Conferências do Estoril

Edmund Phelps: “Investimento estrangeiro em Portugal não vai durar para sempre”

Edmund Phelps, Prémio Nobel da Economia em 2006,
( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )
Edmund Phelps, Prémio Nobel da Economia em 2006, ( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

É crítico das políticas de Donald Trump e não tem dúvidas de que a economia mundial enfrenta “riscos sérios”.

Edmund Phelps, Nobel da Economia em 2006, explica em entrevista ao Dinheiro Vivo porque defende um “crescimento à moda antiga”.

Veio às Conferências do Estoril falar de pobreza e desigualdades. Com os avanços da indústria e da tecnologia, como se explica que persistam em larga escala?

Sempre achei a discussão sobre desigualdades fascinante. Há muitos anos que me debruço sobre o problema das pessoas que são pobres apesar de terem um emprego. No entanto, é curioso perceber que não são as pessoas mais pobres que protestam por terem salários baixos.

Vemos isso nos EUA, em França e noutras partes da Europa. Quem reclama é quem está a meio da tabela da riqueza. São eles os mais ressentidos por não verem melhorias nos seus rendimentos. Isto é um verdadeiro enigma para mim. O que podemos fazer para solucionar isto? Tiramos dinheiro aos mais pobres para dar às pessoas com rendimentos medianos? Eu costumava pensar que a justiça tinha de ser feita com os mais pobres, mas agora todas as preocupações estão centradas na camada do meio.

E o que pode ser feito para diminuir as desigualdades na classe média?

Eu percebo e simpatizo com a constante luta da classe que está a meio da tabela da riqueza. Nesse sentido, e de forma a não prejudicar os mais pobres, pode atuar-se ao nível dos cuidados de saúde, por exemplo, que nos EUA são caríssimos. O que não acontece na Europa. No geral, a classe média quer saber porque é que os seus salários não aumentam. E acham que é por causa das classes mais privilegiadas, que são muito beneficiadas pelos governos.

Há uma sensação de injustiça e eu simpatizo com essa ideia. Acho que as grandes empresas têm de facto recursos para exercer influência na legislação e nos governos. Isto no geral, não só nos EUA. É certamente isso que pensam os coletes amarelos em França. Acham que o governo está nas mãos de uma elite que faz leis para seu benefício.

O que pensa do rendimento básico incondicional (RBI) como medida de combate às desigualdades?

Das poucas coisas no mundo que eu abomino, o RBI está no topo da lista. É a pior ideia que ouvi na vida. O que me faz detestá-lo é a própria filosofia inerente de que o trabalho é mau. É a pior atitude que um governo pode tomar ou apoiar.

O trabalho é crucial para o ser humano estar envolvido na sociedade, para ter algo com que ocupar a cabeça. Um governo que adotasse essa medida estaria a aprovar a rejeição do trabalho. Se um governo tem dinheiro para isso, porque não subsidiar as empresas que empregam mais trabalhadores de baixos salários? Esse dinheiro faria uma diferença muito maior na vida das pessoas e na sociedade.

Como avalia o atual momento da economia mundial?

Não acho que estejamos num bom momento económico. Há demasiada incerteza. As tensões entre os EUA e a China ou os movimentos de protesto na Europa também são preocupantes. Tal como o alastrar do corporativismo. Figuras corporativistas, quase fascistas, como Steve Bannon, Trump, Matteo Salvini ou Viktor Orban, são muito assustadores. Já atravessámos períodos difíceis e não diria que este é o pior da história da humanidade. Mas existem riscos sérios.

A economia dos EUA está a crescer. Que balanço faz da política económica de Trump?

Trump fez passar uma lei que aumentou a rentabilidade dos investimentos e está a aumentar os lucros das empresas. Isso teve o efeito imediato de fazer subir o investimento das empresas. Mas essa estratégia não teve em conta que à medida que o stock de capital sobe, como resultado de níveis altos de investimento, a taxa de retorno dos investimentos começa a cair. E à medida que o rendimento cai, o investimento começa a cair também. E isso já começou a acontecer.

Não digo que haverá uma grande recessão, mas a economia vai encolher à medida que isto se tornar mais evidente. Nada que Trump tenha feito está a contribuir para o grande problema da economia, que é a baixa produtividade. Não há qualquer motivo para ficar satisfeito com a economia dos EUA. Nos bons velhos tempos, nos anos 40 e 50, os salários chegavam a crescer 3% ao ano. Nessa altura estavam a ser descobertas novas formas de produção, as empresas tinham dinamismo. É preciso regressar a esse modelo.

Depois da crise, Portugal apostou no turismo e na atração de investimento estrangeiro para recuperar. Acha que é um bom exemplo?

Fico muito satisfeito com a recuperação de Portugal. Tem sido divertido observar do lado de fora todos estes estímulos ao investimento externo. Mas esse investimento não vai durar para sempre. Vai atingir um pico e depois irá necessariamente cair. O que Portugal precisa é de aplicar criatividade à economia, inventar coisas novas, formas de produzir que aumentem o retorno dos investimentos e façam subir os salários.

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