Programa de Estabilidade

FMI arrasa com previsões orçamentais e económicas do governo

Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional. Fotografia: REUTERS/Yuri Gripas
Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional. Fotografia: REUTERS/Yuri Gripas

FMI, dirigido por Lagarde, vê défice a subir até 2,6%, não vê ajustamento estrutural e diz que economia perde gás até 2021.

O cenário macroeconómico e orçamental do governo até 2021 é totalmente divergente do que foi avançado na terça-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

O défice orçamental sobe em vez de descer e nem sequer se transforma num excedente em 2020 e 2021, como defende o governo no Programa de Estabilidade (PE).

De acordo com as projeções do Panorama Económico Mundial (World Economic Outlook), o défice deve baixar para 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2017 (o governo diz 1,5%), mas a partir daqui vai sempre subir, chegando a 2,6% em 2022.

O FMI faz estas contas assumindo um cenário de políticas invariantes a partir de 2017, mas no PE o governo também fornece esse quadro e o andamento das contas públicas é bastante mais em linha com o Pacto de Estabilidade europeu, chegando a um excedente de 0,5% em 2021 (o FMI diz défice de 2,4%).

O ajustamento estrutural também não acontece, calcula o Fundo dirigido por Christine Lagarde. No PE, que será hoje debatido no Parlamento e depois enviado para a Comissão Europeia, o governo promete uma redução do saldo estrutural; o FMI diz que este vai aumentar sempre, todos os anos, até 2022.

Sem redução dos défices, é natural que para a instituição de Washington a dívida desça muito mais devagar do que diz Lisboa. Dos cerca de 130% do PIB em que está agora (final de 2016), o rácio alivia para 123,7% em 2021. O governo diz 109,4%.

Cenário económico em xeque também

No crescimento real da economia acontece o mesmo. Embora o FMI tenha revisto este indicador em alta significativa face a fevereiro (números da missão de avaliação pós-troika), a verdade é que a trajetória de retoma da economia é muito mais pobre. A economia perde gás e estará a crescer menos de 1% em 2021, ano em que o governo espera mais do dobro do ritmo (2,2%).

O crescimento da economia este ano foi revisto em alta de 1,3% em fevereiro para 1,7% agora, pelo Fundo, mas este maior impulso na riqueza interna não se vai traduzir num mercado de trabalho muito melhor. O desemprego fica igual, nos 10,6% da população ativa,

O mesmo sucede com 2018: a economia portuguesa passa a crescer mais, cerca de 1,5% (antes era 1,2% segundo a missão no âmbito da troika), mas ainda assim o desemprego não mexe, mantendo-se acima dos 10% (10,1%).

Isto contraria a visão do governo no seu PE, no qual a respetiva taxa de desemprego desce mais, para 9,9% este ano e chega a 9,3% no próximo.

O FMI também contraria o otimismo do governo no reequilíbrio externo e no aumento de potencial. Ao passo que o governo de António Costa projeta um saldo positivo da balança corrente de 0,2% do PIB este ano e com tendência para aumentar até 2021 (0,7%), o FMI vê o país a mergulhar num novo défice externo por ser pouco competitivo, depender muito das importações e de não exportar em valor suficiente.

O Fundo estima que o excedente corrente de 0,8% de 2016 se transforme em défice de 0,3% este ano e piore até 0,4% no ano que vem.

“A produção de riqueza permanece significativamente abaixo do potencial em França, Itália, Portugal, Espanha e, em especial, na Grécia”, constata o FMI no estudo que abarca quase todos os países do globo.

E médio prazo é arriscado, diz CFP

O cenário macroeconómico do governo no Programa de Estabilidade é “provável” de vir a verificar-se em 2017, mas no período de 2018 a 2021 parece ser demasiado arriscado, tendo alguma falta de fundamentação, alerta o Conselho das Finanças Públicas (CFP).

“O conhecimento incompleto das medidas que fundamentam o redirecionamento do investimento e a moderação do consumo privado face ao aumento do rendimento disponível” sugerem um risco para o crescimento, diz o CFP. E há dúvidas grandes quanto à força das exportações.

Europa e economia mundial ganham alguma força

A economia mundial deve crescer 3,5% em termos reais, em 2017, uma décima melhor do que dizia o FMI há três meses. Os Estados Unidos ficam na mesma (2,3%), mas a zona euro melhora um pouco (uma décima também), devendo expandir-se cerca de 1,7% este ano.

Segundo as novas projeções do FMI, a melhoria na conjuntura europeia face ao que se pensava em janeiro deve-se às perspetivas mais favoráveis nas grandes economias. Todas ganham uma décima de crescimento nesta atualização (Alemanha cresce 1,6%, França avança 1,4% e Itália fica com 0,8%), mas o maior bónus vai para Espanha, o maior parceiro económico de Portugal, cujo crescimento tem uma revisão em alta de três décimas, para 2,6%.

O Japão, outra das grandes economias mundial, deve crescer 1,2% (0,4 décimas melhor). O Reino Unido parece estar a aguentar o impacto do Brexit, com uma expansão esperada de 2% este ano (mais meio ponto face a janeiro) e até acelera face aos 1,8% de 2016, diz o FMI.

Nas chamadas economias emergentes, a Rússia ganha três décimas face a janeiro (agora a projeção aponta para 1,4% de crescimento em 2017), a China avança 6,6% (mais uma décima). Já o Brasil, país também muito importante para Portugal, fica na mesma e quase estagna: crescimento de 0,2%, diz o Fundo.

“A economia global tem vindo ganhar força desde meados do ano passado, o que nos permite reafirmar nossas previsões anteriores que aponta para um maior crescimento mundial neste ano e no próximo”, disse Maurice Obstfeld, o economista-chefe do FMI, na apresentação dos resultados.

Assim, a economia mundial deve crescer 3,5% em 2017 e 3,6% em 2018. Esta “aceleração será transversal entre economias avançadas, emergentes e menos avançadas”, suportada por maiores níveis de produção e de comércio.

Segundo Obstfeld, a revisão em alta de 2017 “vem principalmente das boas notícias para Europa e Ásia, principalmente China e Japão”.

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