fundos europeus

Empresas que ganham os fundos europeus são à partida mais fortes

Ricardo Paes Mamede, economista. Fotografia: 
Gustavo Bom / Global Imagens
Ricardo Paes Mamede, economista. Fotografia: Gustavo Bom / Global Imagens

Grupo de economistas do ISCTE, coordenado Paes Mamede, avalia impacto dos fundos europeus de inovação no desempenho e na força das empresas portuguesas.

As empresas que captam fundos comunitários atribuídos a Portugal já são, à partida, antes do apoio, mais fortes e promissoras. Empregam mais pessoas, pagam melhor, são mais produtivas, exportam mais, têm uma faturação maior.

Uma equipa de oito peritos do ISCTE, coordenada por Ricardo Paes Mamede, começou a fazer um estudo profundo sobre o que é que os milhares de milhões de euros em verbas da Europa fizeram à economia a nível mais micro. A ideia é escrutinar o que sucedeu em termos de valor acrescentado, lucros, produtividade, emprego, volume de negócios, quota de mercado e taxas de sobrevivência empresariais, etc.

Ou seja, tentar apurar o impacto dos fundos (do anterior quadro comunitário, o QREN) na chamada economia empresarial real; medir como se alterou o desempenho das empresas beneficiárias. E, já agora, como ficaram as outras que, estando ao mesmo nível, não captaram ajudas.

A apresentação geral e inaugural deste projeto decorre esta sexta-feira à tarde (17 de novembro), no ISCTE, em Lisboa. Pode acompanhar esta investigação, à medida que ela for crescendo, aqui.

Uma das primeiras conclusões extraída do cruzamento entre várias bases de dados (Sistema de Contas Integradas das Empresas, do INE; Quadros de Pessoal, do Ministério do Trabalho, extensa informação do Instituto Nacional de Propriedade Industrial, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência) é que, tendencialmente, as melhores companhias captam os apoios mais facilmente. Têm mais capacidade, saúde e incentivos a fazê-lo.

“Parece-nos que as empresas em Portugal não têm desempenhos diferentes por serem apoiadas ou não. É possível que as empresas que mais cresceram, tendo o apoio, fossem crescer mais de qualquer das formas”, começa por referir o economista coordenador, em conversa com o Dinheiro Vivo.

Isso nota-se nos primeiros dados que emergem deste estudo. De facto, as empresas que se candidataram e tiveram subsídios do QREN já eram, à partida, mais musculadas que as outras que nunca os receberam (ver quadro em baixo).

Fonte: Dinâmica'Cet - ISCTE-IUL, Ricardo Paes Mamede

Fonte: Dinamia’Cet, ISCTE-IUL, Ricardo Paes Mamede

As que foram apoiadas tinham quatro vezes mais trabalhadores ao serviço, já faturavam sete vez mais, tinham uma produtividade do trabalho 70% superior, registavam níveis de investimento médios esmagadora mente maiores, pagavam melhor (mais 22%, em média) aos seus trabalhadores. E já exportavam alguma coisa, ao passo que as que não se candidatam aos fundos exportavam virtualmente zero, mostram os primeiros dados.

“Ou seja, as empresas apoiadas tendem a ser muito diferentes das empresas não apoiadas, antes mesmo de os apoios terem lugar”, diz o coordenador da equipa.

Há várias razões que explicam o desinteresse de muitos empresários em relação ao QREN. “Há empresas que consideram os custos das candidaturas demasiado elevados e por isso optam por não ir aos fundos”, por exemplo.

“Seria pois um erro afirmar que a política tinha funcionado só porque o desempenho médio das empresas apoiadas após o incentivo foi melhor do que o das empresas não apoiadas – a diferença pode dever-se ao facto de os sistemas de incentivos apoiarem empresas que são à partida mais promissoras”.

Medir os efeitos dos 5 mil milhões de euros que o QREN deu à inovação

No total, o QREN (a programação que correu entre 2007 e 2013) injetou na economia até 2014 mais de 21 mil milhões de euros. Os peritos vão analisar os efeitos de uma parte substancial desse dinheiro (cerca de um quarto) sobre a morfologia empresarial, o impacto dos cinco mil milhões de euros em subsídios entregues através do chamado “sistema de incentivos”.

Paes Mamede explica que o desempenho das empresas (o resultado) mede-se através da evolução ao nível de “valor acrescentado, lucros, produtividade, emprego, volume de negócios, quota de mercado e taxa de sobrevivência”.

Os inputs são os apoios canalizados para “investimento em inovação investigação & desenvolvimento, propriedade industrial, tecnologias da informação e comunicação e economia digital, novo equipamento de produção, gestão da qualidade, certificação, novas práticas de marketing, novas formas organizacionais”.

O manancial de dados (ver quadro com os dados gerais, em baixo) mostra ainda que os referidos cinco mil milhões de euros que vieram pela vertente “sistema de incentivos à inovação” corresponderam a investimentos totais elegíveis de 12,2 mil milhões de euros, distribuídos por quase 14,5 mil projetos.

Ou seja, o apoio europeu financiou, em média, 41% dos investimentos em causa. Cada projeto recebeu em média 349 mil euros. De todos os projetos que se candidataram, foram aprovados 52%, indicam os novos dados preliminares.

Fonte: Dinamia'Cet, ISCTE-IUL, Ricardo Paes Mamede

Fonte: Dinamia’Cet, ISCTE-IUL, Ricardo Paes Mamede

“No entanto, intuitivamente, se duas empresas são idênticas em tudo o que é relevante para o desempenho exceto no facto de uma ter sido apoiada e outra não, então a diferença de desempenho só pode ficar a dever-se ao apoio público. É o que vamos tentar descobrir com este estudo, também”, acrescenta o coordenador do estudo.

A equipa de avaliadores é composta por Ricardo Paes Mamede (coordenador), Vitor Corado Simões, Teresa Fernandes, Manuel Mira Godinho, Daniele Bondonio, Henrique Pereira (bolseiro), Rui Cartaxo (bolseiro), Telma Silva (bolseira).

O professor Bondonio, da Universidade Universidade de Piemonte Oriental, “é perito em avaliação contrafactual e membro da equipa que fará um balanço das avaliações sobre políticas de apoio às empresas no contexto europeu”.

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