Fim das moratórias antes de a economia estar pronta "será uma bomba-relógio"

O líder dos patrões teme o fim das moratórias em setembro e lamenta que a vacinação não seja mais rápida para ganhar confiança.

António Saraiva lidera a CIP, Confederação Empresarial de Portugal, há mais de uma década. Aquele a quem chamam o patrão dos patrões representa grande parte do tecido empresarial na concertação social. Com o país a atravessar uma das mais graves crises económicas de sempre, António Saraiva, tem pela frente o desafio de fazer valer junto do governo os pontos de vista de quem cria riqueza e gera emprego.

Já tivemos um alerta da Moody's de que Portugal está muito pressionado para baixar a dívida - que já passa dos 135% - a partir do próximo ano. A economia terá ainda este ano muito difícil e o Presidente da República já falou na possibilidade de estender as moratórias a um prazo muito mais longo. Isso faria sentido? Podia ajudar?

Fará todo o sentido, porque tal como nas empresas, o país precisa de reagir, temos de nos adaptar à mudança. E esta realidade é perfeitamente disruptiva. Esta pandemia é totalmente diferente de outras realidades anteriores que vivemos e temos de nos adaptar a ela. O alongamento das moratórias, as linhas reforçadas e com montantes significativos dentro do quadro de possibilidades da economia portuguesa são essenciais.

Nós não podemos comparar-nos com outros Estados europeus, mas olhando os PIB, a riqueza que se produz, vemos que comparamos muito mal. O que Portugal, o governo português, tem dado de apoio à sua economia compara muito mal com o que acontece em outros Estados-membros e isso terá um efeito perverso. Dando os outros países mais apoio à sua economia e capacitando as suas empresas de uma resposta pós-pandémica mais eficaz, Portugal fica prejudicado. Porque não estamos na pole position - estamos a partir da quarta ou quinta linha - e teremos de recuperar muito mais rápido. Se recuperarmos... A Europa coesa de igualdade de oportunidades é mais igual para uns do que para outros.

Há uma grande quantidade de crédito de famílias e empresas sob efeito de moratórias. Quando terminarem - o que agora se prevê para setembro - podemos viver um momento de maior gravidade?

A acreditar em alguns dos indicadores que me têm apresentado, as moratórias representam cerca de 40 mil milhões de euros, é desta magnitude que falamos. E sendo moratórias, chegará o momento em que terão de ser pagas. Se esse pagamento não for feito de forma inteligente, faseada e absorvendo todos os equilíbrios e necessidades das entidades envolvidas, estamos com uma bomba-relógio debaixo dos pés. Se essa obrigação tiver de ser cumprida num dado momento que não seja compatível com a geração de receitas daqueles que têm de a cumprir, não sei como se resolverá o problema.

Seria então importante dar já um sinal dessa disponibilidade de extensão de prazo, até para as empresas se organizarem?

Se há fator que a economia e as empresas apreciam é a estabilidade, saber com o que contam. E se soubermos antecipadamente o que temos pela frente e o horizonte de que dispomos, podemos gizar estratégias em termos de tesouraria em função dessa realidade. Se tivermos de adaptar-nos mês a mês ao que vai sendo a boa vontade dos governos, é muito difícil e acrescenta problema ao enorme problema que já temos.

As empresas criticaram o aumento do salário mínimo decidido pelo governo. Que efeitos é que esta nova paragem pode ter no cumprimento dessa medida?

Os otimistas, entre eles o governo, diriam que o crescimento de Portugal em 2021 andaria - é o que está plasmado no Orçamento do Estado - na ordem dos 5,9%. A OCDE veio dizer 1,7%. O ponto de arranque era entre estes dois valores. Agora vamos ter este primeiro trimestre de recrudescimento da pandemia que vai atrasar a retoma. Mesmo com a sinalização das vacinas e a esperança que a vacinação pode trazer, com a calendarização a terminar lá para outubro, na melhor das hipóteses, teremos imunidade de grupo daqui a um ano, ano e meio. Ou seja, sendo um sinal positivo, não tem consequências práticas em 2021.

Ora se isto vai somar um problema, trazer às empresas cargas acrescidas de perda de receita, dificuldade de crescimento, de definir investimentos, vamos ter um 2021 que não será muito diferente do que foi 2020. É bom que olhemos esta realidade e nos adaptemos a ela, que nos deixemos de fantasias otimistas. Não quero ser pessimista porque reconheço que se houver um plano de vacinação um pouco melhor...

Podia haver mais eficácia, acelerar a vacinação?

Não me atrevo a criticar os especialistas, mas bom senso tenho. No arranque desta semana, estavam 74 mil pessoas vacinadas e tínhamos 72 mil vacinas em reserva. Há países com menos reservas e até tendo mais população. As empresas que fornecem as vacinas garantem-nas. Se há garantias de fornecimento e logística, porque é que o número é igual?

Podia vacinar-se mais pessoas já.

E vacinando mais pessoas, mais depressa teríamos resultados, mais rápido atingíamos a imunidade de grupo e daríamos esperança reforçada a empresas e pessoas. A confiança é motor da economia.

Mas isso é questão de gestão política ou é a regra europeia?

Há regras, mas dentro delas a Organização Mundial de Saúde tem dado, desde o início da pandemia, sinais errados.

E contraditórios.

Também. Sejamos ousados; arrisquemos um pouco. Já temos uma curva de aprendizagem, quer em Portugal, quer do que vemos nos países que vão à nossa frente no surto pandémico. Inglaterra está com metodologias diferentes, e uma campanha distinta, a Alemanha também. Não quero imiscuir-me num tema dos técnicos de saúde - já me chega acautelar a minha -, mas enquanto cidadão tenho de colocar-me estas questões. Porque é que uns fazem e nós não? Porque temos de ter tantas vacinas quanto as pessoas já inoculadas? Abrir daria à economia uma sinalização. Porque a quebra de procura, de consumo, é o grande problema das empresas: o consumo faz-se com confiança e a confiança vem de medidas concretas.

Teme que as empresas venham a precisar de apoios muito mais tempo do que previsto?

Quando falamos da economia portuguesa há que sublinhar que uns 98% são micro e pequenas empresas, com até dez trabalhadores. Esta é a matéria-prima com que trabalhamos. O nosso crescimento tem sido anémico, 1% ou 2%, não chega. Para retomarmos o que perdemos em 2020 vamos precisar de três ou quatro - e esperemos que tudo corra bem para recuperar esses valores. Temos de fazer um esforço acrescido e a União Europeia tem de gizar planos, metodologia e rapidez de resposta. A bazuca que todos esperamos como a salvação - sebastianistas que somos - só vai chegar à economia, na melhor das hipóteses, no final deste ano. Na quarta-feira, o primeiro-ministro recordava isso há aqui um processo de acordos entre Estados-membros, de acordos, uma morosidade que vai atrasar os fundos - e quando chegarem terão metodologias de acesso, formulários, etc. Nós precisamos de um empurrão, de uma atitude de estímulo coletiva, de corretas articulações entre público e privado para gizarmos investimentos reprodutivos e captarmos investimento direto estrangeiro, para darmos condições de estabilidade aos investidores. Estou a repetir o que todos repetimos, mas mais do que dizer, é preciso fazer. Diagnósticos estão feitos há muito. Fazer acontecer as realidades é que tarda.

A AHRESP avançou que metade dos restaurantes já fez despedimentos e 20% dizem que não conseguem manter os postos de trabalho até março. As medidas do governo para a preservação do emprego são suficientes?

Em março - e agora de novo - obrigámos as comunidades empresariais a fechar portas. Estamos a falar de empresas que vivem do dia-a-dia, do que vão fazendo em caixa, dos pequenos-almoços que servem, almoços, lanches, é chapa-ganha, chapa-gasta, entre salários, impostos, rendas, água, luz, consumíveis e custos de ter a porta aberta. Se tinham alguma almofada e capacidade de poupança, já a esgotaram, estão exauridos; esta tipologia de empresas está muito fragilizada. Sem ajudas rápidas - e não as tem havido porque estamos a correr atrás do prejuízo - elas terão grandes dificuldades. O grande objetivo destas medidas deve ser manter a capacidade instalada - do pequeno café à grande indústria.

É a prioridade?

Capacidade instalada e emprego são os grandes objetivos a proteger e temos de ser rápidos e eficientes, temos de antecipar e assim salvar as empresas. Porque as empresas fecharam na sexta e portanto têm receitas zero desde então. Segunda-feira hão de ter acesso às linhas, depois vêm as avaliações, os formulários, etc.; só para meados de fevereiro é que começam a receber algum apoio. E os ordenados, rendas, etc. têm de ser pagos. É preciso entender a realidade empresarial. Não é preciso ser empresário, mas convém ouvir quem sabe, quem conhece esta realidade, as associações dos diferentes setores, as pessoas que estão diariamente no terreno. Não podemos ajudar todos, mas mesmo sendo seletivos no quadro das possibilidades do quadro económico e das soluções do governo português para o que geramos de produto, temos de tentar antecipar, ter respostas rápidas e remover a burocracia.

Tem noção do desemprego de que podemos estar a falar daqui a uns meses?

Já teremos perdido neste momento, com a pandemia e seus efeitos, 200 mil empregos. Se nada for feito, receio que este número dobre.

Quase meio milhão de pessoas?

Gostaria que assim não fosse e tudo farei enquanto dirigente associativo para exigir do governo medidas a tempo para salvar o máximo de postos de trabalho, da mesma maneira que continuarei a solicitar a quem represento, às empresas, o esforço acrescido de manterem empregos como até agora têm feito. E como o próprio ministro da Economia reconheceu na última concertação social, em que assumiu que o desemprego não estava aos níveis que se receava.

Quanto tempo é que o tecido empresarial pode levar a recuperar desta crise?

Vai demorar... Há Estados-membros que estão a dar significativos apoios às empresas, a prepará-las melhor para a retoma que há de vir. Nós partiremos da quarta ou quinta linha e vamos precisar de dois ou três anos, com otimismo e fazendo tudo certo, com medidas de apoio rápidas e eficientes. O que me assusta é que a capacidade instalada das empresas saia prejudicada, que a experiência acumulada dos nossos colaboradores se vá perdendo e isso prejudique a retoma.

Quais são as prioridades para a presidência portuguesa da UE?

Desde logo, estes dois objetivos: resiliência e formação de recursos humanos, o acautelar de uma Europa social coesa e resiliente. Tendo nós responsabilidade a nível da Business Europe - junção das CIP europeias, cuja vice-presidência agora temos, o que nos dá responsabilidade acrescida nesta presidência europeia -, apresentámos um conjunto de propostas para uma Europa resiliente, social, verde (com a transição energética e a digital) e global, em que o mercado único tenha regras.

Há alguma lição que se tire deste tempo que vivemos?

Que devemos ter sempre planos de contingência. Tudo está bem até ao segundo em que tudo passa a estar mal. Até aos 58 anos, eu nunca tinha entrado num hospital e de um dia para outro passei lá dois anos. Temos de estar preparados para planos de contingência na vida, nas empresas, nos governos, nos países. E a enorme dependência das cadeias globais de fornecimento que de repente entendemos que tínhamos - e as consequentes fragilidades devem resultar em cautela, em diversificação de mercados e definição de estratégias para um modelo de desenvolvimento diferente, reindustrializando a Europa, caminhando para a formação dos nossos recursos humanos - porque esta nova economia exige requalificação. Esse deve ser um dos grandes combates. Olharmos para as oportunidades e para o mundo sem pôr em causa a globalização e seus virtuosos efeitos, mas com regras claras e cumpridas por todos sem exceção.

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