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“As eleições europeias vão sofrer muito com o fenómeno das fake news”

REUTERS/Vincent Kessler
REUTERS/Vincent Kessler

Antes da campanha política, a cruzada moral. O Parlamento europeu quer amortizar o impacto que as notícias falsas vão ter nas eleições de 2019

Foi há cerca de ano e meio que Paulo Rangel visitou a Bósnia, enquanto dirigente do PPE. A passagem coincidiu com a inauguração de uma ponte financiada pela União Europeia. No dia anterior, o líder da região bósnia em causa, próximo dos russos, tinha ido a Moscovo, onde tirou uma fotografia ao lado de Vladimir Putin, ambos com um cheque na mão. “Em toda a imprensa se escreveu que foi a Rússia a pagar a ponte”.

A história, contada em Estrasburgo ao Dinheiro Vivo pelo eurodeputado, é só um exemplo de “como a manipulação de informação está hoje enraizada”. A seis meses das próximas eleições europeias, o combate às notícias falsas, ou “fake news”, é assumido pelo Parlamento Europeu como uma prioridade.

Para Carlos Zorrinho o remédio para o vírus da desinformação é claro, mas ainda não está à vista de todos. “Temos de combater fogo com fogo. A resposta ao mau uso da tecnologia só pode ser o bom uso da tecnologia. Não é com respostas do passado que se enfrenta esta nova realidade. O desafio exige que pensemos em soluções diferentes e arriscadas, o que exige jogar com as armas do inimigo para que essas armas, eventualmente, acabem”, sublinhou o eurodeputado em entrevista ao DV, concedida esta quarta-feira, minutos após o hemiciclo europeu ter debatido as medidas a tomar para “reforçar a resistência da União Europeia contra a intervenção de agentes externos” nas próximas eleições.

O eurodeputado socialista apoia as medidas propostas pela Comissão Europeia, que depois do Brexit e da Cambridge Analytica pôs em marcha um plano de contenção de danos. Uma das ideias de Bruxelas é criar uma rede europeia de verificadores de factos. “Isto à partida não é fácil de aceitar, por causa da questão da legitimidade de quem controla o quê, e porquê”, admite Zorrinho.

Além dos “fact checkers” europeus, o eurodeputado acredita que a União teria a ganhar se criasse uma “espécie de Google europeu, com informação útil e verdadeira para os cidadãos da UE”. Outra proposta hercúlea, reconhece. Até porque, acrescenta, o verdadeiro desafio é educar quem carrega no botão de “partilhar”.

“É preciso dotar os cidadãos de literacia digital, para que tenham capacidade para perceber o que é um troll e uma notícia falsa. Nós fazemos uma eleição diária quando partilhamos um conteúdo nas redes”.

“As pessoas têm direito a defender disparates”

Na visão de Paulo Rangel, é também aqui que a UE vai ter de se esforçar para ganhar a guerra virtual, porque “as pessoas têm direito a defender disparates”. O problema coloca-se quando um “disparate” se transforma num “atentado à democracia”.

“O mais difícil é definir o que é uma notícia falsa em termos jurídicos. Claro que há exemplos paradigmáticos que não oferecem dúvidas. Mas há outros muito subjetivos. Não se pode proibir alguém de escrever que o Big Bang não existiu. Mas se alguém escreve que houve um massacre algures e não existiu massacre nenhum, claro que é mais óbvio”. O problema, destaca, é que “a maioria dos casos podem ser confundidos com censura. Há uma nuance que torna difícil, em termos jurídicos, saber qual o limite da liberdade de expressão e de divulgação de ideias”.

Para o eurodeputado do PPE, o combate às “fake news” tem de ser feito em duas frentes: a da proteção dos dados dos cidadãos e a do cibercrime.

A primeira passa por apertar o controlo às gigantes como a Google, Amazon ou Microsoft, que “por serem monopolistas não têm autorregulação, como existe por exemplo, no jornalismo”. A segunda, diz, vai obrigar a um investimento nas forças de polícia de cada país, que hoje não têm capacidade para lidar com o fenómeno.

Apesar dos esforços da União Europeia, os dois eurodeputados admitem que por muitas medidas que sejam tomadas, nada poderá ser feito a tempo de evitar que as “fake news” contaminem as eleições europeias de maio do próximo ano.

“As eleições europeias vão sofrer muito com este fenómeno. Vão ser o primeiro teste da vacina”, afirma Carlos Zorrinho. Até 2020, há cerca de 50 atos eleitorais agendados na Europa, entre eleições nacionais e regionais.

No debate que teve lugar ontem em Estrasburgo, foi unânime entre os grupos parlamentares europeístas que a Rússia é o “paciente zero” da cultura da desinformação. E que a Europa é o seu alvo preferido. “A Europa tem paz, democracia participativa, o maior mercado de consumidores do mundo, é defensora da sustentabilidade do planeta. Isto atrapalha muito as potencias que não querem ter regras como esta, por isso claro que somos um alvo. A Rússia é fortíssima em termos cibernéticos”, salienta Zorrinho.

O eurodeputado deixa, por fim, um apelo. “A paz sempre foi resultado do equilíbrio. A UE tem de se reequilibrar para evitar a guerra. O que significa que as pessoas têm de escolher se querem uma sociedade decente com informação de qualidade ou uma sociedade em que andamos todos a enganar-nos uns aos outros, e que mais cedo ou mais tarde será muito infeliz. As forças populistas não têm pejo em anunciar que com as fake news conseguiram influenciar o Brexit, as eleições nos EUA, as eleições no Brasil. E vão conseguir muito mais se isto não for travado a tempo”.

A jornalista viajou para Estrasburgo a convite do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal

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