Território

Ela vai liderar 2000 grupos que fazem mexer o mundo rural

Maria João Botelho, presidente da LEARD - Associação Europeia Leader para o Desenvolvimento Rural
 e da Federação Minha Terra. Fotografia: Rui Manuel Ferreira/Global Imagens
Maria João Botelho, presidente da LEARD - Associação Europeia Leader para o Desenvolvimento Rural e da Federação Minha Terra. Fotografia: Rui Manuel Ferreira/Global Imagens

À porta de uma presidência europeia, Maria João Botelho diz que Portugal não está a aproveitar os seus territórios rurais.

A partir de segunda-feira há uma portuguesa à frente do principal organismo europeu que reúne as associações responsáveis no terreno, pela dinâmica do desenvolvimento rural. É conhecido pela sigla LEARD. Só em Portugal, estes grupos já ajudaram a criar 15 mil postos de trabalho.

Ser arquiteta paisagista, engenheira agrónoma e presidente da Federação Minha Terra, depois de ter sido autarca e fundadora de várias associações locais, eis as valências que terão pesado na escolha de Maria João Botelho para o novo cargo europeu, em 2018 e 2019.

Apesar da mudança de escala na abordagem, Maria João Botelho não perde de vista a origem. Admite que “Portugal não está a tirar todo o partido dos seus territórios rurais e a valorizá-los”, embora reconheça haver “sinais que nos levam a pensar que as coisas podem mudar”.

Convencida de que “é preciso investir no interior”, simplifica a receita: “É necessário criar condições para que as pessoas que querem viver e trabalhar nestes territórios possam ter uma qualidade de vida, pelo menos, tão boa como aquelas que moram nas cidades.”

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, sublinha a imperiosidade de se “olhar para o interior com novos olhos, valorizando os serviços prestados pelos diferentes ecossistemas e pela paisagem no seu todo, e não apenas como territórios de produção agrícola e florestal”.

Acredita que, com as linhas subjacentes à futura Política Agrícola Comum (PAC), “há que aproveitar as possibilidades da agenda digital para atrair para os territórios do interior atividades económicas e serviços que antes implicavam investimentos físicos muito maiores”.

No entanto, assume que os 25 anos de intervenção dos programas Leader em Portugal são motivo de “orgulho”. A face visível das quatro gerações do programa traduziu-se em apoios a mais de 22 mil projetos, com um investimento de 1400 milhões de euros e a criação de 15 mil postos de trabalho, desde 1991 até ao final do período de programação anterior.

Na prática, foram projetos na área da agricultura, da restauração, do turismo, de pequenas unidades de transformação que, “muitas vezes, mudaram a vida dos promotores, ao criarem o seu próprio emprego”, a que se juntam outras iniciativas de caráter coletivo, de respostas sociais e culturais.

Por tudo isso, Maria João Botelho aceita: “Talvez estes dados não constem dos relatórios oficiais de avaliação, mas achamos que os territórios rurais estão diferentes, para melhor, e que nós contribuímos muito para isso.”

Como o Leader não pôde beneficiar das regras de transição aplicadas a muitas medidas do PDR 2020, só em junho de 2016 é que foram abertos os primeiros concursos para as medidas geridas pelos grupos de ação local. Mesmo assim, revela que existe “um grande interesse por parte de investidores de pequenos projetos de desenvolvimento nos territórios rurais em aproveitar estes fundos, tanto no que diz respeito às áreas mais ligadas ao setor agrícola como em outras”, e estima que “os envelopes financeiros atribuídos às estratégias dos GAL se vão esgotar no decurso de 2018”.

Quanto ao impacto dos incêndios nas áreas abrangidas pelo programa Leader, adianta que “enviou alertas e propostas concretas às tutelas no sentido de se flexibilizarem as condições de acesso e regras de execução para que os programas pudessem responder melhor às necessidades imediatas”, incluindo a reformulação de estratégias de desenvolvimento. Mas nota que, “a nível dos projetos individuais, nalguns casos, os próprios investimentos foram destruídos e o projeto perdeu-se”.

Tragédias nacionais à parte, e de horizonte agora alargado para uma intervenção europeia, Maria João Botelho já identificou duas grandes áreas de trabalho: a definição de políticas públicas adequadas ao desenvolvimento local e o reforço da própria rede europeia dos grupos Leader. Com uma ambição: “Gostaríamos de ser recordados na Europa por termos conseguido trazer mais-valias para os territórios rurais de todo o continente e também queremos ser recordados no nosso próprio país como uma entidade que conseguiu, na sua função na Europa, trabalhar em prol dos territórios rurais nacionais.”

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