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FMI. Christine Lagarde elogia cluster Autoeuropa no fórum de Davos

Christine Lagarde. Fotografia: REUTERS/Denis Balibouse
Christine Lagarde. Fotografia: REUTERS/Denis Balibouse

Lagarde preocupada com desigualdade e pobreza dos jovens. "A boa notícia é que alguns países já estão a fazer progressos": Portugal e Alemanha.

Numa altura em que a tensão negocial entre trabalhadores e administração continua na Volkswagen em Palmela, na fábrica da Autoeuropa, surge um contributo, no mínimo surpreendente, para o desenrolar da situação.

Esta quarta-feira, em Davos, na Suíça, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde deverá fazer um elogio explícito a Portugal perante a plateia do Fórum Económico Mundial, que decorre de 23 a 26 de janeiro. Pode ver a intervenção aqui.

A ex-ministra das Finanças de França, atualmente representante de um dos (ainda) credores principais da República, vai referir-se aos “progressos” realizados no desenho de medidas que em Portugal facilitam a criação do primeiro emprego e apresentar o cluster automóvel de Palmela, centrado na fábrica de carros da Autoeuropa, como um exemplo de sucesso em termos de aprendizagem técnica por parte dos mais jovens.

Há mais parceiros envolvidos, todos alemães e ligados a este grande fabricante, um dos maiores exportadores da economia portuguesa. Siemens, Bosch e Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã.

No entender da economista francesa, estas políticas “reduzem a desigualdade e a pobreza entre gerações”. Este ponto é justamente o tema da intervenção que Lagarde fará em Davos na intervenção intitulada “Resolver o fosso [gap] económico entre gerações”, agendada para as 9h (hora de Lisboa) desta quarta-feira.

À mesma hora, no seu blog oficial, o FMI publicará um artigo de opinião da diretora-geral chamado “Um sonho adiado: desigualdade e pobreza entre gerações na Europa”.

Esse é ilustrado à cabeça com uma fotografia de um jovem a receber formação técnica de um instrutor mais velho, em Palmela. Tem esta legenda: “A young apprentice learns a trade in Palmela, Portugal: the right policies can help reduce inequality and poverty across generations in Europe”.

Em português, “um jovem formando aprende um ofício em Palmela, Portugal: as políticas certas podem ajudar a reduzir a desigualdade e a pobreza entre gerações na Europa”.

Formação profissional de jovens no parque industrial Autoeuropa. Fonte: FMI

Formação profissional de jovens no parque industrial Autoeuropa. Fonte: FMI

Segundo apurou o Dinheiro Vivo, a situação que ilustra o artigo de Lagarde decorre na ATEC – Academia de Formação, uma associação de formação profissional localizada no Parque Industrial da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela.

A ATEC é “um projeto idealizado e promovido pela Volkswagen Autoeuropa, Siemens, Bosch e Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã“, diz a instituição no seu site da internet.

Esta foi fundada em dezembro de 2003 “como uma associação de formação para a indústria”. “Nasceu da fusão das estruturas de formação em que participava a Volkswagen Autoeuropa (Formauto) e a Siemens (ANFEI – Associação Nacional de Formação Eletrónica Industrial), assumindo um papel próprio e autónomo que soube conjugar todo o know-how destas entidades.”

Para Lagarde, a imagem dos aprendizes de metalurgia aplicada a uma indústria de alta tecnologia, como a automóvel, valerá mil palavras.

Em Davos, a apresentação da chefe do FMI “deve ter uma referência a Portugal”, acrescentou fonte oficial da instituição questionada pelo Dinheiro Vivo.

A análise de Lagarde

No artigo, publicado no blog do Fundo, que será a matéria prima da intervenção que fará em Davos, Lagarde começa por citar o poeta Langston Hughes. “O que acontece a um sonho adiado?”

O staff do FMI publica à mesma hora um estudo mais aprofundado sobre “o impacto do desemprego e as consequências a longo prazo de uma proteção social inadequada para os jovens”.

“É uma questão relevante para milhões em todo o mundo, especialmente os jovens, por causa da desigualdade e da pobreza”, responde a economista no artigo.

Fosso entre novos e mais velhos

Embora reconheça que o problema da desigualdade até não tão “grande” na Europa quando comparado com outras regiões do globo, parece que estudos mais recentes dão conta de “uma tendência preocupante”. “Na Europa, o fosso entre gerações aumentou de forma significativa”, “as pessoas com idade para trabalhar, especialmente os jovens, estão a ficar para trás”.

O FMI tem a sua tese formada há vários anos, pelo menos no que respeita a Portugal e outros países que considerada menos reformistas. As leis laborais tendem a proteger os trabalhadores mais velhos, reduzindo as oportunidades dos mais novos no mercado de trabalho, tem defendido a instituição

Assim é, argumenta o Fundo, pois os jovens tendem a ficar mais tempo no desemprego e isso cria “cicatrizes”, dificuldades cada vez maiores quando tentam regressar ao mercado. As qualificações das pessoas podem ficar obsoletas face ao avanço tecnológico, o desencorajamento aumenta, o desemprego acaba por ser um estigma.

O prolongamento desta situação de exclusão faz aumentar a desigualdade, mas também “empobrece” estas pessoas, que assim ficam cada vez mais expostas a futuros choques financeiros, avisa Lagarde.

Uma solução, defende, passa por “reduzir as contribuições [das empresas] para a segurança social e os impostos sobre os trabalhadores com salários baixos”. “Para ajudar a melhorar as perspetivas de emprego no futuro, os governos podem investir em educação e formação, o que pode ajudar os jovens a reduzir o défice de qualificações”.

Duas “boas notícias”: Alemanha e Portugal

“A boa notícia é que alguns países da Europa já estão a fazer progressos”, refere.

“Na Alemanha, os estágios de longa duração e os programas de formação ajudaram os jovens a manter-se no local de trabalho. As regras de emprego flexíveis permitiram que os jovens mantenham os seus empregos durante e após a crise. A juventude da Alemanha agora tem o menor nível de desemprego da União Europeia.”

“Outro bom exemplo é o de Portugal, que isentou o pagamento de contribuições para a segurança social durante três anos no caso da contratação para um primeiro emprego. O desemprego jovem ainda é elevado, mas esta medida vai na direção certa”, elogia Christine Lagarde.

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