Elétricas europeias querem ajuda das petrolíferas na eletrificação da economia

A EDP e a EDP Renováveis foram as únicas empresas portuguesas a assinar o novo Manifesto da Aliança para a Eletrificação.

Magnus Hall, presidente da associação das grandes elétricas europeias Eurelectric e CEO da sueca Vattenfall, acredita que "será muito natural que as empresas de petróleo e gás se juntem ao movimento de eletrificação da economia" em curso na Europa. "O setor elétrico não pode levar a cabo a necessária eletrificação da economia sozinho. Precisamos de novos players. Eu espero que as petrolíferas se juntem a nós, a bordo do comboio da eletrificação. Mas não podemos obrigá-las a fazê-lo. Apenas sabemos que serão necessários mais investidores de outros setores", disse o presidente da Eurelectric em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Apesar do petróleo e do gás natural ainda fazerem parte do mix energético global durante mais algumas décadas, Magnus Hall garante que "a dada altura vamos ver as grandes petrolíferas a mudar as suas estratégias. Há uma grande necessidade de mais energias renováveis e as petrolíferas vão apostar por aí. Se queremos ter um investimento anual de 100 mil milhões de euros ou mais para eletrificar a economia vamos precisar de ajuda de outros setores e de outras indústrias".

Recentemente, a espanhola Repsol estabeleceu como meta atingir zero emissões líquidas de gases poluentes em 2050, tornando-se na primeira empresa do setor a assumir esta meta, estabelecendo um caminho de descarbonização com objetivos intermediários de 2020 a 2040. Para isso, a empresa vai aumentar a produção de biocombustíveis e produtos químicos com baixa pegada de carbono. Os novos planos de negócios incluirão metas de geração de eletricidade de baixo carbono até 2025.

Por cá, a portuguesa Galp também já manifestou vontade de se tornar mais "verde". Na atualização do seu plano estratégico, a petrolífera nacional garante que mais de 40% do investimento de longo prazo estará relacionado com a transição energética: maior presença do gás natural no mix de produção e desenvolvimento do negócio de geração de eletricidade através de fontes renováveis. Para as renováveis e novos negócios, a Galp prevê alocar entre 10% e 15% de um investimento total que poderá chegar a 1,2 mil milhões por ano até 2022. “Mostra bem o compromisso firme da Galp e dos acionistas” com os novos modelos de negócio e as novas soluções tecnológicas para colocar a empresa no caminho (sem retorno) da transição energética.

Além disso, no espaço de cerca de dois meses a petrolífera reforçou as compras de energia solar em Espanha, com dois contratos de longo prazo, para uma carteira total que já ultrapassa 650 Gwh, energia renovável suficiente para abastecer mais de 200 mil famílias e evitar emissões de CO2 equivalentes a 430 mil toneladas por ano. A Galp garante que mais de metade da eletricidade comercializada em 2018 foi de origem renovável.

No entanto, a Galp não deixou de alertar que o roteiro para neutralidade carbónica em 2050 pode prejudicar "viabilidade" da indústria de refinação, já que a transformação de petróleo em Matosinhos e Sines — duas refinarias da Galp — será reduzida até 88%. Perante os planos do Governo para a “quase completa eletrificação” dos atuais consumos, a Galp defende alternativas, como por exemplo a indústria refinadora ter a possibilidade de desempenhar “um papel central na produção de combustíveis líquidos de carbono”, tendo em conta que já existe uma rede de abastecimento que permitiria reduzir o investimento em infraestruturas novas de transporte e distribuição elétrica.

Magnus Hall garante que a Eurelectric tem conseguido fazer passar a mensagem da eletrificação sozinha, "mas com parceiros, num esforço conjunto, é melhor". "A eletrificação tem de ser feita com vários parceiros, Por isso criámos a Aliança para a Eletrificação. São nove associações de diferentes setores nesta discussão. E a eletrificação une-nos a todos. E no futuro teremos cada vez mais envolvidos nesta discussão. É uma grande oportunidade para todas as empresas porque a eletrificação traz enormes oportunidades de desenvolvimento e de negócio para as elétricas. Vamos estar a investir fortemente, então não vamos poder explorar todas as oportunidades de crescimento que a transição energética apresenta. Temos de fazer escolhas", disse em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Da Aliança para a Eletrificação, criada em junho de 2017, fazem parte a Eurelectric, a European Association for Electromobility (AVERE), European Association of Electrical Contractors (AIE), European Climate Foundation (ECF), European Copper Institute, Eurelectric, European Heat Pump Association (EHPA), Smart Energy Europe (smartEn), SolarPower Europe e WindEurope.

A EDP e a EDP Renováveis foram as únicas empresas portuguesas a assinar o novo Manifesto da Aliança para a Eletrificação, que tem como objetivo chamar a atenção dos líderes europeus, e em especial dos novos Comissários que recentemente tomaram posse, para o potencial da eletricidade para ajudar a cumprir os objetivos traçados para a descarbonização.

"Esta semana a União Europeia apresenta o novo Green Deal, com metas ambiciosas, e queremos enviar mensagens construtivas e contribuir para o diálogo e para o futuro. Acreditamos na eletrificação como uma solução interessante para a Europa. A Comissão Europeia está muito atenta a estas questões, tem "orelhas grandes" face a esta discussão. Não é difícil perceber porquê. A agenda europeia é muito virada para o desenvolvimento: vemos novos investimentos, mudanças no sentido certo, criação de uma agenda em termos económicos e industriais", disse ainda o presidente da Eurelectric e CEO da Vattenfall.

E acrescentou: "Se queremos fazer esta transição energética, temos de garantir que há fundos para o fazer. Há prioridades: a eletrificação é a solução para as alterações climáticas; a eletricidade tem de ser descarbonizada; e a transição tem de ser justa. Cada Estado-membro parte de um sítio diferente, tem os seus pré-requisitos. Temos de reconhecer as diferenças entre cada um. Para sermos bem-sucedidos temos de reconhecer e respeitar essas diferenças. Por isso a Eurelectric acolhe o Fundo Europeu para uma Transição Justa, que pode ajudar os países que estão mais dependentes dos combustíveis fósseis. Além disso é necessário envolver os consumidores, para não pensarem que vão pagar isto tudo nas suas faturas".

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