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Ana Lehmann. Moda portuguesa conquistou “o topo do mundo”

Ana Teresa Lehmann, presidente do comité de investimento de Fundo Para a Inovação Social.
Ana Teresa Lehmann, presidente do comité de investimento de Fundo Para a Inovação Social.

Secretária de Estado da Indústria elogia a associação do calçado ao vestuário e às joias pela abordagem consistente aos mercados internacionais.

Foi no muito conceituado Standard Hotel, frente ao rio Hudson, e com vista para New Jersey, que a indústria portuguesa de calçado se apresentou ao mercado americano, esta segunda-feira em Nova Iorque.

Ao convite da APICCAPS, a associação portuguesa de calçado, a que se associaram o vestuário e a joalharia nacionais para uma ação de promoção da “excelência da oferta portuguesa”, responderam quase 300 convidados, praticamente o dobro dos inicialmente previstos, metade dos quais distribuidores e retalhistas locais.

Direitos Reservados

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A secretária de Estado da Indústria, Ana Lehmann, marcou também presença e destacou o “enorme orgulho” no caminho trilhado pelas indústrias tradicionais. “Este é um momento de viragem muito importante. Estamos no topo de mundo. Quem se aventura a vir para os EUA e triunfa está em condições de triunfar em qualquer parte do mundo”, declarou, citando Sinatra e o célebre refrão de New York New York: If you can make it here, you’ll make it anywhere.

Luís Onofre, presidente da APICCAPS, referiu a importância da abordagem conjunta ao mercado em parceria com a ANIVEC e a AORP, as associações de vestuário e ourivesaria, sublinhando que a parceria dá uma “credibilidade reforçada ao que se faz”. O evento Showcase Portugal serviu para apresentar as 20 marcas de calçado que estarão presentes, no próximo mês, em Las Vegas, no principal certame dos setor nos EUA, mas a estas associaram-se seis marcas de vestuário e três de joias. A chuva que nos últimos dias tem marcado presença diária em Nova Iorque impediu a instalação de um set de mobiliário da Boca do Lobo.

Os Estados Unidos são o quarto maior mercado de exportação das joias portuguesas, a seguir a França, Espanha e Hong Kong. Fátima Santos, diretora-geral da AORP, lembra que o sector só nos últimos cinco anos tem apostado nos mercados internacionais, que valeram 70 milhões de euros em 2016 e 100 milhões em 2017. A ligação ao calçado e vestuário é uma “troca de sinergias” e um “processo de aprendizagem”, diz, até porque, frisa “há cada vez mais lojas de roupa e sapatos a vender, também, joias, pelo que a integração promocional faz todo o sentido”.

Visivelmente satisfeito com os resultados estava o presidente da associação do vestuário, ANIVEC: “Ganhamos o palco nos Estados Unidos”, garantiu César Araújo, para quem as políticas protecionistas de Donald Trump obrigam as indústrias a marcar posição e a “conquistar mercado”. As exportações de vestuário para os EUA valeram, o ano passado, 97 milhões de euros e o sector é dos poucos sectores que continua a crescer no mercado: 6% nos primeiros cinco meses do ano. O trabalho conjunto das três indústrias visa, diz, “conseguir maior escala e atingir mais rapidamente os objetivos”. Porque o mercado, com os seus 320 milhões de habitantes, tem “um enorme potencial”, acredita César Araújo.

Americanos importam 2,5 mil milhões pares por ano

O presidente da FDRA, a associação americana de distribuidores e retalhistas de calçado, concorda. Matt Priest lembra que os americanos importam, todos os anos, 2,5 mil milhões de pares de sapatos, o que equivale a uma taxa per capita de 7,5 pares de sapatos anuais. Reconhece que o consumidor é “muito diverso” e que 95% do calçado vendido neste mercado é produzido na China, Vietname e Indonésia e a “preços muito baixos”. O objetivo da FDRA, garante, é “disponibilizar o máximo de opções e de escolhas” aos seus associados e, por isso Matt Priest esteve, em maio, a visitar Portugal.

“O mercado é muito competitivo, mas se Portugal conseguir agarrar a atenção dos americanos… basta-lhes conquistar 1% do mercado e terão já o maior nível de exportação de sempre. O potencial é incrível e não é preciso [fazer] muito”, sublinha Matt Priest, que acredita que a qualidade do calçado nacional, o seu método de fabrico e a sua origem europeia são “três características chave” para o sucesso, porque o consumidor americano “prefere comprar português do que chinês”. O futuro “será brilhante”, vaticina.

A FDRA convidou o diretor geral da APICCAPS, a discursar, esta terça-feira, em Wall Street, no edifício da Bolsa de Nova Iorque, para 140 sócios na conferência anual da associação. Um evento onde João Maia aproveitou para apresentar Portugal como “um parceiro fiável, com capacidade de desenvolvimento, de incorporar as tendências europeias e de produzir e ajustar coleções muito rapidamente”.

Delemar Rodrigues, agente-importador americano que compra vestuário em Portugal há 15 anos, não poupa elogios ao país. “É a melhor indústria do mundo. Estou habituado a trabalhar com o Oriente e com a China, mas o custo-benefício de Portugal é excelente”, frisa. Kristina Stuckenbrock, comercial da marca americana de vestuário de homem Robert Talbott, concorda. “A indústria portuguesa tem uma qualidade equivalente à italiana, mas com um preço muito mais adequado. E é muito flexível nos mínimos de produção, o que é uma mais valia por comparação com a China”, diz, acrescentando: “Adoramos a capacidade de inovação, de criação e de desenvolvimento de novos produtos”.

As empresas portuguesas estiveram, também, a expor os seus produtos no Javits Center, o centro de exposições de Nova Iorque, na Mrket e na Project, certames de moda masculina e feminina. Filipe Prata e a Daily Day, marca de vestuário masculino, marcaram presença pelo terceiro ano consecutivo. E o resultado está a ser “muito positivo”. O facto de apresentar a coleção com a produção já feita fez com que a encomenda assinada no primeiro dia da feira, no domingo esteja já caminho do cliente, no SoHo. Dos dois milhões de euros que fatura, 93% são exportados. Só 11% são da Daily Day – a empresa, a Lagofra, produz, também, para grandes marcas internacionais como a Max Mara ou a Carolina Herrera – praticamente tudo para os Estados Unidos.

Também Carlos Santos aposta nos EUA há meia dúzia de anos e conta, agora, com um novo agente no mercado. O empresário de São João da Madeira assume que é preciso “persistência”, mas garante que isso não o desanima. “Sempre gostei de desafios difíceis”, diz. Os EUA valem já cerca de 10% das vendas da empresa de calçado, mas, essencialmente, para clientes americanos. “Queremos uma presença com marca própria e com valor acrescentado, mas sabemos que esse reconhecimento leva o seu tempo e temos que ter em conta a sustentabilidade do negócio”, sublinha.

Overcube entra nos EUA

A Kyaia é a única empresa nacional de calçado com loja própria em terras americanas, numa parceria com Kevin Bosco, o seu distribuidor local há muitos anos. A Bleecher Street, no SoHo, foi o local escolhido para abrir a primeira flagshipstore da Fly London em Nova Iorque, uma aposta que tem já quatro anos e que é para manter, apesar da crise no retalho, bem visível nas muitas lojas encerradas ao longo desta artéria deste bairro simultaneamente residencial e turístico. Amílcar Monteiro, sócio-gerente da Kyaia, admite que, “há dois anos não havia uma loja vazia na Bleecher Street, hoje 40% dos espaços estão fechados”, mas garante que, nem por isso, pensa em transferir a Fly London. “Estamos para ficar. Da forma como o mercado está, com a mudança estrutural que o retalho vive, é preciso deixar assentar o pó e reforçar a complementaridade entre as lojas físicas e o online”, explica o empresário. E, por isso, a plataforma de vendas online que a Kyaia criou este ano, a Overcube, irá alargar a sua área de influência aos EUA em breve. “O esforço B2C está aí [no online] e não no retalho físico”, diz Amílcar Monteiro. A Overcube prossegue o seu plano de expansão, não apenas em termos de mercados, mas, também, no alargamento da sua oferta, vendendo já cerca de 30 marcas distintas. Em termos de lojas físicas, a Fly tem seis: Porto e Lisboa, Nova Iorque, Dublin, Londres e Edimburgo, sendo esta uma aposta recente em troca da segunda loja que o grupo tinha na capital inglesa.

Os EUA são o principal mercado de exportação da Fly London, valendo já cerca de 25 a 28% dos 40 milhões de euros faturados pela Kyaia em 2017. A indústria de calçado não sente, ainda, qualquer ímpeto protecionista de Donald Trump sobre os seus produtos, mas a Kyaia já o começou a sentir no segmento de acessórios. Algumas das carteiras da Fly London são produzidas na China e estão, por isso, incluídas no mais recente pacote de novas taxas anunciadas pelo presidente americano, com 10% de taxas acrescidas. Amílcar Monteiro mostra-se, no entanto, confiante que o mesmo não venha a acontecer sobre o calçado produzido na Europa. “Pode-se sempre esperar qualquer coisa, mas a América não tem indústria de calçado para defender, portanto, por aí estaremos protegidos”.

* A jornalista viajou para Nova Iorque a convite da APICCAPS

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