Indústria

Exportações de calçado crescem 45% para a China e 17% para os EUA

Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens
Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens

Portugal está a ganhar com o diferendo comercial entre os Estados Unidos e a China? Há quem acredite que seja possível, como Fernando Brogueira, da Move On. Amílcar Monteiro, da Kyaia, lembra que ainda é cedo para avaliar.

Num ano em que as exportações totais de calçado estão a cair 8%, puxadas para baixo pela má conjuntura nas principais economias da zona euro, a China e os Estados Unidos sobressaem pela positiva. As exportações de sapatos portugueses para a China estão a crescer 45% para 17,4 milhões de euros. Os dados são das vendas ao exterior entre janeiro e julho e seguem-se a um ano em que as exportações para a China já haviam crescido 60% em volume e 71,5% em valor, num total de quase 545 mil pares e 23 milhões de euros. No mercado americano, e após a quebra de 2018, este ano já se venderam 1,274 milhões de pares no valor de 47,2 milhões de euros, um aumento de 3,3% em volume mas de 17,6% em valor, o que significa que os americanos estão a valorizar melhor o calçado nacional. O preço médio é de 37 euros. Na China é de 42,3 euros, sendo que este mercado é já o 11.º principal destino das exportações do sector, separado da Suécia, que ocupa o último lugar no top 10, por, apenas, três milhões de euros.

Significam estes números que Portugal está a tirar partido da guerra comercial EUA-China? As opiniões divergem, embora, maioritariamente, o setor acredite que será afetado e não de uma forma positiva. É o caso Luís Onofre, um dos principais criadores nacionais e presidente da associação do calçado, a APICCAPS. “Sendo a Alemanha um dos países que mais vão sofrer os efeitos desta guerra comercial e sendo a ‘timoneira’ da Europa, claro que nos afeta a todos. Direta ou indiretamente”, frisa. Assumindo-se contrário à maioria das decisões de Donald Trump, Onofre admite, no entanto, que “dado o enorme défice comercial que os EUA têm face à China, ele tinha fazer alguma coisa”. O problema é que tudo isto pode resultar “num desastre mundial”. “Sou total e completamente a favor da globalização, mas com igualdade no acesso aos mercados. As fronteiras têm de estar abertas para todos”, defende.

Luís Onofre falou ao DN/Dinheiro Vivo no seu stand na Micam, a feira de calçado que esta quarta-feira termina em Milão. E já no primeiro dia do certame, quando o ministro do Planeamento visitou as 81 empresas presentes no evento, o presidente da APICCAPS e líder da Confederação Europeia do Calçado mostrara preocupação com as desigualdades no acesso aos mercados, prometendo levar a questão ao debate na próxima reunião da confederação, em novembro. “Num mundo que se quer liberalizado e de comércio livre só a Europa está a cumprir. E se assim é há que tomar medidas, porque tudo isto nos retira competitividade”, argumenta.

Fernando Brogueira, CEO da Move On, proprietária da marca Saydo e ex-fabricante e distribuidora da americana Aerosoles em território europeu, mantém a esperança que a imposição de tarifas adicionais sobre os produtos chineses se torne uma vantagem para os produtores europeus. “Mal não há-de fazer! Se tínhamos um défice de preço [comparativamente aos artigos chineses] ele passa, pelo menos, a ser reduzido. E a verdade é que a maioria dos clientes, no momento da compra, não quer saber onde é feito o produto, quer é poder comprá-lo barato”, frisa.

A Fábrica de Calçado Trópico, de Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia, é uma das que está a crescer na China, onde obtém cerca de 10% das suas vendas, designadamente com a marca Perlato. E as perspetivas para o próximo ano são excelentes. “A China foi um mercado que teve uma expansão muito grande e que depois estagnou. Houve uma ‘limpeza’ muito grande no mercado e os clientes chineses que ficaram são os que entendem mais do negócio e que compram mais”, diz Carlos Abreu, gestor da empresa, que garante ter assegurado na atual edição da Micam “mais 30 ou 40% de vendas a clientes chineses do que nas últimas duas feiras”.

Amílcar Monteiro, sócio-gerente da Kyaia, acredita que ainda é cedo para fazer avaliações, lembrando que a mais recente escalada no diferendo entre os dois países, com a aplicação de tarifas de 15% sobre produtos como o calçado, o vestuário ou os têxteis-lar produzidos na China, apenas entrou em vigor a 1 de setembro. “Os dados mostram que 90% do calçado importado pelos Estados Unidos vai da China, produtos que, de uma vez só, e desde o dia 1, viram o seu custo aumentado, por via dos impostos, em 15%. E isso vai refletir-se no sector, embora os resultados só se verão nas épocas seguintes. Se isso pode ser uma vantagem para Portugal? Até pode ser marginal, mas a perturbação que vai criar nos mercados é terrível”, defende.

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