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FMI. Banca portuguesa está cada vez mais amarrada à dívida pública

Christine Lagarde, diretora-geral do FMI. Fotografia:  EPA/LAURENT GILLIERON
Christine Lagarde, diretora-geral do FMI. Fotografia: EPA/LAURENT GILLIERON

"As vulnerabilidades continuam a aumentar" no sistema financeiro global, sobretudo porque os juros continuam demasiado baixos, considera o FMI.

A banca portuguesa está cada vez mais amarrada à dívida pública e apresenta sinais de grande vulnerabilidade em caso de um novo choque ou ajustamento no mercado das obrigações soberanas, avisa o Fundo Monetário Internacional (FMI), no relatório sobre a estabilidade financeira global, edição da primavera. Pior só mesmo Itália.

O FMI indica neste novo estudo que cerca de 9% dos ativos da banca portuguesa são obrigações soberanas nacionais, o que significa que “aumentou a interligação” entre o sistema bancário e o soberano. Este foi um dos problemas que agravou a recessão e fez afundar o país na última crise da dívida (2008).

Em Itália, o grau de dependência e de exposição ao soberano é ainda maior, já vai a caminho de 11% do total de ativos da banca sedeada no país.

Entre 2013 e 2015, a banca portuguesa conseguiu não aumentar a sua exposição à dívida pública (ver gráfico em baixo), mas desde então que a tendência tem sido crescente, para mais com os títulos a valorizarem bastante (taxa de juro muito baixa significa que o preço da obrigação é muito elevado, logo é um ativo apetecível para ter).

O problema, alerta o FMI, é que pode acontecer um ajustamento de mercado, como um novo aumento das taxas de juro, e aí os bancos terão de incorporar imediatamente essas perdas nos seus balanços. Daí a propagarem-se perdas à economia será um ápice.

“Existe o risco desta pressão sobre o setor financeiro ser transmitida, uma vez mais, para as empresas e famílias, afetando o crescimento económico”, avisa a instituição liderada por Christine Lagarde.

Fonte: FMI

Fonte: FMI

Da mesma forma, o FMI mostra noutro gráfico (ver em baixo) que a esmagadora maioria das obrigações do tesouro detidas pelos bancos portugueses está classificada com um rating de BBB ou inferior. É natural, a dívida portuguesa está agora nesse patamar de BBB.

Problema: um rating BBB está apenas dois níveis acima de lixo, se houver problemas a sério, o ativo volta a tornar-se tóxico para os bancos e para a economia.

A exposição a ativos de calibre BBB ou inferior até é maior em Portugal do que em Itália.

Portanto, resumindo, o chamado círculo vicioso da dívida está pronto a acontecer novamente, arrastando o país para uma nova crise ou recessão.

Se as obrigações, por qualquer, razão desvalorizam, os bancos tentam vender esses ativos para se livrarem de prejuízos e a dívida pública perde ainda mais valor.

Os juros da dívida aumentam, fazendo subir o défice, o que pode exigir novos cortes de despesa e aumentos de impostos.

Fonte: FMI

Fonte: FMI

“O vínculo entre os setores soberano e financeiro na zona euro” é um dos problemas que subsistem no sistema financeiro internacional, indica o FMI.

“Os desafios orçamentais em Itália reacenderam as preocupações sobre esse vínculo entre setores soberano e financeiro”, começa por dizer a entidade.

Embora os rácios de capital dos bancos “esteja agora mais altos na zona euro”, “possíveis perdas com empréstimos improdutivos [malparado e outros, os chamados non performing loans ou NPL], e quebras no valor dos títulos públicos decorrentes de uma marcação a mercado [mark-to-market, um tipo de correção] podem gerar um impacto significativo no capital de alguns bancos”.

“As companhias de seguros também podem ser envolvidas nesse vínculo já que possuem um volume considerável de títulos de soberanos, bancos e empresas”, acrescenta a entidade.

Assim, conclui o FMI, “existe o risco desta pressão sobre o setor financeiro ser transmitida, uma vez mais, para as empresas e famílias, afetando o crescimento económico”.

(atualizado às 14h25 com gráficos)

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