8 anos do memorando da troika

“Chorei muito mas tive mesmo de me ir embora.” Histórias dos nossos emigrantes

Maia, 15/07/2018 -
(André Rolo / Global Imagens)
Maia, 15/07/2018 - (André Rolo / Global Imagens)

Por amor, como Joana. Pela liberdade, como Susana. Para mudar, como Pedro. Ou com negócios, como Cássia e Victor. Escolhem ficar – sem promessas.

Há quem diga que emigrar é desígnio nacional. E a história recente não o desmente. Em 2011, com Portugal a resgate da troika, quase 200 mil portugueses saíram do país em apenas quatro anos. Desde então, o mercado de trabalho perdeu um quinto da juventude que tinha. Sai-se menos agora, mas as perdas não foram estancadas. Se a emigração existia antes, há-de continuar a existir. Mas há quem volte, e “não é pelo dinheiro, de certeza”. Dizem-lhes que o país está melhor, mas o que conta são os projetos pessoais de retorno. Sem promessas de ficarem por cá.

“Agora estou aqui, mas não fecho a porta a uma nova experiência fora”. Pedro Galinha saiu do país em 2011, com a troika a entrar. O espetro largo do que acontecia na economia misturou-se com uma ideia antiga de partir. Era jornalista, e o salário que recebia ia ser reduzido. “Houve o anúncio de cortes no sítio onde eu estava. Curiosamente, o tipo que anunciou os cortes chegou nesse mês com um novo carro – um daqueles sinais das reestruturações à portuguesa”. E Pedro tinha por princípio não ganhar menos do que o valor do seu primeiro salário de sempre – na altura, mil euros.

Partiu para Macau. Foi ganhar o dobro para começar, e subir alguns degraus, salariais e de responsabilidades. Saía de casa e tinha à porta a possibilidade de conhecer mais do mundo. “Todos os dias aprendia alguma coisa, nem que fosse uma palavra em chinês ou um aspecto da história de Macau ou da Ásia. É algo de que sinto um pouco de falta aqui”.

Lisboa, 14/05/2019 - Pedro Galinha ( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Há um ambiente diferente e os salários aumentaram um bocadinho. Mas, globalmente, a situação é idêntica.

 

Já no final de 2017, estava de volta. A experiência naquela região asiática tinha-se esgotado no momento em que quis deixar o jornalismo. “Percebi que seria difícil fazer ali outra coisa”. Somavam-se “os problemas de Macau: as liberdades e garantias mais limitadas, ainda que não de forma gritante, e a questão do ambiente, que também piorou”.

Com um mestrado em relações internacionais, interesse na China e nos direitos humanos, procurava uma organização internacional onde encaixasse. Que acabou por encontrar, um pouco por acaso, em Portugal meses após o regresso. Antes, passou alguns meses numa agência de comunicação e diz que “deu para perceber como está Portugal”. “Não melhorou assim tanto. Há um ambiente diferente e os salários aumentaram um bocadinho. Mas, globalmente, a situação é idêntica. Tanto que eu saio dessa empresa e devem-me salários”. Pedro lembra que “anda há empresas em dificuldades e que têm um funcionamento que não é o mais devido”.

“A troika bateu-me aqui”

Visto de Lisboa, hoje, quase parece mais fácil largar para a Etiópia e reconstruir uma escola em ruínas do que acumular dois empregos para pagar uma renda na cidade. Cássia Lopes tem ambas as provas superadas. É enfermeira e socióloga – fez-se ambas as coisas num percurso ligado ao desenvolvimento internacional – mas, em Portugal, fez tudo ao contrário do que os ciclos económicos fariam prever.

Começa assim. “1998. Final da Expo. 15 anos”. Saiu do país quando a economia estava nos seus melhores anos. Com uma tia e dois primos espanhóis, o pai disse-lhe “vais aprender espanhol e depois voltas para a faculdade”. Foi para Valência. “Fui estudar e nunca mais voltei. Até 2011”. Passou os anos da troika em Portugal, inteiros, até 2014, depois de ter vivido em Espanha, em Inglaterra e na Etiópia.

Depois de ter erguido a tal escola, com uma amiga com quem formou uma organização não governamental, quis estudar enfermagem. “É melhor cá. Saímos mais bem preparados do que em qualquer outro lugar na Europa”. Foi trabalhadora-estudante e viveu, já perto dos 30, em casa da mãe. “Vim deixar de comer em restaurantes tanto como antigamente. Levantava 20 euros e esses 20 euros tinham que dar para o fim de semana todo. E davam!”.

E veio fazer estágios em hospitais onde “saía de manhã de casa e sabia que tinha de levar jantar porque chegava a casa à meia-noite”. “Os colegas choravam porque já não viam a família. E, sim, foi na época da troika, em que toda a parte da saúde se começou a deteriorar”.

Foi nesses anos que, apesar de tudo, Cássia descobriu que adorava Portugal – e que tinha de se ir embora. “A troika bateu-me aqui. Chorei muito, foi muito dramático, mas tive mesmo que me ir embora. Aí senti-me muito uma emigrante portuguesa, como aqueles que tiveram de ir para França. Eu levava azeite e farinheira”.

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Chorei muito, foi muito dramático, mas tive mesmo que me ir embora. Aí senti-me muito uma emigrante portuguesa

Voltava a Inglaterra, recrutada diretamente em Lisboa para trabalhar na unidade de cuidados intensivos do hospital de Cambridge.“Saí de Lisboa com 11 enfermeiras”. A falta de sol, as saudades, e o brexit deram, no entanto, o empurrão para o regresso após quatro anos. E Cássia veio com um projeto: lançar com um colega uma startup ligada ao turismo de saúde, uma ideia nascida quando os amigos lhe enviaram o link do programa Emprender 2020, da Fundação da Associação Empresarial Portuguesa, para fazer regressar emigrantes.

Não resultou, por enquanto. “Vão ajudar? Vão. Mas tens de pôr 20 mil euros. Pões o teu dinheiro e começas o teu negócio. Podes receber algum retorno. Mas isso não é uma ajuda ao emigrante. Ajudar é apresentares o teu projeto e, se for bom, dão-te ‘x’ para poderes começar”, entende.

“Há menos por onde escalar”

Joana Santos foi para Londres apenas com uma reserva de Airbnb e em apenas oito meses conseguiu contrato permanente e subir dois patamares de carreira com um salário que lhe sobrevivia no final do mês. Foi menos tempo do que leva Vicente, quase a nascer, a desenvolver-se totalmente na sua barriga, agora em Portugal, onde tudo leva um pouco mais de tempo.

Saiu em junho de 2015, um ano depois de terminar a licenciatura em Jornalismo e de um estágio não remunerado de três meses numa produtora audiovisual. “O estágio terminou e tive um prolongamento de um mês. Mas disseram-me logo que não havia a possibilidade de passar a contrato. Iria trabalhar a recibos verdes. Não estava disposta a outro estágio de três meses ou a trabalhar 12 horas ou mais – que era o que acontecia – a recibos verdes”, conta.

Em Londres, alojou-se por um mês num Airbnb, pediu o número da Segurança Social britânica e começou à procura de trabalho. “Demorou mais ou menos três semanas”. Após três entrevistas, escolheu ficar numa loja de materiais de construção, na caixa. Rapidamente, passou para helpdesk e para a gestão da carteira dos clientes. Tudo, “em oito meses”. “Uma coisa muito comum na vida profissional em Inglaterra é que sentimos que é muito fácil crescer, mesmo que seja num simples trabalho de loja”.

D.R.

D.R.

Não é que não nos reconheçam, mas há menos por onde escalar. As empresas são mais pequenas, não há tantos patamares de carreira

Depois, esteve no Consulado Geral de Portugal em Londres a trabalhar num novo departamento de apoio a portugueses com dúvidas sobre o brexit. “As condições não eram tão boas. O ordenado era pago pelo Estado português. Mas era um novo desafio”. E tinha “voltado de certa forma a Portugal”. “A informação que nos chegava lá era a de que as coisas em Portugal já não estavam tão más”. Tinha também um namorado, português. Fizeram planos: “Casar e, mais tarde, ter um bebé”. E regressaram.

As coisas estavam mesmo melhores? “Arranjei trabalho passados três meses de cá estar. Comecei a trabalhar na área de marketing. Confirmei aquilo de que suspeitava, que as coisas estavam a ficar mais estáveis. Claro que as condições não eram tão agradáveis como em Londres, mas permitiam-me estar junto da minha família e fazer o que vinha fazer”. Progredir no trabalho, no entanto, demora mais tempo. “Não é que não nos reconheçam, mas há menos por onde escalar. As empresas são mais pequenas, não há tantos patamares de carreira”.

“Uma espécie de Hollywood da dança do ventre “

Susana Cardoso voltou a Portugal em 2014, último ano da troika, obrigada, e com saudades não tanto do país, mas da liberdade após dez anos no Egito, país onde tem parte da família. A revolução no país tinha acontecido três anos antes e obrigado ao repatriamento de muitos portugueses. Susana insistiu um pouco mais. Mas voltou. “A crise foi lá. Ninguém se entendia”, recorda.

É gestora de tecnologia de informação numa multinacional, e foi-o também no Cairo. Mas, sobretudo, é conhecida no Egito por dançar. É bailarina de danças orientais, e dançou com os maiores no Egito. Fala das bailarinas Raquia Hassan e Dina, do coreógrafo Mahmoud Reda. Estava no sítio certo. “É uma espécie de Hollywood da dança do ventre e é lá que as bailarinas são mesmo profissionais”. “O sonho de qualquer bailarina oriental é ser reconhecida no mundo árabe. Lá é o topo e abre-nos as fronteiras. Foi assim que eu fui para França, para a Alemanha. Somos reconhecidos por sermos profissionais no Egito”.

D.R.

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Se foi no Cairo que mais se realizou como bailarina profissional – tinha inclusivamente uma banda própria que a acompanhava –, ainda assim o regresso começou a acenar-lhe. Havia saudades do país, da família que estava em Portugal, da natureza, “porque lá só se vê areia”. E mesmo com as dificuldades que o país vivia então, oferecia qualidade de vida: “Poder ter a liberdade de sair à rua, de usar uma manga curta e ninguém olhar, de ir à praia – coisa que não existe lá”.

Não é com benefícios fiscais que vão lá. Os salários lá fora são muito diferentes, mesmo no Egito.

Faz em Portugal o que fazia no Egito, sem grandes diferenças, ainda que tenha posto um pouco a dança de parte. Mas quando lhe falam em apoios ao regresso do emigrante, desconfia. “Não é com benefícios fiscais que vão lá. Os salários lá fora são muito diferentes, mesmo no Egito. O salário mínimo em Portugal é muito baixo. Se não tivesse tido a proposta de trabalho para a empresa onde estou hoje, não regressava. As rendas são muito caras”. E não põe de parte voltar a sair. “Por agora, não. Embora eu mantenha a minha casa no Egito e não a queira vender. Significa que ainda há algo que me diz que qualquer dia…”.

“O que é que neste país não é difícil?”

Victor Ferreira só viu ao longe o Portugal de entre 2011 e 2014. Saiu um ano antes. Voltou um ano depois. Deixou a produtora de audiovisual onde trabalhava e partiu para Buenos Aires, Argentina, para estudar Cinema.“Nunca se está totalmente satisfeito. Não estava mal, mas estava a precisar de mudar. Sentia-me estagnado, mas a questão era pessoal, de me desafiar”, recorda.

O percurso, lá, não foi difícil, mesmo sem ser desafogado. Trabalhava e estudava. “Estava a fazer coisas muito mais parecidas com aquilo que eu quereria fazer enquanto estava cá, também por estar a estudar e ter conhecido as pessoas que me conseguiram introduzir nessa área”. E, nos últimos dois anos, “já teria uma qualidade de vida se calhar maior do que aqui”. É difícil comparar. Lá, por exemplo, era mais fácil viver apenas com a namorada. Algo que não acontece agora. Em Lisboa, já regressado, Victor tem de partilhar casa com outras pessoas.

No deve e haver, diz que ganhou na Argentina “formação, experiência com as pessoas, viajar”. Admite que podia ter viajado mais, mas os amigos que fez ficaram, e visitam-no. Também lhe dizem para voltar. Ganhou assim também “um calor bom”. Mas, precisava de “voltar para pensar no que queria fazer”. Ainda “demora a voltar a encaixar em casa”.

(Carlos Costa/Global Imagens)

(Carlos Costa/Global Imagens)

Não estava mal, mas estava a precisar de mudar. Sentia-me estagnado, mas a questão era pessoal

Mas criou com amigos uma produtora. “Tentamos focar-nos mais em cinema. Acabámos de estrear um documentário no Indie Lisboa, mas fazemos de tudo, desde imagem institucional a trabalho publicitário”. Também estreiam este ano uma série de animação num dos canais da RTP. É difícil? “É. O que é que neste país não é difícil?”, devolve. E o mais difícil de tudo, na área em que trabalha, é “conseguir assegurar um fluxo de trabalho que assegure o dinheiro que permita ter qualidade de vida. Requer mesmo muitas horas de trabalho”. Além disso, há que trabalhar num “país hiper-centralizado onde as coisas se passam em Lisboa e pouco mais”. E Lisboa é cara. Neste momento, a produtora de Victor está no Centro de Inovação da Mouraria. “Permite ter um espaço e com boas condições, a um preço fixe”.

É o sítio onde Victor está, por agora, a meio caminho ainda de Buenos Aires ou de qualquer outro lugar. “Fica sempre o bichinho de ir para um sítio novo onde ninguém te vai conhecer, onde tu não conheces ninguém, de ser tudo novo – incrível ou não”.

Para que estas histórias não se repitam e Portugal não perca uma nova geração de jovens, os mais qualificados de sempre, o governo lançou, no ano passado, o programa Regressar. Inclui incentivos fiscais para quem retorne em 2019 e 2020, e medidas ainda em preparação para baixar os custos da deslocação de volta a Portugal. Victor e muito outros chegaram cedo demais para beneficiarem das medidas. Ainda não há um balanço do programa. Mas se não for bom para Victor, será pelo menos bom para Portugal. “Num país que está tão envelhecido, que precisa tanto de pessoas que queiram mudar as coisas e empreender – todas essas coisas que se dizem agora – só faz sentido existirem incentivos”.

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