Encontro

Estela Barbot: “A Trilateral não é um governo-sombra”

Estela Barbot, membro da Trilateral. Fotografia: Gustavo Bom/Global Imagens
Estela Barbot, membro da Trilateral. Fotografia: Gustavo Bom/Global Imagens

Banqueiros, empresários e políticos da Europa, Ásia e América “refletem” sobre a globalização. Lisboa recebe mais de 160 poderosos durante três dias.

Europa, Ásia e América do Norte. A Comissão Trilateral é um grupo de reflexão composto por líderes dos três continentes (empresários, banqueiros, gestores de topo, ex-governantes, políticos) que reúne em Portugal, de 11 a 13 de novembro. Não acontecia desde 2003, altura em que o Fórum foi ao Porto.

Na agenda dos trabalhos, agora em Lisboa, vão estar alguns temas quentes do momento. As empresas startups e o Web Summit, a crise política da Europa, o impasse no crescimento da economia europeia, o Brexit, a vitória de Donald Trump, o papel de África como parceiro da União Europeia.

Estela Barbot, que desde o início dos anos 2000 integra o grupo português, sente que o momento é altamente simbólico. “Tenho muito orgulho do meu país”, mas “quero que ele seja ainda mais conhecido lá fora”. A empresária e gestora deverá assumir brevemente a presidência do grupo nacional, liderado até agora pelo histórico (desde 1995) Jorge Braga de Macedo, professor de Economia entre outros cargos.

A Comissão Trilateral traz ao Hotel Ritz, em Lisboa, mais de 160 participantes dos três continentes. Na lista estão notáveis como Jean-Claude Trichet (ex-presidente do BCE), Mario Monti (ex-primeiro-ministro de Itália e ex-comissário europeu), António Vitorino (ex-comissário também e membro do grupo português), Antonio Garrigues (presidente da sociedade de advogados do mesmo nome), Monica Maggioni (presidente da RAI), Klaus-Peter Müller (presidente do Commerzbank), entre muitos outros.

Os trabalhos duram três dias. A capital portuguesa será a sede da segunda de três reuniões regionais este ano. Primeiro foi na Cidade do México, a seguir será em Nova Deli. O encontro anual foi em Roma, em abril.

António Costa, primeiro-ministro, faz a abertura formal da conferência na sexta-feira. Trichet fará o encerramento no domingo. No sábado à noite, o Presidente da República vai ao jantar, no Palácio de Queluz.

Por que razão se ouve falar menos da Trilateral do que do grupo Bilderberg?

A reunião é muitas vezes acusada de ser um Davos à porta fechada, o que faz com que muitas vezes as pessoas não conheçam a Trilateral e conheçam os outros fóruns do género, que estão mais virados para os media. Nos tempos de hoje quem se fecha não é conhecido. Eu própria, quando fiz a reunião de 2003 [no Porto], achei que a comunicação da Trilateral era mal feita. Depois dava azo a dizerem que se tratava de um governo sombra. Mas isso não é assim, nem nunca existiu. Mas, pronto, até então resultava numa imagem de grande secretismo. Nas conclusões de 2003 constatámos isso. Continuar a reunir à porta fechada, como era tradição, resultava nessa ideia de “grande secretismo, com acusações recorrentes, na imprensa internacional, de atividades obscuras de manipulação de governos e políticas”. Eu própria fiz parte de uma comissão de aconselhamento com o Mario Monti e o John Kerr para pensar a Trilateral, e faço parte do mesmo grupo agora com o Nigel Higgins, que é o co-presidente do banco Rothschild.

Mas conseguiu essa abertura?

Sim. Dentro da Trilateral defendi uma aproximação diferente da reunião. E por isso já tivemos pessoas dos media, na altura foram quatro, agora são cinco, que são redatores, num ambiente de regras de Chatham House. Para se preservar a ideia de que as pessoas quando estão num circuito fechado, sem falarem para a comunicação social, falam mais livremente. Isto não é ser populista em relação à natureza deste evento. É, de facto, para haver maior liberdade no debate, para dele surgirem soluções. O que queremos é que esses pensamentos, essas ideias, se repercutam depois em quem estiver a assistir e a ler. A qualidade dos membros que participam no encontro permitirá, necessariamente, que essas ideias passem para as suas empresas. Estão lá os presidentes dos bancos, das companhias de petróleo, dos fabricantes de carros. Pessoas de peso.

O que diferencia a Trilateral do grupo Bilderberg?

A grande diferença é que o Bilderberg não queria incluir a Ásia e o David Rockefeller, o financeiro e fundador da Trilateral, em 1973, achava que era crucial ter lá a Ásia, que na altura era o Japão. Mas, claro, pode haver regras do Bilderberg que sejam diferentes, mas o motivo principal foi a abertura a oriente.

Além de ser referida como um think tank, a Trilateral é um instrumento de poder político? Serve para exercer influência junto de políticos, grandes empresários?

Os seus membros são pessoas que têm um currículo e obra feita e, como tal, já são opinion makers [líderes de opinião]. Se eles estão no fórum a pensar sobre os assuntos mundiais, quando saem do fórum com certeza que existem conclusões que, de alguma forma, se essas pessoas acreditam nelas, vão tentar implementá-las e defender que é esse o caminho que deve ser seguido. Se estamos a falar de pessoas com influência no panorama da banca, da política, das outras empresas, com certeza que sim, acaba por influenciar, mas nessa medida.

Mas tendo em conta o peso de algumas pessoas que participam no encontro e que estão na comissão, sabendo que muitos se conhecem bem e há anos, que partilham objetivos, a Trilateral não pode, na prática, funcionar como um governo-sombra?

A Trilateral não está estruturada para ser um governo-sombra, como faz um partido da oposição num país. É mais um conjunto de task forces [grupos de trabalho], de grupos que refletem sobre temas muito relevantes num mundo global. E saem artigos e tomadas de posição sobre isso que são públicos.

Um dos livros ou artigos fundadores e mais célebres da Trilateral, que saiu em 1975 (A Crise da Democracia), defende uma ideia polémica, que tem de haver “uma maior moderação na democracia” para evitar “excesso de democracia” e assim facilitar o progresso das empresas. Esta ideia ainda subsiste ou é debatida dentro da comissão Trilateral?

O crescimento é um tema premente em todos os debates entre pessoas conscientes. Eu própria não vejo maneira de criar emprego sem ser com mais crescimento e com melhores empresas. Obviamente que os tempos mudaram desde então, mas continua a ser uma questão difícil.

O que lhe pergunto é se ainda existe essa ideia, ou se ela é debatida — de que os Governos são um obstáculo à expansão das empresas.

Isso tem muito a ver com as posições de cada um. Há quem seja mais liberal, há quem seja menos. Não há uma posição de fundo sobre isso na Trilateral. Aliás, os nossos grupos de debate costumam ser heterogéneos, com mais do que um partido. Essa ideia que os governos são um obstáculo para as empresas não está patente nas nossas reuniões.

É uma ideia antiga?

Tem de ser enquadrada no contexto e na época, também, claro.

Vão ter um painel sobre nova economia e startups. Vão fazer um balanço do Web Summit?

No sábado de manhã, a abertura do encontro é feita pelo primeiro-ministro do país anfitrião. E por, isso, acaba-se sempre por dar uma perspetiva do próprio país a pessoas que, de outra forma, neste caso, até podiam não se interessar por Portugal. Dou-lhe um exemplo: quando fiz a reunião de 2003, no Porto, houve alguns que me perguntaram: “Mas isso tem aeroporto?” E depois saíram com muito boa impressão. No fundo, estamos a fazer um esforço de conseguirmos promover o país e atrair investimento. Quando marcámos a data a seguir ao Web Summit, conseguimos que o Paddy Cosgrave integrasse um dos painéis. Desta vez, a ideia é mostrar que o país pode realmente ser um mini Silicon Valley na Europa quando muita gente se questiona por que razão ainda não o é.

Disse atrair investimento. Mas será de forma indireta porque, pelo que me acabou de dizer, o fórum não serve para isso, certo?

Exato. Não serve, mas é para as pessoas virem cá e dar visibilidade à economia portuguesa lá fora. Aliás, temos um fórum o Portugal Global, fundado em 1996 pelo professor Braga de Macedo que tem essa função. Apoiar a Trilateral com propostas e debates sobre a internacionalização das empresas portuguesas.

Vivemos, desde 2007, numa crise financeira, económica e de crédito. Sente que a Trilateral contribuiu para tentar resolver, por exemplo, o problema que afetou e ainda afeta os fluxos globais de crédito e de financiamento das empresas, dos bancos?

No caso português, o fundador cá, em 1980, foi António Vasco de Mello, que era o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) na altura. Henry Kissinger [antigo secretário de Estado dos EUA], membro da Trilateral, não acreditava que Portugal tivesse importância… Pelo seu peso. Era a favor de não ajudar Portugal no sentido de se tornar num país democrático. E como tal achava que o país, por não ter peso, até podia ser um exemplo de célula comunista. Há um livro, penso que é de Bernardino Gomes, sobre isso. Na altura, o embaixador norte-americano em Portugal, que era Frank Carlucci, com o Georges Berthoin [primeiro presidente europeu da Trilateral e chefe de gabinete de Jean Monnet], que foi quem me contou esta história, conseguiram os dois ajudar a desbloquear financiamento para Portugal sair da crise em que se encontrava.

Sim, isso foi no tempo do FMI. E hoje?

Como lhe disse, a Trilateral não é um governo-sombra, como dizem, não vai nunca tomar decisões políticas. O encontro serve sim para pensar em soluções. Ele serve para que pessoas que nunca têm tempo ou oportunidade para se encontrar, se encontrem e pensem sobre os assuntos. Um deles pode ser esse, mas há tantos outros. É um think tank.

Em Lisboa também vão falar de África e das economias do continente, mas notei que não estão presentes oradores de países lusófonos, dos PALOP. Como é possível debater África, em Lisboa, sem incluir, por exemplo, Angola?

Não estive envolvida na programação, mas sei que esta ideia de introduzir África nos temas da Trilateral acontece graças ao grande interesse do professor Braga de Macedo, que é muito ativo nisso. É por causa dele que há, pela primeira vez, um painel sobre questões africanas, aliás.

O Presidente eleito dos EUA, Donald Trump, é um empresário, de direita, mas tem um discurso hostil em relação à globalização. Que avaliação faz dele? Vai ser bom ou mau para o crescimento global?

Não acredito que seja possível, numa era digital, não haver globalização. Mas eu própria não acho que o novo Presidente dos Estados Unidos seja um role model [exemplo] como empresário. Mas esperemos que a visão dele mais empresarial ajude o país, como não sabemos ainda que atitudes vai realmente ter na prática. É uma incógnita. Uma coisa sei: fechar países não é a atitude correta. Os meus filhos, as gerações mais novas, ainda sentem mais essa certeza. O grande projeto de abertura que é a União Europeia está aí para o provar.

O chamado discurso protecionista não é um exclusivo de Trump. Na Europa também já há muito.

As soluções populistas surgem, infelizmente, porque as pessoas querem soluções fáceis. Isto existe à direita e à esquerda. Veja o que aconteceu na Grécia com o Syriza. Fizeram muitas promessas, mas depois quando chegaram ao poder percebeu-se que isso não era exequível. Uma coisa é entendermos que isto é a expressão do voto contra o establishment, mas às vezes é necessário perceber qual é a alternativa.

O establishment é bom ou é o mal menor, é isso?

Não quer dizer que seja bom, não quer dizer que infelizmente não haja líderes sem aquela isenção e idealismo, como tiveram os líderes do passado. Mas é assim, e só podemos é apostar mais em educação e formação das pessoas para que elas possam fazer as opções corretas. Esse problema sempre existiu. Houve o caso mais dramático, de Hitler na Alemanha, mas continua a existir no mundo. Agora temos uma pessoa sobre a qual sabemos haver motivos para termos receio. Não tem a ver com a cor política dele, tem mais a ver com ele como pessoa. Por trás de um cargo, há sempre uma pessoa e a mim assusta-me os princípios e os valores dessa pessoa.

Diz que muitas vezes, nos países, aparecem propostas políticas, mas que não se percebe se a alternativa funciona. Em Portugal, a coligação do PS com os partidos à esquerda está, aparentemente, a funcionar.

Temos de ter a consciência de que é um bocado difícil aumentar a produtividade, reduzindo as horas de trabalho. Li num discurso do governo que vão aumentar a produtividade, mas reduzindo o horário da Função Pública para as 35 horas… Até por uma questão de equidade com o sector privado, não acho que seja compatível, nem que resulte em mais crescimento.

Mas isso não é se a tecnologia e as qualificações ficarem estagnadas? No público e no privado, produzir de forma mais sofisticada, com quadros melhores, com melhor gestão, isto não é aumentar a produtividade? Não é possível trabalhar menos e produzir mais?

Gostaria muito que assim fosse. Mas o problema aqui é que não existe equidade entre função pública e sector privado. Temos de ter a noção de que precisamos crescimento e que isso só se obtém com criação de valor. E que, sem isso, não se criam empregos.

Braga de Macedo preside também ao grupo português que está na Trilateral. Quem são os outros portugueses?

Temos cinco membros. O professor Braga de Macedo, que é presidente do grupo desde 1995, António Vitorino, Francisco Lacerda e Eduardo Costa.

Braga de Macedo é presidente do grupo português desde 1995? Já se fala na sucessão?

O professor convidou-me. Julgo que isso será anunciado neste encontro regional. Ele internamente já o anunciou.

Quem é que vos apoia nesta conferência?

Os nossos patrocinadores principais são CTT, Deloitte, Tranquilidade. Apoiam BCP, Semapa, EDP, REN, SAP, além da Fundação Ilídio Pinho, Cityrama, que oferece o serviço de transporte [autocarros], e a Câmara de Lisboa, que oferece o cocktail.

Perfil. Quem é Estela Barbot

Gestora, 57 anos;

Licenciada em Economia pela Universidade do Porto;

Tem 20 anos de experiência de gestão e consultoria em vários sectores de atividade;

Diretora na Instituição Financeira para o Desenvolvimento e administradora na REN. Já trabalhou no Santander, na AGA, na Sarcol, entre outras empresas e entidades;

Entre 2010 e 2012 foi conselheira do FMI;

Desde o início dos anos 2000 integra o grupo português da Trilateral, para ela o momento atual é altamente simbólico. “Tenho muito orgulho do meu país”, mas “quero que ele seja ainda mais conhecido lá fora”;

Deverá assumir brevemente a presidência do grupo nacional, liderado até agora pelo histórico (desde 1995) Jorge Braga de Macedo.

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