Consumo

Em tempos de covid-19 o que mudou no comportamento dos consumidores? Quase tudo

Fotografia: David Moir/ Reuters
Fotografia: David Moir/ Reuters

Pandemia está a criar consumidores mais digitais, com maior consciência do preço dos produtos e dos serviços e que valoriza produção local.

A pandemia do Covid-19 empurrou os consumidores para o confinamento, fechou a economia, e está a provocar mudanças nos hábitos de consumo. Há um novo consumidor a emergir: mais digital, com maior consciência sobre o preço dos produtos e dos serviços e que dá maior importância à produção local.

Estas são três das tendências identificadas pela última vaga Barómetro Global da Kantar, realizado em mais de 50 mercados países, incluindo Portugal através da colaboração da Direção de Kantar Insights, do Grupo Marktest, representante em Portugal da Kantar Insights Division. Tendências duradouras.

“Acreditamos que estas três tendências se tornarão importantes à medida que as maiores marcas do mundo planeiam os seus caminhos de volta a um crescimento saudável no período pós-pandemia. O comércio eletrónico e, principalmente, assegurar uma ótima experiência do cliente, precisam de se tornar um pilar para todas as marcas. Os operadores bem-sucedidos precisarão estar atentos aos concorrentes D2C emergentes e que foram mais ágeis e criativos durante o período de confinamento. Novas estratégias de agregação de valor precisarão ser desenvolvidas para responder à ansiedade económica que permanecerá por algum tempo. Os que se dedicam à estratégia de marca precisam de avaliar cuidadosamente as suas práticas de aquisição e de explorar as oportunidades criadas por um maior foco na origem dos produtos e matérias-primas”, refere Rosie Hawkins, diretora de Inovação da Kantar.

Mais compradores digitais

Se vagas anteriores do estudo revelavam compradores a experimentar o comércio online pela primeira vez e que o uso deste canal, em consumidores mais experimentados, tinha aumentado significativamente, a Kantar considera que o comércio eletrónico “crescerá ainda mais no próximo ano”

Se quase uma em cada três famílias (32% no total – 40% das famílias com crianças) aumentou ou aumentou significativamente seus gastos com comércio eletrónico no período de pandemia, “globalmente, um em cada três (33%) domicílios acredita que suas as compras online aumentarão no futuro”.

Valor que aumenta para 40% junto dos consumidores conscientes em relação à sustentabilidade, sendo quase metade (45%) nos lares com crianças.

“A aceleração do boom do comércio eletrónico criará também novos segmentos. A nível global, 38% disseram que continuarão comprando nas lojas online que visitaram pela primeira vez durante a crise. 31% dos compradores continuarão comprando novos produtos e serviços que começaram a comprar durante a crise. Em Portugal estes números são ainda mais elevados atingindo 43%”, refere o estudo da Kantar.

Consumidores mais conscientes do preço dos produtos e serviços

O impacto da pandemia na economia, que travou a fundo, refletiu-se na carteira dos consumidores, com cerca de metade das famílias (45%) a ver cair o seu rendimento – uma subida face aos 38% registados na segunda vaga do estudo – e 26% a estimar ver o seu rendimento afectado no futuro.

Há um pessimismo sobre a recuperação da economia a curto prazo. “A nível global, dois terços das pessoas esperam que demore muito tempo para a economia recuperar e que haja um impacto a longo prazo na perda de empregos e nas empresas em dificuldades (subindo de 55% na vaga 1).”

Em Portugal, esse valor é mais elevado – 69% – mas tem estado ao longo das diferentes vagas do estudo da Kantar.

“A nível global, quase três quartos (72%) dos consumidores estão muito ou um pouco preocupados com um segundo surto e com a reintrodução do confinamento. Nas famílias que já sofreram um impacto financeiro, isso aumenta para 76%. A percentagem de pessoas que dizem “prestar mais atenção aos preços” aumentou de 59% na segunda vaga para 68% na quarta vaga”, refere o estudo da Kantar.

O que leva a Kantar a acreditar que face “à ansiedade económica combinada com o pessimismo quanto ao ressurgimento do vírus e o impacto a longo prazo da pandemia” as “estratégias de preço, promoção e valor acrescentado serão críticas para a competitividade das marcas.”

Comprar local

A pandemia também gerou consumidores mais atentos e favoráveis aos produtos produzidos localmente: 65% das pessoas preferem comprar bens e serviços do seu próprio país. “Este valor aumenta para quem se considera ativo face à sustentabilidade (79%) ou envolvido com o tema (72%)”.

A China tornou-se o país que mais defende a compra local (87%), seguida pela Itália (81%), Coreia do Sul (76%) e Espanha (73%).

“Em Portugal esta atitude não apresenta valores tão elevados, mas é partilhada por uma grande maioria (64%). A nível global, 42% dos consumidores dizem que agora prestam mais atenção à origem dos produtos. Nas famílias com crianças, isso aumenta para 52%”, destaca a Kantar.

“Um em cada quatro consumidores considera que as marcas que usam devem trazer a produção de volta para o seu país, sendo este valor mais de 1/3 em Portugal, enquanto um em cada três se preocupa com o risco de segurança de produtos enviados do exterior, sendo este valor um pouco inferior em Portugal.”

Apesar de em queda, os níveis de ansiedade provocados pela pandemia ainda estão elevados, com globalmente 73% agora a afirmar-se como muito preocupados, em comparação com 79% em março. E instalam-se novas rotinas com o confinamento: mais de 40% afirma, por exemplo, estar a fazer mais exercício, mais leitura ou a dormir mais como estratégias para lidar com o confinamento; e mais de metade afirmam alimentar-se de maneira mais saudável e experimentar novas receitas. Nas famílias com crianças, este comportamento atinge quase dois terços (64%).

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