Indústria do calçado

Eureka fecha fábrica e deixa 150 no desemprego

Foto: D.R.
Foto: D.R.

Grupo está em Milão, na maior feira de calçado do mundo, a apresentar uma nova marca, com uma nova designação social, embora com a mesma morada. Administração está incontactável

A Alberto Sousa, Lda, empresa fabricante de calçado, fechou as portas, deixando 150 trabalhadores no desemprego. A empresa de Vizela, mais conhecida pela marca Eureka, anunciou há três semanas o encerramento das 13 sapatarias que dispõe Portugal, mas nada fazia prever que a intenção incluísse o fecho da unidade fabril. Trabalhadores e sindicato foram apanhados “de surpresa”. A administração mantém-se incontactável.

“Na sexta-feira, às 17h30, quando acabaram a jornada de trabalho, foram chamados a uma reunião com a administração, que lhes entregou, em mão, uma carta dispensando-os de se apresentarem ao serviço a partir de hoje (segunda-feira). Não receberam o modelo 5044 para acesso ao subsídio de desemprego, tendo sido informados que teriam de esperar pelo administrador da insolvência para o efeito”, explicou, ao Dinheiro Vivo, a dirigente do Sindicato do Calçado do Minho e Trás os Montes, Aida Sá. O Sindicato fez, esta segunda-feira, uma participação à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), e cada um dos 150 trabalhadores requereu, por escrito, à empresa a emissão da referida documentação para efeitos de subsídio de desemprego.

“Foi uma surpresa, até para nós. Os funcionários trabalharam até ao último minuto, sem qualquer aviso prévio. Até porque não têm salários em atraso. E a empresa liquidou hoje mesmo os 16 dias de trabalho de fevereiro”, avançou, ainda, Aida Sá.

Na carta entregue em mãos, por Alberto Sousa e o filho Filipe, os dois administradores da empresa que se fizeram acompanhar por dois advogados, a empresa justifica o encerramento com “motivos de ordem económica”, e diz que irá “preparar e reunir toda a documentação necessária para, na semana de 17 a 21 de fevereiro, se apresentar à insolvência”. A empresa justifica a dispensa dos trabalhadores, dizendo ser “indispensável”, na medida em que “não reúne condições financeiras para continuar a pagar salários”.

Mas explica, também, que por não ter salários em atraso, a lei não lhe permite “cessar, de imediato, os contratos de trabalho”. “É imperativo”, especifica, que os trabalhadores aguardem, por isso, que a insolvência da empresa seja decretada pelo tribunal. E termina dizendo que: “Só nesse momento, o administrador de insolvência que for nomeado pelo Tribunal poderá fazer cessar o seu contrato de trabalho, o que lhe permitirá requerer o Fundo de Garantia Salarial e o Subsídio de Desemprego”.

As dificuldades financeiras da Alberto Sousa foram conhecidas em 2018, quando se apresentou a um processo especial de revitalização (PER), com dívidas de 22 milhões de euros a 622 credores. “O plano de recuperação foi aprovado em finais do ano passado e estávamos convencidos que a empresa lhe ia dar o seguimento devido”, diz o sindicato. Há três semanas, a Alberto Sousa anunciou o encerramento da rede de lojas e, em declarações ao ECO, o advogado da empresa, José Nogueira, garantia que a fábrica de Vizela se iria manter aberta e que a empresa se passaria a “dedicar exclusivamente à componente industrial e a privilegiar a sua matriz inicial”.

A situação é tanto mais incompreensível quando o grupo Eureka está por estes dias a apresentar a sua nova marca de calçado, a ESC, na Micam, a feira de Milão. Que apesar de aparecer no catálogo da feira como sempre propriedade da Asial – Indústria de Calçado, Lda, esta tem a mesma morada da Alberto Sousa, e está a ser apresentada pela diretora comercial da Eureka, com um email cujo domínio é eurekashoes.pt. Todas as tentativas para contactar a administração se mostraram infrutíferas.

Questionada, a associação do calçado, a APICCAPS, que organiza a presença coletiva das empresas portuguesas na feira, não comenta a situação, dizendo não ter qualquer conhecimento oficial do encerramento da empresa.

Para amanhã, terça-feira, os trabalhadores têm uma concentração voluntária marcada para o centro de Vizela, às 15h00, e daí irão dirigir-se à empresa para, mais uma vez, exigirem os documentos para o subsídio de desemprego.

Este é o segundo encerramento de uma fábrica na região, no espaço de uma semana. Aida Sá admite que os próximos meses sejam “bem piores”. “Uma empresa desta envergadura, com 150 trabalhadores, tem sempre muitas pequenas unidades de costura dependentes de si, e irá levar as mais pequenas atrás”, vaticina.

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