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Rocha de Matos: IVA devia ser de 6% em todos os eventos para ajudar o turismo

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A pandemia está a mudar os eventos e a própria FIL vai ter de se adaptar. Fundação AIP ainda não sabe se a Web Summit vai ser como antes.

A Fundação AIP é a proprietária de dois dos maiores espaços de realização de congressos e feiras em Lisboa – a FIL e o Centro de Congressos da Junqueira – e tem a seu cargo a organização de eventos, uma das áreas do setor turístico mais afetadas pela crise da pandemia. Rocha de Matos fala sobre os desafios do setor e da Fundação AIP.

Quantos eventos previstos para 2020, para os vossos espaços, foram cancelados?
Temos uma ideia geral, apesar de as coisas estarem a acontecer todos os dias. A partir de 16 de março, foram cancelados nove e adiados 44.

Para o próximo ano?
Uns ainda para o segundo semestre deste ano. Começamos a concentrar no segundo semestre uma série de eventos que estavam programados para o primeiro, outros passaram para 2021. Houve dois ou três que foram mesmo para 2022. O nosso objetivo tem sido, o mais possível, negociar adiamentos e evitar cancelamentos.

Qual o impacto financeiro que a pandemia está a ter nas contas da Fundação AIP?
Ainda é relativo porque temos de olhar para as contas numa linha de vários acontecimentos. A primeira coisa que fizemos foi negociar com os financiadores bancários e dizer-lhes que íamos deixar de ter condições de cumprir com as nossas responsabilidades e queríamos propor uma moratória de seis meses de capital e juros.

Foi concedida?
Foi. A moratória foi negociada de maneira que este período de seis meses se estenda relativamente ao acordo que temos de amortização de pagamentos, portanto não vai ter impacto de exigência de tesouraria. A segunda parte que tivemos de ver foi relativamente a compromissos com fornecedores. Tínhamos compromissos de fazer determinados pagamentos dentro do processo de recuperação encetado há uns anos. Negociámos todas essas situações. A terceira linha foi que todos os adiamentos dos eventos assegurassem a possibilidade de, mesmo que o evento fosse realizado em 2021, as condições de pagamento serem ajustadas de forma a haver um impacto favorável relativamente a 2020, que permitisse algum alívio à tesouraria.

Qual o impacto financeiro?
Estamos na segunda crise, depois da de 2011. Faturámos aproximadamente 38 milhões em 2011 em termos consolidados e em 2012 baixámos para perto de 19 milhões. Não tivemos outro caminho que não fosse parar, refletir e avançar. Reestruturámos toda a organização, falámos com todos os colaboradores explicando-lhes qual era a situação, qual era o projeto que tínhamos, qual o aperto de cinto que teríamos de fazer, partilhei com eles o desafio e houve uma grande mobilização de todos. Em 2015, voltámos a ter o EBITDA positivo, os resultados operacionais ligeiramente positivos, com resultados líquidos ainda negativos. Em 2016, praticamente dobrámos o EBITDA, mas só em 2017 é que EBITDA, resultados operacionais e resultados líquidos foram positivos. E em 2018 faturámos praticamente ao nível de 2017. Houve um crescimento e o resultado subiu. 2019 foi a nossa estrela.
Agora, o impacto financeiro que prevemos para já é uma quebra nas vendas idêntica à que tivemos na primeira crise. Ou seja, à volta de 50%, que tem de ser compensado com uma gestão mais racional. Falámos com os colaboradores e explicámos que a única solução era entrarmos em lay-off, uma vez que não podíamos trabalhar. Devemos chegar ao fim de 2020 com um resultado negativo de 2 ou 3 milhões.

Os adiamentos complicam as contas do próximo ano?
Temos uma carga de eventos para o próximo ano como nunca tivemos. Os congressos negoceiam-se a três anos. Neste momento, já temos congressos reservados para 2025. O ideal seria podermos começar a ter iniciativas a funcionar a partir de julho. Paris, que está à nossa frente no ranking das melhores cidades para organizar eventos, começa a 19 de julho com os nacionais. Há três coisas importantes para a realização de eventos: segurança, preservação da saúde e mobilidade.

A Web Summit é um dos eventos previstos para o segundo semestre. Uma parte é na FIL. Há condições para que se realize?
Não sei, porque não somos nós que o determinamos. A única coisa que fazemos é alugar as nossas instalações. Nos três primeiros eventos, as relações eram diretas entre Web Summit e nós. A partir de 2019, essa responsabilidade passou a caber às entidades nacionais que fizeram o acordo. Relativamente a 2020, não temos nenhuma reserva para a Web Summit. Sabemos, porque temos sempre um canal aberto com a Web Summit, que estão a fazer uma experiência em Toronto, fazendo a iniciativa não presencial, mas não sabemos que tipo de evento pretendem realizar neste ano em Portugal. Se fizerem o evento tradicional, a única coisa que posso dizer é que têm de obedecer à legislação portuguesa e ao que for determinado. O que fizemos para todos os eventos foi criar um caminho único.

Uma volta obrigatória para que as pessoas não se cruzem?
Exatamente. Não há cruzamentos possíveis em qualquer momento.

Como é que tem sido a relação com a Web Summit? E ajudou a captar mais eventos?
Tenho dificuldade em dizer se ajudou ou não. O que acho que é que a Web Summit teve um papel extremamente importante – e tem. Deu maior visibilidade a Portugal e a Lisboa. Se me perguntar: Lisboa, por si, teria capacidade de atingir essa visibilidade? A respostas é: possivelmente mas a Web Sum-mit ajudou. Portugal passou a ser conhecido e reconhecido como um país que estava em evolução, que estava a mudar, que estava a apostar nas tecnologias. Lisboa passou a ser uma referência relativamente a estas temáticas. Se isso teve ou não impacto no nosso negócio dado o que vínhamos a fazer antes da Web Summit? Também ajudou.

Antes da pandemia estava a ser negociada a expansão da FIL. O processo está parado?
Está parado.

Não faz sentido avançar enquanto não é tão necessária?
O modelo que tínhamos projetado não é o mesmo que vai ser necessário no futuro.

De que modelo vão precisar?
Um que seja compatível com a nova realidade, que passa por cada vez mais existirem eventos de base digital.

Mas isso significa uma expansão da FIL em termos de espaço? Ou por uma adequação do espaço que já existe?
Passa pelas duas coisas.

Como está o setor dos eventos?
O setor dos eventos é um segmento de algo mais abrangente que é o turismo. E o turismo está a passar um período que é muito complexo. Os eventos têm um papel distribuidor interessante. Tenho seguido uma avaliação que era feita por uma entidade externa sobre o impacto que as iniciativas podem ter e o impacto é muito significativo. O impacto relativamente à cidade de Lisboa em 2019 foi de 135 milhões de euros de valor acrescentado bruto. A área dos eventos garante a manutenção de cerca de cinco mil postos de trabalho indiretos. Tivemos oportunidade de apresentar ao governo uma proposta, a 19 de maio, com dez pontos que consideramos de relevância. Um deles é uma data para abertura. Depois, é necessário que haja algum enquadramento definidor. Poucos eventos têm IVA de 6%, a não ser os de natureza cultural.

Defende uma redução do IVA para os eventos todos?
Sim, pelo efeito multiplicador que isto vai ter em todo o turismo.

A Confederação do Turismo defendeu, nesta semana, a importância de um pacote de medidas de apoio à economia, nomeadamente um prolongamento do lay-off e o fim do Pagamento Especial por Conta. Concorda?
É tudo relativo. Dentro do setor do turismo há vários subsetores que precisam de um prolongamento do lay-off. Tem de se encontrar uma solução que ajude esses subsetores mas que não vá penalizar os colaboradores.

Para os eventos, o fim do Pagamento Especial por Conta era importante?
Era. A nós não nos afeta, mas há toda uma série de PME que podiam beneficiar disso. Uma outra medida muito importante para algumas empresas ligadas aos eventos era que houvesse uma forma de diluir o pagamento do IRC relativamente a 2019, que vai ser em julho e agosto e que vai ter um peso significativo na tesouraria. Não estou a dizer que houvesse cortes ou perdão…

Está a falar só de uma diluição.
Diluição dos pagamentos. Dar, por exemplo, dois ou três anos para isso ser pago, sem prejuízo de continuarem a cumprir com as suas obrigações fiscais, que é uma coisa que temos sempre em dia.

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