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Fitch. BCE só sobe juros em 2021 e faz novo quantitative easing já este ano

Mario Draghi, presidente do BCE. Fotografia: REUTERS/Kai Pfaffenbach
Mario Draghi, presidente do BCE. Fotografia: REUTERS/Kai Pfaffenbach

Fitch prevê que quantitative easing e compras de dívida sejam reativados no final de 2019. Taxas de juro do euro ficam em zero durante mais dois anos

A situação da economia europeia está a piorar a olhos vistos e o Banco Central Europeu (BCE) ver-se-á obrigado a prolongar por muito mais tempo as taxas de juro zero e terá de regressar às compras de ativos em larga escala, como dívida pública e privada, para tentar reanimar a conjuntura e fazer subir a inflação, defendeu ontem a Fitch. Isto é, o BCE terá de fazer um novo quantitative easing (QE).

Na conferência de imprensa que se seguiu à última reunião de taxas de juro, a 7 de março, Mario Draghi, presidente do BCE, fez saber que as taxas de juro diretoras, que estão em mínimos de sempre, devem “manter-se nos níveis atuais, pelo menos, até ao final de 2019 e, em qualquer caso, enquanto for necessário para assegurar a continuação da convergência sustentada da inflação” para os desejados 2% ou próximos no médio prazo.

Mas na altura, o banqueiro central de origem italiana disse mais: “Vários membros do conselho de governadores propuseram estender este calendário” (forward guidance) “até março do ano que vem”, mas dezembro deste ano acabou por ser o limite mais consensual para as taxas de juro mínimas atuais (0% no caso da taxa principal de refinanciamento e -0,4% no caso da taxa de depósito).

Agora a Fitch, no novo estudo sobre as perspetivas de crescimento globais, observa que “nos últimos meses, houve uma mudança assinalável no ambiente global da política monetária” por causa do enfraquecimento, em alguns casos “abrupto”, das economias, pelo que agora “parece ser pouco provável que o BCE aumente taxas de juro antes do final de 2020”.

Há três meses, a agência de rating esperava que o BCE subisse taxas em 0,5 pontos percentuais ao longo de 2020. Há três meses, a zona euro ia crescer 1,7 este ano, mas agora diz que não irá além de 1%.

Ou seja, para a empresa de notação financeira, Frankfurt, que tinha como limite manter estes juros “até ao final de 2019”, vai prologar esse quadro por mais um ano.

Isto no mesmo dia em que a Reserva Federal, o banco central dos Estados Unidos, confirmou que a taxa de juro diretora se manterá no intervalo dos 2,25% a 2,5%, sinalizando inclusive que é bem possível que este ano não suba mais os juros, só em 2020, por causa da perda de fôlego da maior economia do mundo.

Reativar as compras massivas de ativos

Mais. Segundo a Fitch, as condições económicas mais adversas vão levar o BCE a “reativar as suas compras líquidas de ativos em 2019”, o mesmo que dizer, vai ter de reativar o QE, comprando mais dívida pública e privada.

Isto é, com o fim, em dezembro último, do gigantesco programa de compras (sobretudo dívida pública), o cenário era este: o balanço acumulado do BCE por conta deste QE não iria aumentar mais, mas estabilizaria em redor dos 2,6 biliões de euros (milhões de milhões), valor que, diz Frankfurt” é para “manter” por um “período longo” e já depois de começar a subir taxas de juro”.

O que a Fitch vem agora dizer é que não vai ser assim. As taxas de juro sobem um ano mais tarde (em 2021, na melhor das hipóteses) e o BCE terá de reativar um novo programa de compras, prolongando por muito mais tempo (além de 2021) o ambiente de juros mínimos.

Se o BCE adotar esta “nova flexibilização” da sua política, “como esperamos agora, isso deve ajudar a apoiar o crescimento do crédito na Alemanha e em França e impulsionar os setores da construção”, ilustra a agência.

Entretanto, a 7 de março, o BCE surpreendeu os mercados com o anúncio de “uma nova série de operações de refinanciamento de prazo alargado direcionadas trimestrais (ORPA direcionadas III ou TLTRO III na sigla em inglês), que terá início em setembro de 2019 e terminará em março de 2021, tendo cada operação um prazo de dois anos”.

No fundo, mais dinheiro muito barato para os bancos comerciais emprestarem à economia real (empresas e alguns particulares). “As novas operações ajudarão a preservar condições de financiamento bancário favoráveis”, considerou Draghi.

Só que os valores envolvidos nestas TLTRO serão pouco significativos quando comparados com o poder de fogo do QE. Isto é, não fazem aumentar o bolo das compras líquidas de ativos, “nem serão vistos como suficientes” para elevar a inflação até à meta desejada de 2% e reanimar a economia.

Por isso, a Fitch prevê: “Esperamos que o BCE decida que serão necessárias novas medidas de estímulo para apoiar a recuperação da inflação a médio prazo”. Vários altos responsáveis “disseram em inúmeras ocasiões que todas as ferramentas estão disponíveis pelo que acreditamos que o próximo passo lógico é anunciar o reinício das compras líquidas de ativos mais no final de 2019”, remata a agência.

Ao abrigo do tal programa de QE que vigorou entre março de 2015 e dezembro de 2018, Portugal conseguiu que o BCE comprasse aos bancos comerciais mais de 37 mil milhões de euros em títulos de dívida pública, ativos que ainda mantém no seu balanço.

Foi fulcral para fazer baixar as taxas de juro nacionais, hoje em mínimos de sempre. Uma ajuda preciosa para aliviar a fatura dos juros nas contas públicas e, assim, acelerar a redução do défice.

Fonte: BCE

Fonte: BCE

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