Indústria

Eureka. Alguns trabalhadores podem ser integrados noutra empresa do grupo

Foto: D.R.
Foto: D.R.

A Asial, que está em Milão a apresentar nova marca do grupo Eureka, está a laborar normalmente. É esta a empresa que se tem candidatado a apoios da UE

Uma fábrica, duas empresas, a Alberto Sousa e a Asial. Ambas criadas nos anos 80, a primeira dá emprego a 150 pessoas, a segunda a cerca de uma centena. Trabalham lado a lado. Os primeiros foram informados do encerramento, os segundos estão a laborar normalmente. O Sindicato do Calçado do Minho e Trás-os-Montes fala em questões meramente técnicas, porque, “em termos práticos, no dia a dia, quem manda numa é quem manda na outra”, pai e filho, Alberto e Filipe Sousa. O advogado da empresa contactou o sindicato e promete enviar cartas aos trabalhadores, até ao final da semana, dando conta de “quando estará em condições de entregar a documentação para que estes se possam apresentar ao fundo de desemprego”. Não há quaisquer salários em atraso.

Recorde-se que a Alberto Sousa, Lda anunciou aos trabalhadores, na sexta ao fim do dia, que se irá apresentar à insolvência – a empresa está em processo especial de revitalização (PER) – esta semana, dispensando-os de se apresentarem ao trabalho a partir de segunda-feira, dia 17 de fevereiro. Ao mesmo tempo, a Asial, a outra empresa do grupo Eureka, está na feira de Milão a apresentar a nova marca, a ESC. E haverá, alegadamente, a promessa dos patrões de integrar alguns dos funcionários da Alberto Sousa na Asial, mas o sindicato desconhece quantos.

“A empresa terá perguntado a alguns se poderia contar com eles na Asial e há a expectativa de que possam ser chamados para trabalhar lá já a partir de março”, diz Aida Sá. Que garante: “Os próprios trabalhadores não se sentem confortáveis. É uma daquelas situações que, além de criar instabilidade, gera atritos entre eles. Fica sempre a dúvida porque fica um e não o outro”. Esta tarde, os trabalhadores concentraram-se no centro de Vizela em protesto.

Já o sindicato foi contactado pelo advogado da Alberto Sousa. “Eles consideram que não se está perante um encerramento da empresa, apesar de cada trabalhador ter em sua posse uma carta dispensando-o de se apresentar ao trabalho e informando que a empresa se irá submeter a um processo de insolvência”, explica a dirigente sindical. O jurista ter-se-à comprometido a “até ao final da semana enviar uma carta aos trabalhadores dizendo quando estará a empresa em condições de entregar a documentação para o subsídio de desemprego”.

Não falta quem argumente que a empresa presente em Milão é uma entidade jurídica distinta da que encerra, tentando desvalorizar o impacto que a informação causou junto dos trabalhadores. Mas o site da empresa é claro: “A Asial Indústria de Calçado faz parte do grupo Eureka, atualmente um dos maiores fabricantes de calçado em Portugal”. Até setembro passado foi através da Asial que o grupo se apresentou na Micam com a marca Eureka. Este ano, e perante o anúncio do encerramento da rede de lojas Eureka, a Asial apresenta-se com a ESC, a nova marca do grupo.

E é com a Asial que o grupo Eureka se tem candidatado aos fundos comunitários. No site da Asial há a informação dos três projetos em que a empresa está envolvida. Um de internacionalização, com um investimento elegível de 361 mil euros e apoiado em 162 mil euros por fundos comunitários, e outro de qualificação, cujo investimento elegível é de quase 285 mil euros e foi apoiada pela União Europeia em 128 mil euros. O primeiro visa apoiar a “estratégia de promoção internacional de marcas próprias” da Asial, o segundo pretende ajudar ao “reforço da competitividade” da empresa.

Segundo a informação disponível no site do programa Compete, este projeto “intervém ao nível do reforço das capacidades de organização e gestão, da utilização da economia digital e tecnologias informação e comunicação, potenciando a sua presença na web, a criação de marcas e design e da implementação e certificação do Sistema de Gestão da Qualidade”.

Há ainda um terceiro projeto, de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, mas que envolve um universo alargado de empresas. Trata-se do projeto mobilizador FAMEST – Footwear Advanced Materials, Equipments and Software Technologies, que pretende “promover a investigação aplicada, o desenvolvimento técnico e tecnológico e a inovação com elevado valor acrescentado no cluster do calçado e da moda”. Com um investimento elegível de 5,9 milhões de euros e incentivos de 4,2 milhões, o FAMEST envolve 23 empresas de toda a cadeia de valor do calçado, desde o sector dos couros à produção de sapatos, propriamente ditos, passando por todos os componentes associados. A Eureka é uma das co-promotoras identificadas no segmento de calçado e retalho, não sendo especificado qual a empresa do grupo envolvida.

Recorde-se que a Eureka é a marca de calçado do grupo, e que deu nome a uma rede de sapatarias, que chegou a contar com 30 lojas em Portugal e na Europa. No final de janeiro, o grupo anunciava o encerramento das 13 lojas ainda existentes.

Esta terça-feira, o jornal Observador avançava que “vários funcionários ligados à rede de lojas Eureka transitaram para a nova marca, que se prepara para inaugurar novas lojas já partir de março, em localizações coincidentes com os espaços comerciais explorados pela marca agora extinta”. Uma informação que o Dinheiro Vivo tentou confirmar junto do Sindicato do Comércio, mas sem sucesso. Também os responsáveis do grupo se mantêm incontactáveis.

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