Brexit

Empresas temem que brexit obrigue a despedimentos

REUTERS/ Phil Noble
REUTERS/ Phil Noble

Indústria e regiões mais pobres do país são as mais ameaçadas pela saída do Reino Unido da UE.

É um divórcio amargo que vai deixar marcas. Com o Reino Unido de malas feitas após 46 anos de União, é tempo de fazer contas à separação de bens. Entre as já anunciadas medidas de contingência e campanhas para minimizar os danos, Portugal vai-se preparando para o choque. Há mais de 2800 empresas nacionais que dependem do reino de Sua Majestade. Nem todas vão escapar ilesas.

É ao norte do país que o furacão Brexit vai chegar com mais força. A região do Tâmega e Sousa, a mais pobre de Portugal e uma das mais empobrecidas da Europa, está entre as mais afetadas pela saída do Reino Unido da União Europeia, segundo um estudo da Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

O país governado por Theresa May é um mercado “de conforto” e próximo, culturalmente e na distância de avião, sendo o primeiro destino de exportações para uma parte substancial das indústrias de têxtil e calçado.

Apesar do plano de contingência do governo, as empresas dizem que o primeiro impacto é inevitável e poderá ser absorvido pelos trabalhadores. Haverá despedimentos? “Há essa possibilidade”, diz ao Dinheiro Vivo Paulo Dinis, diretor geral do Conselho Empresarial do Tâmega e Sousa (CETS).

O empresário antevê “uma perturbação na região” onde 40% do volume de negócios está ligado à indústria transformadora, e cujos exportadores se habituaram ao Reino Unido. “A primeira medida necessária é uma nova cultura de internacionalização”, defende Paulo Dinis, para quem os 50 milhões de euros de crédito darão uma ajuda, mas não vão acudir às necessidades imediatas. “A questão é saber se temos tempo útil para resolver o primeiro impacto. Será difícil”, prevê. “Não será um instrumento de crédito que vai resolver os problemas”, conclui.

Menos pessimista está César Araújo. O empresário e presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção admite que as empresas “estão preocupadas”, afinal o Reino Unido vale 15% das exportações do setor. Mas explica que nos últimos anos têm sido feitos esforços para conquistar outros mercados, de forma a minimizar as perdas. “Em março não vai acontecer nada mas se daqui a seis meses a libra desvalorizar vai ser um problema, porque eles não vão ter dinheiro”, alerta. Para já os riscos são diluídos porque as empresas fazem negócios a seis meses, fixando as vendas ao cambio atual.

Vinho do Porto da Rainha pode ficar mais caro

No Alto Minho, outra das regiões em risco, o Brexit provocou despedimentos logo em 2016, recorda Luís Ceia, presidente da Confederação Empresarial do Alto Minho. Terá sido “um aproveitamento noticioso” pelas empresas, misturado com “algum pânico”. No Minho há 29 empresas a exportar com dimensão para o Reino Unido, e o fabrico de componentes automóveis deverá ser “o setor mais vulnerável”.

“É talvez a franja de produtos transacionáveis mais facilmente substituíveis”, admite Luís Ceia, sinalizando a emergência de novos produtores reconhecidos no mercado, como Marrocos. No vinho, granitos e têxteis – outras vendas fortes – as relações de confiança no consumo deverão mitigar um eventual aumento de custos nas alfândegas, prevê o dirigente.

Quem também tem estremecido com as notícias de uma saída sem acordo é Adrian Bridge, diretor-geral da The Fldgate Partnership, que detém o vinho do Porto Taylor’s e é o fornecedor oficial da Casa Real Britânica. “O Brexit é uma grande perturbação. O Reino Unido representa 25% das nossas vendas e é o mercado mais importante do vinho do Porto de categorias especiais, que são o motor do Douro e dos seus viticultores. Desde o referendo de 2016 que o negócio foi afetado pela desvalorização da libra. Se o Reino Unido sair a única maneira de conseguirmos continuar a fazer negócio será subir os preços”, avisa.

O Reino Unido é o quarto maior mercado das vendas portuguesas ao estrangeiro. Em 2017, as exportações chegaram aos 3,6 mil milhões de euros. Há, segundo um estudo da AICEP, 26 empresas em Portugal que só exportam para o Reino Unido. Existem ainda 53 empresas que vendem aos britânicos mais de dez milhões de euros em bens. O que vai ser delas?

“Espero que o Brexit não seja uma alavancagem das empresas para despedir”, manifestou esta semana Carlos Silva, secretário-geral da UGT, após a reunião de concertação social que tratou do plano de contingência. Mas o risco existe e não é só na indústria. O setor do turismo será um dos mais afetados quando os britânicos fizerem check-out da UE. Regiões como a Madeira e o Algarve vão precisar de um bote salva-vidas.

Com a desvalorização da libra nos últimos dois anos, o Algarve viu o turismo britânico recuar 8,5% em 2017 e 16,1% já no último ano – em parte, também pela recuperação dos mercados concorrentes no Mediterrâneo oriental.

A hotelaria do Sul entende, no entanto, que é preciso reforçar a promoção e quer estar mais envolvida nas ações do Turismo de Portugal previstas no plano de contingência.“Deveriam ser articuladas com o sector privado no sentido de a promoção ter uma componente de vendas”, afirma Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve.

As propostas de corredores especiais para turistas britânicos no aeroporto de Faro e de facilitação nos vistos são bem acolhidas, mas no que toca a fundos de apoio o turismo diz ser “o parente pobre da economia”. O setor teme não ser incluído na linha de crédito de 50 milhões de euros anunciada pelo governo. “Quando chega a hora da verdade, tomam-se medidas para apoiar outras atividades e não o turismo, que é a principal atividade exportadora”, diz o responsável da hotelaria do Algarve.

O valor das taxas aeroportuárias é outra preocupação. “Pelo facto de o Reino Unido não ser espaço Schengen e a libra ter desvalorizado, as taxas têm subido”, nota Elidérico Viegas.

No total, os ingleses representam 17% das receitas do turismo em Portugal. Se tiverem um bilhete só de ida para fora da UE, o setor pode ficar a ver navios.

Exportações portuguesas e Brexit
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