como sensores e a internet das coisas: se tiver uma quinta hidropónica na cozinha com um sensor pode saber se a quantidade de água está correta, ajustar a temperatura, se precisa de adicionar algo para mudar o PH da água para que o crescimento das plantas seja o melhor. É muito simples para pessoas que tenham, por exemplo, um smartphone.

Começamos a ver o início desta tendência pelo mundo, será interessante perceber como vai se desenvolver em economias com diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico. Ter um pequeno terreno para cultivar em muitas economias ainda é muito comum, parece que estão um tempo à frente no sentido de ter uma cadeia de abastecimento muito curta.

Percebo a sedução para um consumidor de produzir os seus próprios alimentos na cozinha lá de casa, mas o que ganha a indústria com isso? Se começarmos todos a cultivar os próprios alimentos ou produzir roupa muita indústria irá desaparecer.

Há muitas indústrias que vivem da economia linear e da obsolescência planeada que vão morrer. Não há espaço no futuro para continuarmos a perpetuar a obsolescência planeada que é a base na atual economia: quão poucas vezes um consumidor pode usar isto? Como é que fazemos tudo ter uma utilização única e levar as pessoas a comprar mais. É terrível para o planeta, absorve recursos que não temos de usar e a novas gerações com poder de compra não vão tolerar isso. Vai haver uma mudança dramática se o modelo de negócio de uma empresa é baseado na obsolescência planeada, vão ter de mudar e rapidamente.

E na indústria da comida vão ter de mudar também. Como é que se pode ganhar dinheiro das pessoas que produzem os seus próprios alimentos? Bem, há sementes. Pode transformar-se no fornecedor de todas as coisas relacionadas com isso. Se o propósito de um supermercado é alimentar pessoas talvez tenham de considerar o seu produto como um serviço em vez de apenas um produto. Se pensar na transição das lojas de impressão e impressão em casa tivemos uma mudança semelhante. As empresas que perceberam que a descentralização e o empoderamento dos consumidores é o futuro, mudaram: produziram impressoras mais pequenas e, no caso da HP, transformaram a venda de tinta como produto, na venda de um serviço. Pode subscrever um serviço de tinta, paga apenas o que usa e, se a sua impressora estiver ligada à Internet, sabem que quantidade de tinta usa e enviam um novo tinteiro, na mesma encomenda reenvia-lhes o já usado. Com isto têm impedido que milhões de cartuchos de tinteiros sejam enviados para lixeiras. Vejo uma mudança semelhante para um supermercado inteligente que esteja a olhar para o futuro. Por exemplo, tudo o que tem de ser adicionado à água de cultivo - minerais, etc - pode ser monitorizado por um terceiro e chegar de forma quase mágica à casa dos consumidores. Vejo estas mudanças nos modelos de negócio como um imperativo absoluto.

É a base da mudança para a economia circular. As organizações que não se estão a basear nos princípios da economia circular não vão ficar muito tempo neste mundo: desenhar produtos evitando o desperdício; produtos como serviço, produtos modulares, recircular materiais e recursos para sempre e regenerar os recursos nacionais. Esgotamos os recursos do planeta ao ponto de que não temos materiais suficientes para sustentar a nossa atual população mundial. Temos de regenerar, fazer melhor, de modo a que possamos ter inputs para alimentar a economia mundial.

Ainda há muito a ideia nas empresas de que não vale a pena investir nesse tipo de estratégias de sustentabilidade e de circularidade porque não ganham nada com isso. Depois temos casos como a Coca-Cola e a Ikea que apostam nesse tipo de estratégia.

A economia circular junta o ambiente e dinheiro. Se uma empresa está envolvida num projeto e está apenas a perder dinheiro não é um projeto de economia circular. Poderá ser interessante, útil, um projeto para o mundo, e compreendo que esteja apreensivo em investir numa estratégia circular se for apenas essa a sua experiência. Pode trazer benefícios já hoje, tanto em custos como em tempo. O que se pensarmos tem lógica: se não temos de começar sempre de raiz, a empresa é mais rápida a colocar produtos no mercado com menos custos. Se pensarmos num negócio na área de móveis, os custos de trabalho são mais elevados, o que gera algum pânico, mas como não está a sustentar os custos de toda a cadeia de abastecimento o custo total é mais baixo e o laboral também. Pode ser mais rápido e mais barato usando operações circulares.

O outro motivo pelo qual as empresas estão a investir é que os materiais estão a ficar escassos: temos menos de 15 anos de ouro no interior do planeta. É um enorme problema para a economia global e temos de encontrar uma outra forma de obter materiais, a nossa relação com os materiais tem de mudar, temos de parar com este mundo de utilização única pois esse material tem mais valor que pode devolver à economia, podemos gerar muito mais dinheiro dos mesmos produtos e materiais. Se grandes empresas como a Coca-Cola ou a Ikea olham para o futuro e constatam que não vão obter plástico feito de petróleo com a abundância e com o custo que tenho hoje consideram que têm de ter uma abordagem diferente. O seu investimento é em assegurar os materiais que necessitam, protegendo o futuro dos seus negócios. Por isso, vimos enormes investimentos de entidades como Black Rock, da JP Morgan, do ING Bank, que estão a investir fortemente neste tipo de negócios regeneradores, porque não há mais nenhuma forma de funcionar no futuro. Poderá não se chamar economia circular, mas será esse o modelo, não há outra opção, não temos outro planeta.

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