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FMI mais otimista com Portugal e o mundo em geral, mas só a curto prazo

Christine Lagarde. Foto: REUTERS/Leonhard Foeger
Christine Lagarde. Foto: REUTERS/Leonhard Foeger

Economista-chefe admite que “apesar das boas notícias de curto prazo, as perspetivas de longo prazo são mais preocupantes”. Portugal revisto em alta.

Portugal deve crescer, em termos reais 2,4% este ano, calcula o Fundo Monetário Internacional (FMI), mais do que prevê o governo (2,3%). A instituição liderada por Christine Lagarde torna-se assim a mais otimista quanto à retoma de 2018. Em março, o Banco de Portugal disse 2,3%; o Conselho das Finanças Públicas estimou 2,2%; em fevereiro, a Comissão Europeia também apontou para 2,2%.

O desemprego até poderá ficar muito mais baixo do que diz o Programa de Estabilidade português, revelado na sexta-feira: nas novas projeções da primavera, o FMI vê 7,3% da população ativa sem trabalho, em 2018; o executivo de António Costa aponta para 7,6%.

As contas atualizadas sobre o défice público e a dívida só serão conhecidas na quarta-feira através da publicação Monitor Orçamental, que é supervisionada por Vítor Gaspar, o antigo ministro das Finanças português (PSD-CDS), hoje um dos diretores do FMI.

O Panorama Económico Mundial (World Economic Outlook), revelado esta terça-feira, indica ainda que o ambiente geral mundial e na zona euro melhorou face há três meses. A nível global o crescimento mantém-se nos 3,9%, resultado de uma melhoria “substancial” nas condições da conjuntura.

No caso de Portugal, o cenário do FMI — que ainda é um credor externo importante (tem a haver 4,6 mil milhões de euros) — é claramente mais otimista.

Em fevereiro último, a missão de avaliação achava que o país poderia crescer cerca de 2,2% este ano (agora subiu duas décimas para os tais 2,4%), que a intensidade do desemprego ficaria em 7,8% (agora diz 7,6%) e que o défice público rondaria 1,1% do produto interno bruto (PIB). O governo quer 0,7%.

De referir também que, calcula o FMI, Espanha (maior parceiro comercial de Portugal) pode crescer 2,8% este ano, mais quatro décimas do que se previa em janeiro.

A Alemanha, outra economia muito próxima e a maior da zona euro, pode aumentar 2,5% em 2018 (revisão em alta de duas décimas face há três meses).

França, o segundo maior mercado do euro, também ganha duas décimas, aumentando o PIB em 2,1%.

O mundo está mais favorável, por enquanto

“Há três meses, atualizamos substancialmente a nossa projeção de crescimento global para este ano e para o próximo, para 3,9% em ambos os anos”, começou por referir Maurice Obstfeld, o economista-chefe do FMI, que é dirigido pela francesa Christine Lagarde.

“Esta previsão é confirmada pelo forte desempenho da zona euro, do Japão, da China e dos Estados Unidos, que cresceram acima das expetativas, no ano passado. Também projetamos melhorias de curto prazo noutros mercados emergentes e em economias em desenvolvimento, incluindo alguma recuperação nos exportadores de matérias primas”, acrescentou Obstfeld na apresentação do seu outlook, em Washington.

No que a Portugal diz respeito, alguns casos relevantes. A China, investidor e parceiro comercial de referência, mantém uma expansão do PIB de 6,6% (igual a janeiro). O Brasil, outro parceiro importante da economia nacional, ganha força: ia crescer 1,9%, mas afinal pode avançar 2,3% em 2018, diz a atualização do Fundo. O Brasil registou uma recessão recente, em 2015 e 2016, com o PIB a recuar mais de 3% em ambos os anos.

Obstfeld observa ainda que “o que está a impulsionar a recuperação da economia mundial é aceleração do investimento e, principalmente, do comércio”.

Portugal, que depende crucialmente das exportações e do investimento estrangeiro para progredir, parece estar a beneficiar deste contexto externo mais favorável. No Programa de Estabilidade, o governo português conta com avanços anuais (em 2018) acima de 6% neste dois agregados da procura.

Sombras no longo prazo

Mas há problemas. Segundo o FMI, este bom ambiente geral está a sob ameaça. Pode ser fugaz.

O economista-chefe assegura que “apesar das boas notícias de curto prazo, as perspetivas de longo prazo são mais preocupantes”.

“As economias avançadas – que enfrentam o envelhecimento das populações, as taxas decrescentes de participação na força de trabalho e o crescimento baixo da produtividade – provavelmente não recuperarão as taxas de crescimento per capita de que desfrutavam antes da crise financeira global”, começa por dizer o responsável.

Além disso, “muitos exportadores de matérias primas não terão tanta sorte, apesar de algumas melhorias nas perspetivas para os preços dessas mercadorias”.

E depois há os Estados Unidos

Os governos precisam de “dar força ao crescimento e distribuir estes ganhos de forma mais ampla, reforçando as oportunidades económicas através do investimento nas pessoas e aumenta a sensação de segurança dos trabalhadores diante de mudanças tecnológicas iminentes que podem transformar radicalmente a natureza do trabalho”.

No entanto, “as lutas comerciais distraem-nos dessa agenda vital, em vez de a avançar”.

“A intensificação das tensões comerciais começou no início de março com o anúncio dos Estados Unidos da intenção em cobrar tarifas sobre o aço e o alumínio por razões de segurança nacional. Isto alimentou várias negociações bilaterais destinadas a reduzir os défices comerciais dos EUA com parceiros comerciais individuais”. Mas para Maurice Obstfeld estas práticas de pouco vão servir.

“As recentes medidas orçamentais dos EUA aumentarão o défice corrente” do país, que é a maior economia do mundo. Vão levar a mais endividamento, basicamente. Até lá, os EUA vão crescer mais, claro. A previsão do FMI é agora revista em alta para 2018 e 2019, com o gigante a crescer 2,9% e 2,7%, respetivamente,

E bem acima do ritmo esperado para a zona euro, que pode avançar 2,4% este ano, abrandando para 2% no ano que vem.

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