Coronavírus

Empresários: bancos atrasam e querem ter lucro com crédito urgente

Bernardo Theotónio Pereira, sócio da FIRMA.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
Bernardo Theotónio Pereira, sócio da FIRMA. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Lentidão e burocracia no acesso a linhas de crédito estão a afastar empresas das soluções criadas pelo governo, lamenta Bernardo Theotónio-Pereira.

O governo aprovou em tempo recorde uma série de medidas para as empresas fazerem face aos efeitos do novo coronavírus na economia, mas o resultado está longe de ser o que se pretendia. É que as linhas de crédito de emergência não só estão a demorar tanto tempo quanto leva uma aprovação de processo regular como comportam juros que começaram por ser de 2% a 4%, consoante sejam ou não PME Líderes, mas os bancos cobram essa taxa sobre a totalidade do empréstimo, mesmo sendo este 80% a 90% garantido pelo Estado.

“A linha em que os bancos estão a apostar para ajudar as empresas nesta fase de emergência é a Capitalizar. E entre o que a banca cobra em juros, taxas e comissões de abertura do dossier, mais os 0,5% de garantia mútua e restantes despesas, e o mês que leva a aprovar o crédito, muitos restaurantes e outras pequenas empresas não vão ter condições para recuperar”, lamenta Bernardo Theotónio-Pereira, cofundador da FIRMA.

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O empresário sublinha ainda que, além do tempo para a aprovação “que inviabiliza, por exemplo, pagar os salários do mês porque o dinheiro só estará disponível em meados de abril”, melhor das hipóteses, a burocracia não é de todo agilizada ou aliviada. Aceder à linha de crédito implica entregar certidões, contas, avales e balancetes e toda a documentação normalmente pedida num crédito. “Só os restaurantes, por exemplo, o setor que foi em grande medida obrigado a fechar, tem todos os salários para pagar”, um exemplo multiplicável por milhares de pequenos empresários do turismo e restauração, entre outros setores.

Na negociação com Bruxelas, domingo, já foi possível chegar a acordo com a Associação Portuguesa de Bancos para baixar as taxas de juro iniciais para 1,5% a 2%, mas não se adiantou nada sobre as restantes comissões. “Os bancos estão a tentar ganhar dinheiro com a urgência das empresas, é uma vergonha, é amoral”, diz Bernardo Theotónio-Pereira, que espera que da reunião que o ministro da Economia, Siza Vieira, esta tarde saiam melhores notícias para o tecido económico.

Para o fundador da FIRMA, que dá aconselhamento a empresários sobre oportunidades de investimento, há ainda outra questão: “Se a linha de crédito tem garantia do Estado de 80% a 90%, não faz sentido que a banca cobre juros sobre essa parte do montante que seguramente vai receber de volta.” No entanto, as condições atuais é isso que acontece: os juros são cobrados pela totalidade e não pelos 10% a 20% cujo pagamento não está assegurado. “Se as empresas pudessem escolher entre financiar-se diretamente no Estado ou ir à banca, seria normal que as condições fossem distintas mas isso não é uma possibilidade desde a moeda única: só a banca assegura os créditos à economia.”

Bernardo Theotónio-Pereira recorda ainda que, quando os bancos foram resgatados, na última crise, tiveram acesso a injeções de capital a 0,8%, em condições extraordinárias e num momento em que os juros da República estavam longe dos valores que assumem hoje – em que a taxa a certas maturidades está negativa. “Não se entende então que não criem as melhores condições para as empresas num momento em que o que está em causa é salvar a economia. Nestas condições, as empresas não vão aguentar-se.”

 

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