Europa. Os próximos desastres para a economia vindos da política

Dos EUA às eleições europeias, passando pelo referendo em Itália, a Europa está em convulsão. E Portugal também vai ser apanhado, dizem os analistas.

Brexit e Trump. Dois efeitos políticos que apanharam os mercados e a maior parte dos decisores e líderes de opinião de surpresa. E se a saída do Reino Unido da União Europeia teve um efeito perturbador nas bolsas mundiais e desvalorizou a libra esterlina para mínimos históricos a vitória do candidato republicano nas eleições norte-americanas não causou a hecatombe que se esperava nos mercados financeiros.

As políticas de investimento público de Trump levaram a que alguns setores disparassem mas também a um salto dos juros da dívida pública. E enquanto os investidores aguardam as medidas concretas do presidente-eleito, que toma posse em janeiro, a Europa prepara-se para vários momentos com potencial de convulsão política e económica - o primeiro já em dezembro, com o referendo constitucional em Itália e numa altura em que as sondagens admitem que ganhe o não e o primeiro-ministro italiano se demita.

Para os analistas contactados pelo Dinheiro Vivo este é o risco mais imediato. Mas não é o único. As eleições na Alemanha, França e Holanda, com o crescimento dos partidos populistas como reacção à crise dos refugiados e também dúvidas em torno do futuro da política monetária, a crise da dívida e a fragilidade do setor bancário são temas a acompanhar e que influenciarão os mercados. Sem esquecer as tensões na Síria, entre Estados Unidos e Rússia e o possível enfraquecimento da NATO.

"Considerando os eventos recentes, como o voto Brexit ou a eleição de Donald Trump, os receios em torno da possibilidade de contágio e reforço de poder de partidos europeus mais extremistas que defendem políticas anti-imigração, de caráter populista e antieuropeístas aumentaram substancialmente", diz Marisa Cabrita, da Orey Financial.

Para a analista, o referendo italiano "afigura-se como o próximo evento de risco político na Europa, por ser a próxima oportunidade de um voto antissistema".

A equipa de research do BiG refere que "o maior risco para o enquadramento económico, social e político na Europa é o conjunto de eventos políticos que decorrem no final deste ano e em 2017 – referendo na Itália, eleições na Alemanha, França e Holanda – e o crescimento dos partidos populistas neste enquadramento. Este risco encontra-se correlacionado com um adicional ponto de instabilidade que é a débil recuperação económica europeia, sendo este um dos catalisadores para o ressurgimento destes movimentos populistas."

Os riscos políticos das eleições são os mais referidos pelos analistas contactados pelo Dinheiro Vivo. Em França, Marine Le Pen, a candidata do partido de extrema-direita Frente Nacional deve passar à 2ª volta nas presidenciais, suscitando preocupações.

Na Holanda, Geert Wilders, líder do partido para a Liberdade, anti-imigração, está a ganhar espaço, segundo as sondagens. Na Áustria, Norbert Hofer, também do partido para a Liberdade para a Áustria, ficou muito perto da vitória nas eleições de maio. E na Alemanha o partido de extrema-direita e ainti-imigração liderado por Frauke Petry pode ganhar visibilidade numa altura em que Angela Merkel ainda não anunciou se volta a candidatar-se.

Assim, "os resultados da próxima ronda eleitoral na Europa deverão refletir o sentimento dos europeus perante a vaga de imigração que se tem observado. Por outro lado, os desenvolvimentos do processo do Brexit poderão continuar a apresentar-se como fatores de risco adicionais", acrescenta Marisa Cabrita.

Pedro Lino, da DIF, partilha esta visão. "Os maiores riscos decorrem do facto dos políticos europeus não estarem a dar voz à vontade dos cidadãos europeus em muitas áreas, e isso vai-se refletir nos resultados do referendo italiano e nas eleições gerais na França, Holanda e Alemanha em 2017."

"Podemos ter uma série de eventos que coloquem em causa a UE e zona euro, como as conhecemos", avisa Pedro Lino.

 

Filipe Garcia, economista do IMF, refere o contexto do Brexit e a vitória de Trump como fatores que colocam em causa "os poderes instituídos e o papel da União Europeia", nomeadamente a cada vez maior referência a uma desagregação da União Económica e Monetária.

"A UE tem agora pela frente um conjunto de ida às urnas que podem influenciar o futuro da União, nomeadamente o referendo em Itália e eleições na Holanda, França e Alemanha. Este é um período em que os inimigos da União Europeia, por filosofia ou interesse, estão muito ativos. Socialmente, o tema da imigração ilegal e dos refugiados ajuda a minar os sentimentos anti-UE", avisa.

Os receios em torno do crescimento do sentimento populista nos Estados Unidos levou mesmo o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaüble, a lembrar o nazismo.

Marisa Cabrita concorda que os efeitos das políticas de Trump podem começar a fazer-se sentir no plano económico. "Caso o novo presidente americano consiga fazer o delivery das suas intenções, poderemos assistir a um ciclo de subida de taxas de juro mais agressivo nos EUA, redução dos fluxos comerciais internacionais e, consequentemente, algum contágio e abrandamento da economia europeia". Além disso, a fragilidade do setor bancário pode ser um foco de atenção.

João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa, junta a este cocktail europeu "a imprevisibilidade de Donald Trump" e a "evolução da inflação e correspondente evolução das taxas de juro".

Também Albino Oliveira, da Patris Investimentos, vai além do risco político, lembrando que as fragilidades na zona Euro podem ser novamente postas a descoberto.

"O principal risco está relacionado com o facto da zona euro permanecer incompleta. Se olharmos por exemplo para Portugal, o País continua bastante suscetível a um período de mais elevadas taxas de juro que possa colocar em causa a sustentabilidade da dívida pública." Além disso, a política monetária do BCE, que tem servido para criar um ambiente de estabilidade, pode ficar comprometida caso surja "um novo choque que pode voltar a criar tensões dentro da zona euro".

José Correia, gestor da XTB, aponta que "Mario Draghi irá tomar uma decisão muito importante relativamente à continuação do programa de QE, após o mês de Março de 2017 e as eleições agendadas para países-chave da União Europeia podem trazer instabilidade aos mercados".

Fora da Europa e como consequência da mudança de poder nos Estados Unidos, o país pode vir a adotar uma "postura mais reativa do que interventiva, a relação de poderes dos diversos blocos económicos poderá vir a alterar-se substancialmente, nomeadamente com um possível enfraquecimento da NATO, alteração das relações com o Irão, com Israel e especialmente a relação com a Rússia", diz Marisa Cabrita.

Primeiro, Itália

O primeiro momento de teste vai dar-se já a 4 de dezembro, com o referendo constitucional em Itália. A proposta prevê, entre outros temas, a perda de poder do Senado e a extinção de províncias. Entre os detratores das mudanças à Constituição estão Sílvio Berlusconi, ex-primeiro-ministro de Itália, e Beppe Grillo, líder do movimento 5 Estrelas, partido que tem colhido cada vez mais aceitação.

O primeiro-ministro italiano Matteo Renzi já disse que se demite se o referendo chumbar a mudança da constituição, numa altura em que o país se debate com uma forte crise no setor bancário por causa do crédito malparado e o sentimento anti-euro ganha cada vez mais força e já se fala em Italexit.

Leia mais: União Europeia. O Reino Unido já foi. E se Itália for a seguir?

Para os analistas, o resultado do referendo é relevante não só para o sentido político de Itália mas também para dar indicações sobre a estabilização do sistema financeiro. Ainda assim, afastam a possibilidade de um novo referendo para votar a saída do Euro e recusam alarmismos, mesmo perante o risco de serem convocadas eleições antecipadas.

Marisa Cabrita avisa que, apesar de as sondagens indicarem o não ao referendo, ainda há muitos indecisos. "Considerando os eventos recentes, como o voto Brexit ou a eleição de Donald Trump, o referendo italiano comporta um risco adicional de ser a próxima oportunidade de um voto antissistema. No cenário em que a reforma é rejeitada, poderão aumentar as expectativas de eleições antecipadas, onde os partidos antissistema saiam reforçados", embora frise que essa "não parece ser uma possibilidade forte".

Também Albino Oliveira refere que o principal risco é a "eventual realização de eleições antecipadas que conduzam a um bom resultado por parte do partido 5 estrelas, o que poderia representar riscos acrescidos para a Zona Euro".

"A partir desses resultados poderemos ter indicações mais concretas sobre a solução para a recapitalização da banca italiana", diz João Pereira Leite, do banco Carregosa.

Para Pedro Lino, o problema é global. "Quando os cidadãos deixam de ver as vantagens em pertencer a uma zona económica é natural que tudo seja colocado em causa. Acredito que com Trump na Casa Branca seja mais fácil às pessoas votarem numa saída do euro e pensarem que têm uma alternativa mais vantajosa, especialmente a geração mais nova que não passou por guerras, nem sabe o que são restrições financeiras, tais como os seus pais e avós as conheceram".

A equipa de research do BiG não acredita numa saída do Euro. "Não atribuímos uma probabilidade elevada à possibilidade de um referendo para votar a saída do Euro, o que a acontecer resultaria num aumento de risco para a estabilidade económica, política e social da Europa", dizem os analistas.

Filipe Garcia frisa que a questão é "prematura" mas admite que um referendo em Itália para votar a saída do euro faz com que "outros Estados-membro que desejem sair comecem a exigir também referendos".

Também José Correia, da XTB, desvaloriza este cenário. "É pouco provável que seja proposta essa situação pois a incerteza associada à implementação de outra moeda é elevada e o risco do impacto ser negativo para a economia italiana também".

Como reagem os mercados?

Os mercados deram mais um sinal da sua imprevisibilidade depois das bolsas norte-americanas terem aberto com perdas ligeiras e registado ganhos ao final do dia perante os resultados das eleições norte-americanas, depois de catastróficas previsões, incluindo as de recessão do Nobel da economia Paul Krugman.

Mas os impactos, quer dos choques nos EUA quer na Europa, vão penalizar as principais praças europeias. Os juros da dívida serão o ativo mais afetado, assim como os setores mais expostos à sua variação.

Para os analistas, as bolsas serão marcadas sobretudo pelos acontecimentos nos EUA - o Goldman Sachs definiu as 10 tendências dos mercados para o próximo ano e frisou a importância do efeito Trump - a não ser que algo muito grave aconteça na Europa, diz Filipe Garcia, como a vitória de Marine Le Pen em França, exemplifica Albino Oliveira. "O efeito será provavelmente negativo" devido a um maior prémio de risco.

Para Filipe Garcia "os investidores irão reagir com muito pessimismo a qualquer probabilidade de desagregação do euro", com o mercado da dívida "a enfrentar enorme volatilidade, com forte subida dos juros de países mais periféricos" e a queda a pique das bolsas. Marisa Cabrita refere a subida das yields europeias, a depreciação do euro e as quedas generalizadas nas bolsas como consequências.

Para a equipa de research do BiG os investidores irão provavelmente procurar ativos de refúgio, o caminho seguido em momentos de crise e incerteza.

"Os impactos podem ser violentos principalmente nas bolsas europeias uma vez que a Europa não tem capacidade de resposta como os EUA, que vão, ao que tudo indica, iniciar um forte plano de estímulos à economia interna", avisa Pedro Lino.

Portugal também vai sofrer?

Para os analistas uma coisa é certa: ainda que não seja tão afetado como os países que passarão pelas convulsões o impacto das mudanças políticas vai chegar a Portugal, que seja pela subida dos juros da dívida - o que já se tem verificado nos últimos dias - quer pelo peso nas exportações.

João Pereira Leite, do Banco Carregosa, diz que o risco está na subida das taxas de juro devido a um aumento generalizado ou a um "aumento da perceção do risco do país". "Com um rácio dívida PIB a 130%, não podemos dar-nos ao luxo de emitir dívida a taxas elevadas". A equipa de research do BiG partilha a mesma visão, frisando que o impacto será a subida nas yields da dívia soberana e "consequentemente um deteriorar das condições de financiamento do Estado e empresas no mercado".

O risco de efeito de contágio, particularmente importante tendo em conta que o país está suscetível a uma subida nos seus custos de financiamento, fruto da elevada dívida pública e fraca rentabilidade do setor bancário é uma possibilidade, diz Albino Oliveira.

Também Marisa Cabrita aponta a subida das yields como o maior risco para Portugal. "Portugal, como economia fragilizada, com elevados níveis de dívida, uma actividade económica modesta e dependente da dos parceiros europeus, tal como aconteceu no passado, seria alvo da desconfiança dos investidores internacionais. A subida das yields portuguesas e queda generalizada do mercado acionista poderiam ser um dos efeitos imediatos".

"Para Portugal terá o impacto será tanto maior quanto o impacto nos nossos parceiros comerciais. Assim a procura de mercados para os nossos produtos reveste-se de grande importância, num mundo que irá com certeza ficar mais protecionista", diz Pedro Lino.

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