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Empresas portuguesas no Brasil querem sobrevivência de Temer

Primeiro Ministro português,  Antonio Costa, e o Presidente brasileiro Michel Temer  REUTERS/Adriano Machado
Primeiro Ministro português, Antonio Costa, e o Presidente brasileiro Michel Temer REUTERS/Adriano Machado

Instabilidade política e adiamento das reformas são os maiores temores dos empresários. Há menos 289 empresas portuguesas a exportar para o Brasil

A enésima crise política no Brasil, deflagrada há um mês após a revelação de gravações comprometedoras que podem levar à queda de Michel Temer, desassossegou as empresas portuguesas, que torcem por estabilidade política e pela concretização rápida das reformas que o atual presidente pretende realizar.

Nuno Rebelo de Sousa, presidente da Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil e diretor institucional da EDP, defende que a continuidade de Temer é a melhor solução para evitar ainda mais riscos [ver entrevista ao lado].

Entre as maiores empresas portuguesas a operar no Brasil e atentas aos contornos que a crise pode tomar, estão a EDP, Galp, as construtoras Teixeira Duarte e Mota Engil, o Millennium BCP, Delta Cafés, Azeite Gallo e muitas outras. É que a crise política e económica já fez vítimas: o número de empresas portuguesas a exportar para o Brasil caiu, no ano passado, para 1453, menos 289 (-16,6%) que em 2013, era Dilma Rousseff presidente, enquanto o valor das exportações minguou para 538,8 milhões de euros, uma quebra de 27% em três anos.

O “risco Brasil”, entretanto, já aumentou, segundo afirmou ao DN/Dinheiro Vivo Alex Agostini, diretor-chefe da Austin Rating, a mais antiga agência de risco do país. “Com um presidente acusado de corrupção, o ‘risco Brasil’ aumentou, é um facto, até porque Temer estará muito mais preocupado em salvar-se do que em tentar apoio suficiente no Parlamento para aprovar as essenciais reformas da Segurança Social e laboral.”

“O Brasil estava numa boa fase até à crise dos áudios do presidente, cujo turbilhão levou a queda abrupta na bolsa, alta no dólar e subida nas taxas de juro. Por isso, os riscos já aumentaram para as empresas, portuguesas e outras”, acrescenta Alexandre Wolwacz, sócio-fundador da L&S Investimentos.

“Mas aumentarão mais ainda se as reformas laboral e da Segurança Social não forem aprovadas. Por causa dessa postergação, o investidor fica reticente e com isso desvaloriza a moeda, cai a bolsa e aumenta o risco para os empresários”, diz Agostini. “Por outro lado”, acrescenta Wolwacz, “o epicentro da crise é a JBS [cujo dono Joesley Batista gravou Temer], a maior empresa de agricultura e pecuária, setor que tem força para puxar a economia brasileira toda para baixo”. “Se puder dar uma estimativa, o Brasil atrasou, na melhor das hipóteses, uns oito meses com esta crise.”

Um cenário económico que pioraria se, como sublinha Nuno Rebelo de Sousa, o desfecho político fosse o de eleições antecipadas. “O cenário de eleições antecipadas seria catastrófico para o Brasil e, por consequência, para as empresas portuguesas, porque as reformas laboral e das pensões são essenciais.”

A propósito da reforma laboral, os empresários portugueses ouvidos pelo DN/Dinheiro Vivo queixam-se sobretudo de uma legislação antiquada. “A Consolidação das Leis Trabalhistas, sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, em 1933, ainda vigora, com poucas alterações”, lamentam-se, “e a justiça do trabalho é lenta”.

O ministro das Finanças, a quem na prática tem cabido governar o país, dado o empenho de Temer apenas em salvar-se politicamente, tem tentado tranquilizar os investidores: “Não se sai da maior recessão da nossa história, que deixou 14 milhões de brasileiros no desemprego, do dia para a noite, mas as previsões do governo são de aumento do emprego e retoma dos investimentos ainda durante este ano”, disse Henrique Meirelles.

O presidente do Banco Central Ilan Goldfajn é menos otimista e lamenta “haver uma crise política todas as sextas-feiras”, referindo-se ao dia em que a Lava-Jato, operação policial anticorrupção, costuma fazer detenções. “E a crise política pode sim comprometer as reformas”.

A última crise política brasileira começou dia 18 de maio, quando foi divulgado o teor de uma gravação feita por Joesley Batista, dono da JBS, líder mundial do setor do processamento de carnes, a Michel Temer, num encontro no Palácio do Jaburu, residência oficial do presidente da República. Nessa reunião, Temer teria, de acordo com a leitura da polícia, pedido a Batista para comprar o silêncio de um deputado corrupto, ouvido, sem reagir, relatos de compra de juízes e aconselhado o empresário a comunicar-se com Rocha Loures, um deputado da sua “mais estrita confiança”.

A oposição exigiu a queda imediata do presidente, as ruas encheram-se de manifestantes a pedir “diretas já” e partidos da base aliada do governo chegaram a retirar os seus ministros do executivo para não se deixarem contaminar por Temer, entretanto investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção, organização criminosa e obstrução da justiça.

Num primeiro momento, o escândalo derrubou a Ibovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo, que caiu 12%, a maior descida em nove anos, e teve de interromper as negociações dada a avalanche de vendas. E o real desvalorizou 11% face ao dólar. Apesar da leve recuperação desde então, os analistas já não acreditam nas recentes previsões de 1,5% de aumento do PIB este ano e de 4% em 2018 e temem que a queda de inflação para 4% possa estar comprometida.

Um cocktail que pode ser desastroso para os negócios das empresas portuguesas.

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