Agroalimentar

Faltam 20 mil trabalhadores na indústria agroalimentar

Jorge Tomás Henriques, da FIPA

Fotografia: Diana Quintela / Global Imagens
Jorge Tomás Henriques, da FIPA Fotografia: Diana Quintela / Global Imagens

Setor deverá superar os 17 mil milhões de euros de faturação e mais de 5 mil milhões em exportações. Debate-se com falta de recursos humanos

Dá emprego direto a cerca de 115 mil pessoas, mas a indústria agroalimentar precisa de mais trabalhadores. Muitos mais: entre 5 e 20 mil. “Denotamos, em alguns setores, uma enorme dificuldade de mão-de-obra, nomeadamente, qualificada. Fala-se da indústria 4.0, mas há muito que na indústria agroalimentar estamos na quarta revolução industrial, quer em matéria de digitalização quer de robotização”, garante Jorge Tomás Henriques, presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA).

Composto por cerca de 12 mil empresas, o setor dá indiretamente emprego a entre 500 e 750 mil pessoas. “Não somos um setor displicente. Em certas zonas do país, como o Alentejo, a indústria agroalimentar e pecuária empregam mais de 25% da população”, diz o presidente da FIPA.

Neste ano espera-se que a indústria agroalimentar ultrapasse 17 mil milhões de euros de volume de negócios, uma subida face aos 16,9 mil milhões de 2018. Mas há “custos de contexto”, que estão a impedir que seja mais produtiva e competitiva. Um deles é a falta de pessoal. No interior, onde está instalada grande parte da indústria, “não há pessoal não especializado, nem especializado, começa a ser uma grande dificuldade em contratar em alguns subsetores”, lamenta Jorge Tomás Henriques.

Os números são expressivos. “Calculo que para as necessidades sazonais da indústria faltam entre 10 e 20 mil pessoas, pois existe dificuldade em contratar nas zonas, sobretudo no interior, onde estão instaladas as indústrias e as produções ligadas às indústrias, mesmo de mão-de-obra indiferenciada, quer para as colheitas quer para o restante trabalho”, diz o presidente da FIPA. “Na robótica, encontrar técnicos, engenheiros em algumas especialidades, seja alimentar ou química, que se queiram deslocar com a família é muito difícil.” Recursos humanos cuja falta se faz sentir não só durante os picos de produção. “Faltam entre cinco e dez mil pessoas” no período normal de laboração.

Crescer nas exportações
Apesar deste constrangimento, a expectativa para este ano é de crescimento, não só ao nível da faturação mas também das exportações. Até abril, o setor exportou 1,622 mil milhões de euros, mais 1,3% do que em relação a janeiro-abril de 2018, ano em que as exportações da indústria alimentar e das bebidas atingiu 5,016 mil milhões de euros. O valor mais alto de sempre, correspondendo a 8,66% das exportações portuguesas. Espanha voltou a destacar-se, representando cerca de 25% das vendas da indústria para o exterior. O mercado francês valeu cerca de 9% e o brasileiro 6%. Azeite, leite e produtos lácteos e o vinho foram as categorias mais relevantes.

“Até abril continuámos a consolidar o nosso objetivo de passar este ano os cinco mil milhões de euros. Não há muitos setores tradicionais que se aproximem desse valor de exportações”, frisa.

Mas se em 2018 as exportações poderiam ter crescido mais não tivesse havido “um gravíssimo problema” com as greves nos portos nacionais – “tivemos muitas cargas retidas e muitas encomendas, que se destinavam ao Natal, anuladas”-, neste ano, o presidente da FIPA elenca outros perigos. O arrefecimento da economia da União Europeia – o principal mercado para os produtos nacionais – e o brexit poderão gripar o motor das exportações. “Estamos preocupados com o brexit, que pode afetar um conjunto importante de produtos portugueses. Estima-se que, de uma forma geral, as exportações portuguesas possam perder mais de 15% com a saída do Reino Unido da União Europeia.”

Apesar do clima de incerteza, “mantemos a ambição de Portugal poder vir a ser um exportador líquido em termos da indústria agroalimentar”, diz. Em 2018, o setor importou 7,287 mil milhões de euros. Feitas as contas, a indústria ficou a pouco mais de 2,2 milhões de atingir essa meta. Neste ano, até abril, faltou “apenas” 754 milhões, valor que compara negativamente com os 658 milhões de há um ano. O setor tinha colocado 2020 como meta para ser exportador líquido.

Aposta nas marcas
“Mantemos essa ambição, não queremos tirar o pé do acelerador, mas reconhecemos que é preciso fazer muito mais em matéria de internacionalização e promoção externa”, admite Jorge Tomás Henriques. “Não estão esgotados todos os instrumentos que podiam estar ao serviço da indústria, nomeadamente com a promoção das marcas. Sem marcas estamos a vender menos valor acrescentado”, defende. “Se não olharmos para as marcas continuaremos a exportar, porque temos algumas categorias que são reconhecidas, mas não daremos o salto que ambicionamos”, acredita. “Essa promoção tem de vir de programas que têm de ser vocacionados para o apoio das marcas. Os apoios não podem estar dispersos por entidades várias que, algumas, se limitam a fazer pequenas missões.”

“Só aqueles capacitados para a exportação e que se traduzam em retorno para o país e marcas é que devem ser apoiados. É preciso que o envelope destinado à indústria agroalimentar seja consentâneo com as necessidades e o potencial que o país tem.”

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