Produtividade

Estará a produtividade a ser bem medida em Portugal?

(Filipe Amorim / Global Imagens)
(Filipe Amorim / Global Imagens)

Produtividade do trabalho manifesta um comportamento contracíclico, aumentando em tempos de recessão, ao contrário de países como a Alemanha.

A Standard & Poor’s (S&P), no último relatório que analisou a notação da dívida portuguesa, levantou a questão: estaria a competitividade do país a ser bem medida? E a produtividade do trabalho? São dois conceitos que se relacionam: quando a produtividade sobe, a competitividade de uma economia acompanha (setor transacionável). Mas a agência de rating questiona esta correlação.

“Embora os dados de produtividade do trabalho mostrem um enfraquecimento nos últimos anos, não acreditamos que isso represente uma perda de competitividade”, escreve no relatório de meados de setembro a S&P, acrescentando que o mais “provável é que o PIB real não reflita melhorias qualitativas dos setores transacionável e não transacionável, como o turismo”. E foi este o ponto de partida para o desafio que lançámos a Francesco Franco, economista da Nova SBE.

Francesco Franco começa por explicar que a produtividade no trabalho é o PIB sobre as horas trabalhadas, sendo “uma medida que, no longo prazo, funciona muito bem para medir o bem-estar do país, o nível de competitividade (numa definição muito restrita).

Fonte: Eurostat. Índice 100 = 2010

Fonte: Eurostat. Índice 100 = 2010

No caso da análise da S&P, o economista acredita que a agência “não vê um problema de competitividade porque o custo do trabalho é muito baixo”, referindo, contudo, que a “frase é ambígua”, podendo ter várias interpretações. Comparando com os países da União Europeia, a produtividade do trabalho, definida em termos de PIB por trabalhador, representava 76,6% da média.
Olhando para a compensação por hora trabalhada, ou seja, salários e contribuições sociais, a média em Portugal é de 11,5 euros, enquanto em Espanha é de 19,7 euros, Alemanha 32,6 euros e na zona euro é de 23,7 euros. Portanto, “um valor muito baixo”, sublinha.

Ao analisar estes dados a pedido do Dinheiro Vivo, o economista da Nova SBE identificou um padrão “estranho” na produtividade e nos custos unitários do trabalho em Portugal: um comportamento contracíclico, tanto em anos de expansão como na recente crise económica.

A anomalia portuguesa
O padrão detetado não é exclusivo de Portugal. Também em Espanha, este comportamento na produtividade e nos custos do trabalho já foi identificado, havendo até alguma pesquisa sobre o tema. Mas já lá iremos.

Em relação a Portugal, os dados são claros. “Na Alemanha e França, a produtividade é pró-cíclica, ou seja, com um boom económico a produtividade aumenta; se há uma recessão, a produtividade diminui, medida como a produtividade do trabalho”, começa por referir Francesco Franco. “Em Portugal e em Espanha vai no sentido oposto”, indica o economista, que classifica este comportamento de “estranho” e que “em Portugal não temos consciência disto”.

Fonte: Eurostat

Fonte: Eurostat

Uma das explicações pode residir no facto de durante uma recessão serem “destruídos” trabalhos menos produtivos, mas “no curto prazo, a produtividade por horas trabalhadas depende de muitos fatores e não apenas da capacidade de produzir, mas da estrutura da economia”.

No caso da Espanha, os economistas são unânimes em considerar que a justificação poderá estar na estrutura da própria economia, com setores muito fortes como a construção e o turismo, mais sensíveis à mudança do ciclo económico. Por outro lado, o aumento da produtividade durante períodos de contração económica pode estar relacionado com um efeito de substituição dos fatores de produção.

Os perigos
Francesco Franco sublinha, por outro lado, que os custos unitários do trabalho (CUT) “têm uma dinâmica acima da produtividade” e que é preciso ter cuidados tendo em conta a competitividade, sobretudo quando há um afastamento entre os custos do trabalho e a produtividade. O economista avisa para a necessidade de acompanhar a evolução do défice externo.

“Se daqui a seis meses há um alargamento do défice externo, é sinal de bandeiras vermelhas (red flags). Para já, em princípio, ainda não há problema”, mas “é uma dimensão que os países da zona euro têm de monitorizar”, avisa.

De acordo com os dados do Banco de Portugal, o saldo conjunto das balanças corrente e de capital regressou aos excedentes, fixando-se em 685 milhões de euros, depois de estar no vermelho nos primeiros sete meses do ano. Se Portugal mantiver um saldo positivo até ao final de dezembro, será o oitavo ano consecutivo de excedente nas contas externas.

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