Política Monetária

Economistas: Draghi deve descer juros antes de deixar BCE

Mario Draghi, President of the European Central Bank (ECB) arrives for the European Union leaders summit in Brussels, Belgium, June 21, 2019. Virginia Mayo/Pool via REUTERS
Mario Draghi, President of the European Central Bank (ECB) arrives for the European Union leaders summit in Brussels, Belgium, June 21, 2019. Virginia Mayo/Pool via REUTERS

Os economistas ouvidos pela Lusa antecipam que o presidente do BCE, Mario Draghi, vai descer os juros antes do final do seu mandato, em outubro, e preveem uma continuação da atual linha de política monetária com Christine Lagarde.

“O mercado nesta altura está a dar uma probabilidade de 50% de haver um corte de taxas na reunião de julho e uma probabilidade ainda maior na reunião de setembro”, afirmou Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros, em entrevista à Lusa.

Segundo o também presidente do Conselho de Administração da IMF, “é bastante provável que as taxas de depósito, que hoje estão em -0,4%, desçam dez pontos base para -0,5%”.

“Não estou tão certo da descida da taxa principal, da taxa de refinanciamento [que influencia as Euribor, principal indexante, por exemplo, do crédito à habitação], porque estou um bocadinho cauteloso relativamente à eficácia que essa medida pudesse ter”, acrescentou Filipe Garcia.

Também Joaquim Miranda Sarmento, professor de Finanças do ISEG – Lisbon School of Economics & Management, afirmou, em entrevista à Lusa, que “os mercados aparentemente estão a antecipar” que existe uma descida dos juros pelo BCE antes do final do mandato de Mario Draghi, porque “as taxas de juro estão novamente a baixar” no mercado secundário.

Mas o economista advertiu que “a margem para descer a taxa de juro já começa a ser quase inexistente” na zona euro e alertou para que “uma das grandes questões que a economia europeia e mundial vai enfrentar, se a breve trecho desacelerar”, é, precisamente, como é que se reage a uma desaceleração “quando a margem na política orçamental é praticamente inexistente e a margem na política monetária também é praticamente inexistente”.

“Portanto, pode haver uma descida das taxas de juro, mas será sempre com um efeito marginal relativamente reduzido”, antecipou Joaquim Miranda Sarmento.

Segundo Pedro Lino, economista e administrador da Dif Broker e da Optimize, também “é expectável que até setembro o BCE volte novamente a descer as taxas de juro”.

“Esperava-se que em julho, provavelmente, [o BCE] pudesse descer cerca de 0,10 [pontos], mas os últimos discursos de alguns membros do BCE apontam para que essa decisão seja tomada em setembro e, em vez de 0,10 [pontos], provavelmente será uma redução das taxas de 0,20 [pontos]. Ou seja, os bancos vão ter de passar a pagar 0,6% em vez de 0,4%” ao BCE.

Recorde-se que a taxa de juro aplicável às principais operações de refinanciamento está em zero na zona euro, enquanto a taxa de depósito para os bancos se situa em -0,40%, ou seja, o BCE cobra 0,40% (taxa de facilidade permanente de depósito) aos bancos pelo excesso de reservas a um dia.

Na entrevista à Lusa, Pedro Lino alertou que, num cenário de nova descida das taxas, “mais uma vez o setor financeiro vai estar pressionado no curto prazo, por causa das margens”, e serão os depositantes que terão que pagar aquele custo.

“Não nos podemos esquecer que os bancos vão ter que ter rentabilidade e, em última análise, vão ser os depositantes que vão ter de pagar mais comissões”, disse, acrescentando que existe ainda “uma política de facilitismo de quase obrigar os bancos a emprestar dinheiro, um pouco esquecendo o que deu origem à crise de 2008”, ou seja, a concessão de empréstimos, “muitas vezes sem garantia e que consubstanciavam alguns riscos”, frisou Pedro Lino.

Filipe Garcia antecipou também que exista nos próximos meses, da parte do BCE, “uma sinalização muito clara de uma grande probabilidade de regressar às compras de ativos em mercado secundário se houver necessidade, isto é, se a economia continuar a dar sinais de desaceleração”.

O economista da IMF frisou ainda que “os bancos centrais têm vindo a comunicar numa perspetiva de médio/longo prazo com os mercados para que não haja surpresa”, passando de uma posição de perspetiva de normalização da política monetária, ou seja, de subir taxas de juro, “para uma perspetiva perfeitamente a contrário, ou seja, admitindo cortes da taxa de juro e a injeção ainda de mais liquidez no sistema”.

Já João Duque, economista e professor catedrático do ISEG, afirmou à Lusa que “o BCE, para fazer bem o seu papel, não tem que baixar [os juros], não tem que antecipar, nem diferir qualquer medida, tem sim que tomar a medida no momento certo”.

“Até tinha alguma vantagem que o tempo certo dessa medida já fosse no mandato da Christine Lagarde porque isso mostrava que havia um alinhamento ou não”, antecipou.

João Duque afirmou ainda que se o momento certo for no mandato de Mario Draghi, será ele a descer os juros, senão será Christine Lagarde a fazê-lo. “Acho que Mario Draghi não o fará, nem o vão deixar, só para antecipar uma medida porque Christine Lagarde não gostaria muito”, antecipou o economista, salientando que, de qualquer modo, o presidente do BCE é apenas um “entre muitos dos membros do Conselho de Governadores que votam e que, maioritariamente, acabam por tomar as decisões”.

Na terça-feira, dia 02, os chefes de Estado e de Governo da União Europeia (UE) chegaram a acordo sobre as nomeações para os cargos institucionais de topo, designando Christine Lagarde, atual diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), para a presidência do BCE, sucedendo ao atual presidente, Mario Draghi, cujo mandato termina em 31 de outubro.

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