Indústria

Exportações crescem, mas não de calçado e de vestuário

O primeiro-ministro, António Costa. Fotografia: Alexandre Ribeiro/Lusa
O primeiro-ministro, António Costa. Fotografia: Alexandre Ribeiro/Lusa

Quebra de 8,8% em Espanha prejudica o vestuário; uma das culpadas é a Inditex. O calçado aponta o dedo ao tempo, mas o consumidor está a mudar

As exportações portuguesas estão a crescer, e as da indústria transformadora também, mas as do setor-chave da fileira da moda, como o calçado e o vestuário, estão a cair 1,7% e 2,7%, respetivamente. São 14 milhões de euros perdidos no vestuário, que se ficou pelos 530 milhões de exportações, e seis milhões nos sapatos, que venderam apenas 357 milhões.

A retração do mercado espanhol, que absorve um terço das vendas ao exterior, e que “tem vindo a afrouxar nos últimos meses”, está a preocupar a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal; no calçado, a APICCAPS, a associação da indústria, culpa o clima “completamente atípico”. Mas Fortunato Frederico, o maior industrial de calçado do país, alerta que o setor “precisa de encontrar um novo paradigma” porque o do passado “já não serve”.

Foi isso que Fortunato Frederico destacou, na presença do primeiro-ministro, quando, na semana passada, inaugurou a sua mais recente aposta: a Overcube, a nova plataforma de vendas online da Kyaia, para as marcas do grupo e não só. Um investimento de um milhão de euros, que permitiu a contratação de 20 quadros “altamente qualificados”, número que deverá ser reforçado até ao final do ano, diz o empresário, com mais oito ou dez pessoas.

“O ano arrancou muito frouxo. Antigamente havia crises conjunturais que conseguíamos identificar, agora sente-se que há uma mudança estrutural, mas não conseguimos apontar-lhe verdadeiramente uma causa. Só sabemos que os negócios não fluem como fluíam. É uma loja que fecha aqui, outra ali, mas não é, sequer, exclusivo de Portugal”, diz o empresário. Que também está a fechar algumas das sapatarias da Foreva. “As que dão prejuízo”, sublinha.

“Desde 2010 que a Foreva deu sempre prejuízo. Se fosse um empresário que não tivesse qualquer outro negócio, já tinha falido”, argumenta. E lembra a mudança de hábitos dos consumidores: “É a tal mudança estrutural, as pessoas valorizam muito mais ir passar férias ou almoçar e jantar fora do que comprar sapatos. E como toda a gente usa é desportivos, esse é o negócio das marcas internacionais, que os trazem da China.” Solução? “Temos de repensar se vamos procurar novos mercados ou se vamos reforçar as equipas naqueles em que estamos”, diz o fundador da Kyaia, que dá emprego a mais de 600 pessoas e fatura 65 milhões só na área industrial.

O que se passa então com o vestuário e o calçado? Paulo Vaz, diretor-geral da ATP, fala na quebra do mercado espanhol, que tem “um peso muito grande” nas exportações dos têxteis e vestuário, já que absorve um terço do total vendido ao estrangeiro. Isto mostra que “é perigoso pôr os ovos todos no mesmo cesto”, embora preferisse que essa divisão dos ovos se fizesse “de forma gradualista”.

As exportações de roupa portuguesa para Espanha caíram 8,8% nos primeiros dois meses do ano, uma perda de 24 milhões. “Primeiro, temos uma quota tão grande que se torna difícil continuar a crescer. Segundo, o problema catalão é real e o último trimestre do ano passado provou-o, com o consumo da Catalunha a cair 17% em termos de retalho. Sendo esta uma região rica e importante, é natural que afete a Espanha como um todo e as importações do país”, diz Paulo Vaz. O terceiro fator é ainda mais sensível. “Temos assistido ao que parece ser uma mudança de estratégia da Inditex, um grande cliente da indústria portuguesa, que tem ido comprar a outros destinos, como Marrocos ou a Turquia”, refere o diretor-geral da ATP, que tenta desdramatizar a situação.

O fator Inditex
“A permanente pressão concorrencial do Oriente obriga a Inditex – dona de marcas como a Zara, Pull & Bear, Bershka, Massimo Dutti e Stradivarius – a gerir custos de produção e o campeonato da indústria portuguesa não é o do preço, é o do valor. E não podemos querer concorrer com a Turquia ou com o Bangladesh”, argumenta, sublinhando: “É uma estratégia, não sabemos ainda se é pontual, mas vamos estar atentos.” Os dados de março, que completarão os números do primeiro trimestre, “já irão ajudar a perceber melhor o que se passa”.

Já o calçado não se pode queixar do mercado espanhol, que até é dos poucos que aumenta neste arranque de ano, com um aumento homólogo de 8,5% (mais 2,7 milhões de euros). Tal como a Itália, que cresce quase 11%, e o Reino Unido, com 6,5%. Mas os principais destinos das exportações de sapatos portugueses, como a França e a Alemanha, estão a cair, respetivamente, 3% e 7,8%, com uma perda acumulada de quase 8 milhões de euros. Não admira, por isso, que as vendas de calçado português para a UE, que absorve mais de 85% das nossas exportações, tenham diminuído 1,8% nos primeiros dois meses do ano.

“O único mês em que as exportações de calçado caíram em 2017 foi em fevereiro, tal como este ano”, diz Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, que lembra que, mesmo assim, a indústria atingiu “novo recorde histórico” ao exportar 81 milhões de pares de sapatos, num valor superior a 1923 milhões de euros. O problema, garante, é que os primeiros meses do ano são “tendencialmente os mais difíceis”, até porque a sazonalidade tem vindo a acentuar-se. “Não escondemos que o calçado é um setor de moda e que depende das condições atmosféricas. O último verão e inverno foram completamente atípicos e temos vindo a receber informações dos retalhistas de que o consumo nos países do centro da Europa está aquém do expectável e isso acaba por se refletir nas exportações.”

A solução, diz Paulo Gonçalves, tem sido reforçar a presença em mercados extracomunitários. “Mais do que nunca isso é hoje uma prioridade”, garante. Mas também aí as coisas não estão a correr necessariamente bem. Canadá e Rússia estão em alta, com crescimentos de 10,1% e 26,5%, respetivamente, mas em Angola e na Colômbia a quebra é brutal. Angola, que o ano passado até cresceu, este ano reduziu as compras de calçado em Portugal de 4,5 para 1,7 milhões de euros. A Colômbia quase não comprou: foram vendidos sapatos no valor de somente 6521 euros. A desvalorização do peso, que o ano passado já fez mossa, continua a pesar nas contas.

Metalurgia: Campeã das exportações vende mais 18,4%

Janeiro e fevereiro foram o terceiro e o quarto “melhor mês de sempre” das exportações da indústria metalúrgica, garante a associação do setor, a AIMMAP. A metalurgia e metalomecânica nacional acumulou, nos dois meses, 1,487 mil milhões de euros de vendas ao estrangeiro, um crescimento homólogo de 18,4%. Alemanha e França, o primeiro para os componentes automóveis e o segundo para as peças técnicas, impulsionaram o bom momento, com acréscimos de 32,65% e 23,88%. Mesmo o Reino Unido cresceu 5%. Fora da Europa, correu menos bem, com quebras nas exportações para a China e Angola, e com o aumento de apenas 1% nos EUA – antes estavam a crescer 30%.

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