Estado atrasa pagamentos das faturas em tempo de covid

São 14,8 milhões de dívida vencida de entidades públicas, dos quais 6 milhões referentes a empresas de transportes. Endesa está de olho no leilão solar e no hidrogénio para uso industrial

A pandemia causou “quebras importantes” na procura de energia elétrica, da ordem dos 13 a 15%, consoante as regiões, mas provocou também um aumento da dívida pendente de particulares e do Estado, diz o presidente da Endesa em Portugal. Nuno Ribeiro da Silva fala num “desleixo” dos organismos estatais, que é transversal à administração central e local e às empresas públicas. A própria Segurança Social tem valores em atraso. O responsável estima que em causa estejam 14,8 milhões de euros de dívida vencida por parte de entidades públicas, dos quais seis milhões são referentes apenas a empresas de transportes.

“É uma situação que vai um bocado ao arrepio da ideia comumente defendida de que a melhor ajuda que o Estado pode dar para mitigar o impacto da crise a nível empresarial é pagar a tempo e horas as suas dívidas”, diz Nuno Ribeiro da Silva. A nível dos particulares, os incumprimentos têm-se também agravado. O gestor garante que a elétrica espanhola em Portugal tinha já tomado a iniciativa de não ativar suspensões de fornecimentos de energia ainda antes de o governo publicar legislação nesse sentido, no entanto, pede que a situação seja “monitorizada”, para “evitar abusos”. Até porque o executivo decidiu, entretanto, alargar a tarifa social, que em Portugal abrange 900 mil contratos - “curiosamente tanto como em Espanha, apesar da população ser muito menor” -, aos desempregados e estender o princípio geral da proibição de cortes de energia até setembro.

“Tudo isto é feito à custa das empresas elétricas, não há nenhum envelope do Estado a cobrir isto. Claro que compreendemos a situação, mas há limites para a tesouraria das empresas. Todos tentamos colaborar, mas estas situações não são sustentáveis ad eternum”, afirma Nuno Ribeiro da Silva, defendendo que “o Estado é soberano para decidir a quem quer dar benesses, mas tem de o fazer através de medidas de política social, não colocando esse ónus sobre as empresas.

Impacto nas contas

A Endesa divulga resultados do primeiro semestre na próxima terça-feira e é esperado que esta situação tenha impacto ao nível das contas da empresa. “Os resultados do 1.º trimestre foram bastante sólidos e, inclusivamente, um pouco acima do que tínhamos anunciado ao mercado, mas foi no 2.º trimestre que se verificaram os impactos mais significativos da crise e que, por certo, refletirão a quebra de vendas que estimo na ordem dos 15%, e este aumento de dívida pendente na eletricidade, mas também no gás. Naturalmente, haverá algum impacto nas contas do semestre, mas o grupo tem dito que se mantém comprometido com os números que tem como referência para o ano”, refere, sublinhando: “Não espero grandes surpresas”.

A empresa, em Portugal desde 1993, é líder no segmento industrial, com uma quota de 23,8% do consumo de eletricidade e é o segundo comercializador do mercado em número de clientes no setor doméstico, com uma quota de 6,8%. E espera, em breve, chegar aos 500 mil clientes em carteira, consolidado essa segunda posição. “Estamos praticamente lá”, diz.

De olho no leilão solar

Em Espanha, a Endesa anunciou a disponibilidade para aumentar em 30% o seu plano de investimentos até 2022, até cerca de 7500 milhões de euros, como forma de impulsionar a recuperação económica pós-covid. Nuno Ribeiro da Silva garante que a predisposição “é extensível a Portugal”, mas não se compromete com números. “Havendo oportunidades, aí estaremos”, refere.

Ao contrário do ano passado, a Endesa espera marcar presença no leilão que irá atribuir 700 MW, divididos por 12 lotes, no Alentejo e Algarve. “Estamos inscritos e, se não houver nenhuma surpresa, estaremos interessados em ser parte ativa no leilão”, revela. Aguarda que os processos administrativos de licenciamento de parques de grande dimensão sejam desbloqueados. “Temos muito empenho em reconstruir uma carteira de renováveis em Portugal”, garante o administrador, que espera que o governo “dê seguimento ao processo dos futuros concursos das redes de baixa tensão”.

E há ainda o hidrogénio, dossiê que o grupo detido pelos italianos da ENEL está também a acompanhar. “O hidrogénio para usos industriais, designadamente nas químicas, cimenteiras e siderurgias, parece-nos de interesse evidente. Já a produção em grande escala, com vista à exportação, tem de ser mais ponderada. É preciso ter cuidado com os investimentos necessários para alimentar um projeto ambicioso de exportação. É preciso ver que mercado e que procura é que se desenha”, diz, sublinhando: “Portugal prevê exportar para Espanha, mas Espanha prevê instalar capacidade suficiente para exportar eletricidade para Portugal. Convinha que tudo isto fosse bastante conversado e articulado”.

Em análise está, também, a questão do futuro da central de carvão no Pego, uma parceria com a Trustenergy que tem 56,25% do capital neste projeto. O fecho está previsto para novembro de 2021, quando termina a licença de produção, mas Nuno Ribeiro da Silva admite que a central "tem estado praticamente parada", pelo facto de a produção de energia elétrica com base em carvão ter sido "economicamente pouco competitiva", no último ano, "face a outras alternativas" e, também, devido à recente quebra na procura de eletricidade, fruto da pandemia. No entretanto, vão sendo estudadas "diferentes alternativas, desde o solar, ao eólico, passando pela biomassa e pelo próprio hidrogénio", como forma de aproveitar os pontos de ligação à rede disponíveis no Pego e de mitigar o impacto social do encerramento da central que dá trabalha, direta e indiretamente, a mais de uma centena de pessoas. "É um aspeto em que temos vindo a ganhar experiência com o fecho de centrais de carvão em Espanha e onde temos desenvolvido todo um conjunto de iniciativas, dependendo da região, para mitigar o impacto que esta mudança tecnológica vai implicar", sublinha.

Questionado sobre as propostas de António Costa Silva para a área da energia na sua "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030", Nuno Ribeiro da Silva classifica-as de "muito positivas", lembrando que os temas da descarbonização, da geração de eletricidade com base em renováveis e da eletrificação da procura são hoje questões "incontornáveis" em Portugal e na Europa. E aplaude, em especial, a proposta da criação de um sistema híbrido para os parques eólicos, considerando "lógico e racional" que se possa aproveitar os solos dos parques eólicos para instalar, também, painéis fotovoltaicos. "Isto tem várias vantagens em termos logísticos. Por um lado, são zonas que já estão infraestruturadas com redes e pontos de interligação. Por outro, já foram analisadas e aprovadas do ponto de vista ambiental e de segurança, o que facilita em termos de burocracia", afirma, sem esquecer as vantagens do ponto de vista da complementaridade das duas tecnologias ao nível da produção.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de