Economia da Partilha. O que é teu é nosso, mas tem preço

Futuro da economia está na partilha de bens
Futuro da economia está na partilha de bens

No final de janeiro, a empresa onde Nélia Parreira trabalha lançou um desafio: e se em vez de cada um dos trabalhadores levar o seu carro para o trabalho, passassem a partilhar o transporte e os custos? Nélia aderiu e começou a dividir a sua viagem com três colegas. "Neste período, o meu carro andou menos 3712 quilómetros e poupei em gastos diretos de gasolina e portagens cerca de 320 euros", afirma seis meses depois, e com a certeza de que a prática vai continuar.

Nélia é um dos vários exemplos de portugueses que estão a reinventar o seu dia-a-dia para aderir a uma economia mais colaborativa ou de partilha, que permite poupar e rentabilizar recursos. Em Portugal, esta ideia ainda é recente, mas tem crescido especialmente ao nível dos automóveis e dos imóveis.

Apesar de ser um fenómeno recente, que tem ganho força empurrado pela tecnologia, especialistas de todo o mundo acreditam que a economia da partilha tem muitas potencialidades. Um estudo do Sharing Economy Directory mostra que desde lugares livres num carro a refeições, espaços e competências disponíveis… existem mais de 400 mil milhões de euros de bens que não estão a ser usados a nível mundial e que podem ser partilhados – trocados, emprestados, alugados. Há ainda mais de 8000 serviços associados a este conceito que poderão ser promovidos e divulgados. Feita a contabilização da economia de partilha, o PIB mundial poderia crescer em proporções enormes. O conceito de consumo privado seria outro e haveria uma maior consciencialização para questões ambientais e de aproveitamento de recursos.

Foi o que fizeram Ana (29) e Luís (27) Fernandes, dois entre os 26 700 portugueses com anúncios de casas para arrendamento temporário no Airbnb. A Pausada de Sant”ana – nome que deram ao seu apartamento de 7 quartos – chegou ao portal de arrendamento temporário em dezembro do ano passado e, desde essa altura, tem tido lotação esgotada. Neste momento, quem quiser passar uma noite naquela guesthouse familiar no coração de Lisboa já só vai conseguir vaga para depois de outubro. “Eu e o meu irmão viajamos bastante e a nossa prioridade é sempre gastar pouco com o alojamento. Foi assim que constatámos que em Portugal – e em boa parte dos sítios onde temos ido – havia uma lacuna no segmento do alojamento barato com alguma qualidade”, diz Ana. Apostaram numa decoração de linhas simples e fixaram os preços em valores que estariam “enquanto hóspedes, dispostos a pagar”: entre 9,5 e 15 euros por pessoa; 19 euros por um quarto e 30 euros por um T1.

Com casa cheia desde o início, os rendimentos já lhes permitem amortizar os investimentos que fizeram. É claro que para manter preços baixos há regras: “como a taxa de estadia mínima de 3 noites, que permite poupar em custos de lavandaria e limpeza dos quartos” e o alerta de consciência, “quer em termos de barulho, quer em termos de limpeza”, nas partes comuns da casa. Também estão sempre disponíveis: “Muitas vezes promovemos jantares multiculturais ou desafiamos quem se mostra interessado a vir beber um copo pela noite lisboeta”, personalizando a estadia.

A opinião dos clientes é o centro destes negócios que estão a reinventar modelos tradicionais. “Há uma avaliação constante da qualidade”, lembra o economista Manuel Caldeira Cabral. “As pessoas sabem que há um forte incentivo para um bom serviço e confiam mais nas opiniões pessoais do que nas avaliações clássicas, por exemplo, as três ou quatro estrelas de um hotel”, admite.

Miguel Santo Amaro, um dos fundadores da Uniplaces, lembra que “a crise fez crescer um sentido de comunidade” e que essa máxima também já chegou ao seu negócio de arrendamento de casas para estudantes. “Quando colocamos um estrangeiro numa das nossas casas, contamos a história de quem já lá ficou. No blog e no facebook também apelamos a essa troca de experiências”. Uma chamada “ao que é verdadeiro, ao que é real” e que conta cada vez mais para valorizar o serviço, diz.

É esta a grande vantagem que Miguel Mendes (27) encontra no serviço da Uber face ao dos tradicionais táxis. “A possibilidade de influenciar a qualidade prestada aos clientes seguintes através da minha classificação é um dos pontos fortes. Permite dar visibilidade à performance de quem o presta, característica inexistente no típico serviço de táxi”, conta ao Dinheiro Vivo, admitindo que nas já várias viagens de Uber “o desempenho e rigor consistente dos condutores têm-me levado a dar nota máxima em quase todos os casos. Só por uma vez senti necessidade de dar uma classificação de quatro estrelas”, admite.

A Uber, que está hoje em mais de 300 cidades, espalhadas por 58 países, transporta mais de dois milhões de pessoas por dia. Manuel Caldeira Cabral evidencia que este novo modelo de negócio “veio chamar a atenção para uma clara falta de qualidade dos táxis, especialmente em Lisboa e em pontos estratégicos como o aeroporto”. A explicação, diz, é só uma: “é muito difícil obter uma certificação para taxista, mas também é muito difícil perdê-la. E é por isso que encontramos tantos carros em condições deploráveis, condutores malcriados e com conduções perigosas”, elenca.

Rui Bento, diretor-geral da Uber em Portugal, admite que desde que o serviço chegou cá, em julho de 2014, tem “tido uma resposta muito positiva por parte de utilizadores que a veem como uma alternativa”. Em Portugal, a plataforma conta com “largas dezenas de milhar de utilizadores ativos” e está disponível em Lisboa e Porto. O serviço está conotado com maior eficiência, maior cuidado com o utilizador e viagens mais económicas – mesmo no modelo que não envolve uma partilha de custos. “Foi a prestação de serviço mais cuidada e transparente dos condutores da Uber que me convenceu a manter-me cliente, mesmo quando os preços aumentavam por excesso de procura”, admite Miguel.

A promessa de baixar custos face a negócios até aqui tradicionais é outra das vantagens mais apreciadas pelos utilizadores. É o caso do Airbnb, que está a concorrer diretamente com as unidades hoteleiras, posicionando-se como alternativa viável ao nível do preço e da localização. Mas também é o exemplo da BlablaCar, que facilita a troca de boleias entre portugueses – como a iniciativa que o emprego de Nélia Parreira incentivou a uma escala menor ou que vários grupos privados no Facebook também promovem.

“O crescimento está a ser forte em Portugal”, assume Jaíme Rodríguez de Santiago-Concha, diretor-geral da empresa para Portugal e Espanha. Não divulgam números por região, mas no conjunto dos 19 países onde operam, contam já 20 milhões de utilizadores, um número que “cresce todos os meses”, também um pouco à boleia das necessidades financeiras.

Tiago Caiado Guerreiro, fiscalista, lembra que “entre 90% a 95% do tempo, o automóvel próprio está parado. A partilha de custos permite essa otimização de custos e isso acabará por ganhar uma dimensão económica mundial enorme”.

O mesmo refere Miguel Cordeiro, fundador da empreendedor.com, um site que potencia negócios de economia partilhada entre empreededores. “Estamos a consumir mais de 1,5 vezes os recursos disponíveis no nosso planeta. E para agravar a situação, existem sociedades que consomem várias vezes este valor”, conta, acrescentando que “virtualmente, todos os bens são passíveis de serem partilhados”.

Cândida Rato aplica essa máxima no seu dia-a-dia. Faz parte do Movimento The People Who Share Portugal e é um dos exemplos de quem não tem carro próprio e vive de transportes públicos ou da partilha. Também divide a casa e até o escritório. “Atualmente, 28% das pessoas usufruem da economia de partilha globalmente (o mesmo valor de portugueses que em 2014 referia partilhar carro) e existem mais de 7500 plataformas disponíveis”, refere, admitindo que tem assistido a um aumento significativo destas iniciativas.

O responsável pela Blablacar em Portugal confirma: “A crise económica potenciou uma maior consciência em relação a estes modelos, mas a economia partilhada é um fenómeno muito mais profundo, que está aqui para ficar”. E dá três razões: “a humanidade enfrenta um dos seus maiores desafios, o da sustentabilidade; o consumo está cada vez menos orientado para a posse e mais para a utilização e há uma digitalização da economia”.

Esta máxima encaixa num outro negócio, que nasceu na Argentina, mas rapidamente ganhou dimensão: o OLX. Um site de classificados onde são os utilizadores que dizem o que têm para vender e o que querem comprar. “Em Portugal, o OLX veio mudar o paradigma e os hábitos dos portugueses que sempre guardaram tudo, mesmo o que não precisavam”, admite Rita Marques, diretora-geral para Portugal, o mercado que cresceu mais rapidamente na expansão internacional da marca. O objetivo é simples e foi bem capturado pelas publicidades televisivas que invadiram o País: trocar em dinheiro aquilo que já não se quer. E há de tudo, desde carros a objetos para o lar, artigos de bebé ou livros escolares – um dos segmentos que mais cresce durante o verão. “De um lado, as pessoas podem fazer dinheiro, do outro podem poupar”, sublinha a responsável, que contabiliza cerca de 30 mil anúncios diários, num total de 2,5 milhões disponíveis. Apesar de não saber ao certo quantos contactos geram vendas efetivas, a verdade é que o OLX potencializa mais de 80 mil contactos diários entre vendedores e compradores – tudo a um nível particular.

Ainda que algumas marcas de economia da partilha já sejam conhecidadas da maioria dos portugueses, por cá ainda só se dão os primeiros passos, evidencia Miguel Santo Amaro. “Nos Estados Unidos estão a anos-luz de nós – já é possível não ter carro próprio e viver do car-sharing, também é possível ir ao supermercado e utilizar a sharing economy. Até os Correios, nos EUA já têm alternativas de economia partilhada, como o Postmate, que permite entregas ao domicílio”, afirma.

Não tem, por isso, dúvidas de que a tendência é para aumentar. “O impacto que a sharing economy vai ter ao nível do emprego, dos serviços e do consumo vai colocar-nos questões muito interessantes, que teremos de responder no futuro.

Por exemplo? “O Uber, que presta um serviço em tudo idêntico ao dos táxis, deve ser sujeito ao mesmo tratamento fiscal. É importante que se olhe de forma igual para a regulação e, consequentemente, para as taxas de imposto. Já o Airbnb, que concorre diretamente com os hotéis, deve ter taxas e legislação idêntica”, evidencia Caldeira Cabral, acrescentando que “há duas coisas que os governantes devem evitar: não fazer nada e deixar estes negócios crescerem à vontade, sem regulação, criando uma concorrência desleal e proibir tudo por não existirem regras”, como chegou a acontecer com os Hostels em Portugal.

Tiago Caiado Guerreiro assume, por seu lado, que “é importante que certos serviços ganhem massa crítica até que sejam legislados. Foi o que aconteceu com o Airbnb e é o que deve acontecer com outros exemplos mais pequenos”, diz, sublinhando que “em certas situações até é preferível que Estado se mantenha afastado.”

Adolfo Mesquita Nunes, secretário de Estado do Turismo aponta a mesma via: “Tenho defendido que a postura correta face a este fenómeno é a abertura”, afirma. “Há desafios que vão surgindo, relacionados por exemplo com a privacidade, concorrência ou com as relações laborais, que têm de ser estudados e que têm de ter resposta, mas a lógica não pode ser a de tentar impedir a mudança. Foi o que fizemos com o alojamento local”, afirma o responsável, apontando o exemplo do Reino Unido, que tem estado muito ativo nesta matéria e quer tornar-se “o maior centro de economia partilhada do mundo”.

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