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FMI. Portugal preocupa, mas malparado de Itália é 18 vezes maior

Christine Lagarde, diretora-geral do FMI. Foto: REUTERS/Mariana Bazo
Christine Lagarde, diretora-geral do FMI. Foto: REUTERS/Mariana Bazo

FMI fez soar alarmes por causa dos dois países. Crédito malparado em Portugal vale 20 mil milhões de euros, mas em Itália é 360 mil milhões

O sistema bancário europeu, “em particular a banca italiana e portuguesa”, representa um risco global que se tornou “mais saliente” nos últimos tempos, assinala o Fundo Monetário Internacional, na atualização de verão ao panorama (outlook) económico mundial, divulgada ontem em Washington. O aviso terá a ver com os níveis de malparado.

A referência a Itália não surpreende, dada a grande dimensão da banca do país; já a menção a Portugal é inédita neste tipo de atualização ao outlook. E surpreende, tendo em conta o tamanho do sector doméstico. Da parte do FMI não houve qualquer referência à situação da banca alemã, por exemplo, que tem suscitado muitas dúvidas por causa da saúde do Deutsche Bank, um dos maiores bancos do mundo.

Claro que a análise do FMI é feita na perspetiva de que os bancos estão todos interligados e que há riscos de contágio além fronteiras, inclusive ao nível da confiança no sistema. Adicionalmente, os dois países aparecem no topo europeu em termos de incidência do malparado: cerca de 18% do crédito total no caso de Itália; 16% no caso português.

Mas a diferença dos volumes envolvidos é, obviamente, abissal. Segundo o Banco de Portugal, o valor do crédito em incumprimento ascendia, em abril, a mais de 20,1 mil milhões de euros, sendo que dois terços deste atraso vem das empresas, que não pagam a horas aos bancos. Em Itália, o valor total em incumprimento é 18 vezes maior: 360 mil milhões de euros.

Claro que em Portugal não é de negligenciar o facto de o rácio de malparado (e o volume de empréstimos sem cobrança há mais de três meses) continuar a aumentar paulatinamente. Assim é desde 2007. Em abril, o peso do malparado das empresas no crédito concedido subiu para 16,4% do crédito total (era 15% no final de 2014), cerca de 13,5 mil milhões de euros.

“Riscos mais salientes”

Nos últimos meses, “outros riscos tornaram-se mais salientes”, diz o FMI na análise aos riscos para o outlook. “O choque da Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia] ocorre enquanto há heranças não resolvidas no sistema bancário europeu, em particular nos bancos italianos e portugueses”, como identificado no Relatório de Estabilidade Financeira, em abril.

O FMI estará a referir-se aos níveis demasiado elevados de crédito em incumprimento, sobretudo no segmento empresarial.

O Dinheiro Vivo perguntou ao FMI a que “heranças” concretas se está a referir no caso português, se haveria novidades, mas não obteve resposta.

No entanto, o problema do malparado mereceu, também em abril, uma referência explícita, ao mais alto nível, do conselho executivo liderado por Christine Lagarde.

Avisos contundentes em abril

Na conclusão da terceira avaliação pós-programa a Portugal, a administração do Fundo “observou que, embora o sistema bancário de Portugal tenha feito progressos, são necessários esforços suplementares para reforçar os balanços dos bancos”. Os diretores “encorajaram as autoridades a reforçar medidas para melhorar a rentabilidade dos bancos, a qualidade dos ativos e o governo” das instituições.

Referiram inclusive que “manter a confiança no setor financeiro exigirá vigilância, uma acumulação de reservas e uma maior transparência no que diz respeito às operações do sector financeiro”.

O FMI “recomendou uma estratégia mais abrangente para lidar com empréstimos em incumprimento juntamente com uma abordagem ambiciosa para resolver a dívida das empresas, observando que o excesso de dívida empresarial está a reter o potencial de crescimento da economia”.

De facto, apesar do programa da troika que tinha uma linha para recapitalizar bancos no valor de 12 mil milhões de euros e de haver medidas para sanear o sector, parece que tal não foi suficiente. O problema terá sido agravado pelas perspetivas muito modestas de crescimento e pelos sucessivos acontecimentos desfavoráveis na economia externa, incluindo nos stresses nos mercados.

A instituição avisa agora que “a turbulência financeira de mercado e o aumento da aversão global ao risco pode ter repercussões macroeconómicas graves, nomeadamente por via da intensificação de stresses bancários, especialmente nas economias vulneráveis.”

Nevoeiro denso

O FMI repara que o problema Brexit “ainda se está a desenrolar” e que há uma probabilidade assinalável de o cenário de base, agora mais desfavorável, vir a piorar.

A crise da banca italiana tem marcado os últimos meses, com as autoridades europeias a tentarem arranjar forma de resolver a situação e de conter o impacto nas contas públicas. Em Portugal, depois do colapso do Banif, surgiram mais dois dossiers para resolver. A capitalização da CGD e o impasse na venda do Novo Banco (NB).

Anteontem, o governo disse mesmo que se o NB não for vendido até agosto de 2017 avançará para a “liquidação de forma ordenada” do banco.

Um cenário possível, mas que segundo as regras vigentes, não é inevitável. O NB deveria ser alienado até agosto deste ano, mas o governo pediu mais um ano. Pode muito bem fazê-lo de novo em 2017, atirando o fecho do dossiê para 2018.

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