FMI diz que foi "apanhado de surpresa" pelos novos confinamentos na Europa

Fundo dirigido por Kristalina Georgieva diz que, mesmo nos países onde a vacinação está a correr bem, não é garantido que não surjam novas complicações nas economias. Isto porque a vacinação está a correr de forma desigual no mundo. Pobres estão a ficar ainda mais para trás e em perigo.

A imposição de "novos confinamentos" por causa de uma nova vaga da pandemia em vários países europeus, como é o caso de Portugal, aliás, apanhou o Fundo Monetário Internacional (FMI) de "surpresa" e terá limitado revisões em alta mais generosas do crescimento de várias economias. Há três meses, o tom do FMI era mais confiante do que na atualização de previsões divulgada esta terça-feira.

De acordo com o outlook intercalar (que não traz dados renovados sobre Portugal, apenas para uma seleção de economias de maior dimensão de várias partes do mundo), Espanha, que é o maior parceiro económico de Portugal sofreu um corte na previsão de crescimento deste ano (face ao outlook anterior, de abril) de cerca de duas décimas, devendo crescer, ainda assim, 6,2%.

"Os novos confinamentos na Europa levaram a surpresas negativas", admite o FMI neste novo estudo. Embora haja indicadores que apontam para uma recuperação que vai além dos setores industriais (já há serviços que mostram alguma dinâmica), "sobretudo nas economias em que as infeções estão mais bem controladas", as novas variantes do vírus estão a baralhar o cenário, outra vez, agravando os riscos negativos a prazo.

"A retoma estável não está garantida em nenhum lugar do mundo"

"A recuperação estável não está garantida em nenhum lugar do mundo enquanto existirem segmentos da população que continuem suscetíveis ao vírus e às suas mutações", avisa a instituição sediada em Washington.

"A recuperação foi severamente prejudicada em países que experimentaram novas vagas da pandemia, especialmente a Índia. O Reino Unido teve que adiar a etapa final da reabertura da economia por causa da disseminação da variante delta, ainda que o lançamento da vacina tenha ajudado a reduzir as hospitalizações. A província chinesa de Guangdong impôs novas restrições de mobilidade em maio, na sequência de um surto que surgiu após meses com números mínimos em termos de novas infeções. Do mesmo modo, a Austrália reintroduziu bloqueios direcionados em junho", lê-se no novo estudo.

Na Europa, sabemos o que aconteceu. Portugal liderou com uma quarta vaga muito agressiva de novas infeções (que começou no final de maio e só agora a curva parece estar a estabilizar em forma de planalto) e o País acabou por ser censurado e muito penalizado logo em junho, no início do verão, por restrições às viagens de turismo para Portugal decretadas por países como Reino Unido, Alemanha e outros.

Foi um golpe duro e esta situação comprometeu seriamente a retoma esperada para o verão, designadamente no turismo, setor em relação ao qual Portugal é muito dependente.

Uma linha que divide o mundo no acesso às vacinas

Ainda segundo o FMI, as duas maiores economias da União Europeia, Alemanha e França, ficam na mesma, com projeções de crescimento de 3,6% e 5,8%, respetivamente. Itália recebe uma boa promoção, devendo crescer mais 0,7 pontos percentuais, isto é, 4,9%.

Mas o tom do FMI é mais sombrio porque pairam muitas dúvidas sobre a luta contra a pandemia e a forma como as economias estão a responder.

"As perspetivas económicas divergiram ainda mais entre os países desde a previsão de abril de 2021 do World Economic Outlook (WEO)", começa por dizer o FMI.

"O acesso às vacinas emergiu como a principal linha divisória, levando a recuperação global a dividir-se em dois blocos: de um lado os que podem esperar uma maior normalização da atividade ainda este ano (quase todas as economias avançadas), do outro, os países que ainda enfrentarão ressurgimento de infeções e aumentos da mortalidade por covid-19", acrescenta o Fundo.

Um mundo rico e vacinado, outro pobre e pouco inoculado

E fica o aviso. "A recuperação, no entanto, não está garantida mesmo nos países onde as infeções são atualmente muito baixas, caso o vírus continue a circular noutros lugares." É o caso dos países pobres. Neste novo panorama (outlook) económico, o FMI insiste muito no agravamento do fosso das desigualdades, sobretudo no que toca à vacinação e rapidez para chegar à cura da pandemia.

Os ricos estão a atalhar caminho, apesar das novas vagas, estão a progredir na vacinação e isso acaba por ser uma luz ao fundo do túnel. O mesmo não se pode dizer dos países mais pobres. FMI refere explicitamente os casos de falta de vacinas que assolam países como Brasil, Índia e Indonésia.

A projeção de crescimento da economia global ficou na mesma face a abril, nos 6% em 2021. Mas isto encerra a referida realidade dual. "As perspetivas para os mercados emergentes e economias em desenvolvimento foram reduzidas em 2021, especialmente nos países emergentes da Ásia", diz o FMI.

"As perspetivas de crescimento na Índia foram reduzidas após a severa segunda vaga de covid de março a maio e espera-se uma lenta recuperação da confiança na sequência desse revés."

Face a abril, mesmo com as previsões de Alemanha e França inalteradas, o crescimento zona euro melhora duas décimas, para 4,6% este ano. A maior economia do mundo, os Estados Unidos, maior ficará. O FMI reviu o seu crescimento em forte alta (mais seis décimas) pelo que a expansão dos norte-americanos pode chegar mesmo a uns expressivos 7% em 2021.

A China levou um corte de três décimas na previsão deste ano (que agora rondará 8,1% de crescimento em 2021). A Índia, outro gigante global, sofre um tombo de 3 pontos percentuais na previsão de 2021, devendo crescer cerca de 9,5%.

(atualizado 15h30)

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