Empresas portuguesas na Holanda criam ilusão de investimento

Pedro Reis, presidente da AICEP
Pedro Reis, presidente da AICEP

“Não tenho conhecimento de investimento direto estrangeiro
(IDE) produtivo em Portugal”, afirma Basílio Horta, antigo
presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de
Portugal (AICEP)
. A realidade não cola com os números e vice-versa.
A estatística do Banco de Portugal mostra um crescimento
significativo. Os fluxos líquidos (investimento menos
desinvestimento) de IDE passaram de 1,9 mil milhões de euros, em
2010, para 7,4 mil milhões em 2011. Se retirarmos os 5,4 mil milhões
provenientes de movimentos financeiros com origem na Holanda,
Portugal só terá recebido dois mil milhões de euros.

Dito de outro modo, o IDE estagnou no ano passado e a estatística
está a ser alimentada por movimentos financeiros (equity capital)
provocados sobretudo pelas 16 empresas cotadas no PSI 20, que têm 31
sociedades registadas em Amesterdão. “A maior parte das
empresas cotadas têm sede na Holanda e geram movimentos de capitais
a partir desse país. São movimentos contabilísticos e as empresas
estão lá porque têm um regime fiscal muito favorável. O primeiro
país de exportações de capitais é a Holanda”, explica
Basílio Horta.

“Diversas multinacionais têm a sua sede na Holanda, o que em
termos de fluxos financeiros será uma das explicações desta
tendência”, reconhece Pedro Reis, atual presidente da AICEP,
quando questionado sobre a origem de um fluxo tão elevado de IDE de
origem holandesa.

Eric van Leuven, presidente da Câmara de Comércio
Portugal-Holanda e managing partner da Cushman & Wakefield em
Portugal, corrobora a explicação e confirma a estagnação do IDE.
“Se houvesse investimentos produtivos holandeses em Portugal, a
Câmara de Comércio saberia. Infelizmente, não me lembro de quase
nenhum investimento estrangeiro, independentemente da nacionalidade.
A verdade é que Portugal deixou de estar na moda em termos de IDE.”

A evolução ao longo do primeiro semestre indicia novamente uma
tendência para o fluxo de capital em detrimento do investimento
produtivo. Os números mostram que dos 6000 milhões entrados até
junho, o Luxemburgo foi responsável por 3600 milhões de euros. “O
Luxemburgo é uma praça muito querida pelo sector financeiro. O
grupo Espírito Santo tem uma presença importante nesse país”,
recorda Eric van Leuven. Após a aprovação do Orçamento do Estado
para 2012, o Banco Espírito Santo (BES) retirou-se da zona franca da
Madeira e transferiu-se para o Luxemburgo. Na altura, o BES tinha um
volume de negócios equivalente ao orçamento de quatro anos da
região autónoma.

“É de supor que as reformas estruturais em curso, aliadas a
fatores em que Portugal mantém índices de competitividade
interessantes, possam constituir fatores de atratividade para
investidores estrangeiros”, afirma Pedro Reis. Nos cálculos do
FMI, Portugal poderá receber 20 mil milhões de euros em IDE até
2016, mas o momento atual coloca em risco estas previsões. “Acho
que o governo conseguiu perder o capital de confiança em apenas três
dias [anúncio da TSU]. E o investidor estrangeiro precisa de
estabilidade fiscal, política e social”, considera Eric van
Leuven.

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