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Este país tem salários de 23 euros na indústria do vestuário. H&M e CK estão lá

Foto: D.R.
Foto: D.R.

Os trabalhadores da indústria do vestuário na Etiópia são os mais mal pagos em todo o mundo pelas grandes marcas do setor, de acordo com um relatório divulgado hoje.

O estudo do Stern Center for Business and Human Rights da Universidade de Nova Iorque tem como pano de fundo a aposta de uma das economias em mais rápido crescimento em todo o continente africano no setor do vestuário.

“A ansiedade do Governo em atrair investimento estrangeiro levou-o a promover a base salarial mais baixa em qualquer país produtor de vestuário, atualmente equivalente a 26 dólares (23,2 euros) por mês”, afirmam Paul M. Barret e Dorothee Baumann-Pauly, os autores do estudo, citados pela agência Associated Press (AP).

Por comparação, os trabalhadores chineses da indústria do vestuário recebem um salário médio mensal de 340 dólares (303,6 euros), os quenianos auferem 207 dólares (184,8 euros) e a indústria no Bangladesh paga em média 95 dólares (84,8 euros).

Atraídos por uma grande quantidade de novos parques industriais e de um leque vasto de incentivos financeiros, várias grandes marcas mundiais do setor do vestuário, incluindo a Gap, a H&M ou a PVH (dona da Tommy Hilfiger, Calvin Klein, Van Heusen, IZOD, Arrow, Warner’s, Olga, True & Co. e Geoffrey Beene), dão emprego a dezenas de milhares de trabalhadores etíopes num setor que o Governo do país prevê que venha em breve a representar milhões de dólares em vendas.

O relatório tem por base uma deslocação dos investigadores ao parque industrial de Hawassa, um dos maiores no país, inaugurado em 2017 no sul da Etiópia, que emprega atualmente 25 mil pessoas, e visitado recorrentemente por membros do Governo etíope quando querem exibir a aposta no setor a dignitários estrangeiros convidados.

De acordo com o estudo, a maior parte dos jovens trabalhadores etíopes dificilmente consegue sobreviver até ao final de cada mês e não consegue apoiar a família. “Fico sem nada no final do mês”, afirmou Ayelech Geletu, um jovem etíope com 21 anos, quando entrevistado pela agência France-Presse no ano passado.

O salário mínimo na Etiópia é de cerca de 110 dólares (98,2 euros), segundo Ayele Gelan, um economista no Kuwait Institute for Scientific Research à AP.

“Com relativa fraca formação profissional, funcionários descontentes têm protestado com interrupções do trabalho ou com demissões em grupo. A produtividade nas fábricas de Hawassa é tipicamente baixa e a desilusão e atrito entre os trabalhadores são elevados”, aponta-se no estudo.

Por outro lado, também os próprios políticos etíopes têm vindo a perturbar inesperadamente a regular operação das fábricas. “O Governo etíope deve atender à tensão étnica em Hawassa e noutros locais”, afirma-se no relatório, que aponta como solução a fixação de um salário mínimo pelas autoridades do país que garanta condições de vida decentes.

Abebe Abebayehu, presidente da Comissão de Investimento da Etiópia sublinhou à AP que a maior parte das indústrias escolhe os locais no mundo em que os custos associados do fator trabalho sejam menores. “Se não fosse assim, as empresas chinesas não teriam vindo para a Etiópia”, afirmou.

O mesmo responsável questionou, por outro lado, o valor de 26 dólares identificado no relatório como salário médio pago aos trabalhadores etíopes do setor, explicando que “esse é o salário base, mas na Etiópia as fábricas também garantem a alimentação no local de trabalho e outros serviços”.

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