Em 2020, portugueses vão poupar pouco mais de 2 euros em cada 100

Estudo publicado pelo Ministério da Economia aponta para que a taxa de poupança bata no fundo no final do próximo ano, agravando a vulnerabilidade das famílias numa futura crise.

A taxa de poupança dos portugueses tem vindo a afundar ao longo da última década e a trajetória do futuro próximo aponta para que a queda vá continuar, pelo menos, até ao final do próximo ano. Por essa altura, os portugueses deverão já estar a gastar a quase totalidade dos seus rendimentos. A cada 100 euros ganhos, só vão sobrar dois, preveem investigadores da Universidade Nova num estudo publicado agora pelo Ministério da Economia.

Depois de a taxa de poupança das famílias ter no final de 2018 atingido os 4,6% (numa percentagem revista em alta para 6,5% após revisão da base das contas nacionais, ainda não acomodada neste estudo), o rendimento livre para investir e acumular património vai continuar a cair. Deve bater no fundo e tocar os 2,3% no trimestre final de 2020. E recuperar depois um pouco para os 3,7% já perto do final de 2021.

As previsões são de Tiago Domingues e Margarida Castro Rego, investigadores que projetaram a evolução do consumo das famílias no curto prazo para saber quanto poderá sobrar do rendimento. A previsão, alertam, é tanto mais fiável quanto mais próxima está no tempo, tornando os 2,3% mais prováveis que os 3,7%.

Os dados, calculados para o passado recente e projetados depois para o futuro, permitem concluir duas coisas: que a taxa de poupança deve continuar a cair até bater praticamente no fundo, e que o aumento das poupanças das famílias durante a última crise (recuperou para os 10,6% no início de 2010) foi apenas temporário. Não houve qualquer alteração estrutural nos comportamentos.

“O nível extra de precaução adotado pelas famílias portuguesas após o início da crise financeira conduziu a uma subida momentânea da taxa de poupança pessoal com o receio de imposição de maiores restrições financeiras. Porém, esta recuperação não foi nem substancial nem duradoura”, defendem os autores de “Can a Small Leak Sink a Great Ship?” - que em português será qualquer coisa como “Pode uma pequena brecha fazer afundar um grande navio?”.

Vulnerabilidades nas contas das famílias

A ideia do estudo é identificar as maiores fragilidades nas poupanças portuguesas – que famílias menos poupam e o que as limita – e abrir caminho para se perceber o que podem os decisores fazer para acautelar os riscos (o estudo vai prosseguir). Mas os autores admitem desde já que pode haver hoje menos capacidade para resistir a novos choques.

“Na crise financeira de 2008/2009, as famílias portuguesas estavam altamente endividadas e tinham poucos ativos líquidos com os quais responder aos compromissos financeiros. Numa futura recessão, o problema pode ser mais agravado já que a preocupação dos decisores pode não ter que ver com a liquidez dos ativos detidos mas antes com a sua inexistência”.

E onde estão afinal as brechas? Com base nos dados do Inquérito à Situação Financeira das Famílias (não são ainda considerados os mais recentes, de novembro último), os autores destacam que, não sendo todas iguais, as famílias portuguesas se mantêm financeiramente mais vulneráveis que a média das famílias da Zona Euro. Um dado sobressai: os 20% mais pobres do país reportam níveis de despesa que atingem 147% dos seus rendimentos, muito acima dos restantes estratos de rendimentos (os 20% mais ricos gastam 30% do que ganham).

Aliás, no geral, só 35% das famílias portuguesas dizem ter gastos abaixo dos rendimentos. Metade declara ter rendimentos e despesas equivalentes. Por outro lado, as famílias dizem ver o valor do seu património a cair. Este está também grandemente assente no valor da morada de família (71,7% do património real dos portugueses, em média). E, se o valor do imobiliário tem vindo a recuperar em força desde 2015, ainda não se chegou aos níveis pré-crise. Há ainda dificuldades no acesso a crédito manifestadas por 7,6% das famílias.

O nível decrescente da poupança portuguesa ao longo das últimas décadas é associado pelos autores à adesão à UE e entrada no grupo da moeda única, que ofereceram maior estabilidade de preços e orçamental ao país. Mas muitos outros fatores entrarão nas contas, como o atual quadro de juros muito baixos ou negativos. Um dos problemas apontados está na relação da baixa poupança com um menor investimento.

Para abordar o desequilíbrio gerado, os investigadores sugerem que sejam adotadas medidas para criar um ambiente regulatório mais favorável à poupança, investimento e crescimento, bem como para melhorar a concorrência na produção de bens e tornar mais eficiente o aproveitamento da mão-de-obra. Por outro lado, defendem a necessidade de alargamento dos canais de financiamento não bancário e de políticas macroprudenciais para melhor alocação das poupanças, e ainda uma política orçamental que reduza a carga fiscal e corte despesas contraproducentes.

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