Fortunato Frederico: “Sempre fui apologista de mais uma hora de trabalho, no mínimo”

Fortunato Frederico
Fortunato Frederico

Aos 14 anos varria o chão de uma fábrica de calçado e sonhava ter a sua um dia. Hoje, aos 69, pode orgulhar-se da Kyaia, com cinco fábricas, a rede multimarca Foreva, mais de 80 lojas e mais de 600 empregados. E, é claro, de ser dono da oitava marca de sapatos mais vendida no mundo, um nome que 80% das mulheres conhecem: Fly London. Em entrevista à Notícias Magazine, Fortunato Frederico explica como se constrói um negócio de sucesso.

Começou muito novo numa fábrica, mas isso era normal à época. Ainda há miúdos nas fábricas ou a trabalhar em casa?

Isso acabou há meia dúzia de anos. Mas hoje… ainda há funcionários que me pedem para os miúdos, com 16 anos, virem para cá um mês, nas férias, para ganhar algum e para trabalhar. E nós temos todo o gosto. Se se usar trabalho infantil para explorar, para ganhar dinheiro, é uma coisa. Se se empregarem pessoas com 14, 15 anos, para que tenham uma ocupação nos tempos livres, quando os pais não os podem acompanhar, acho que é de uma utilidade incrível. Um jovem dessa idade, quando não tem para onde ir, fica à mercê da rua. É muito mais grave a sociedade não lhe dar a oportunidade de ele ir nas férias para uma fábrica. Logicamente que o trabalho infantil é uma coisa condenável, mas numa aldeia em que uma família com seis, sete filhos, sem televisão, se à noite estiverem todos à volta da lareira a fazer um trabalho útil para a sociedade, não é crime nenhum. Não é politicamente correcto dizer isto, mas digo-o com frontalidade.

Fundou a primeira fábrica depois do 25 de Abril. Onde é que foi arranjar o dinheiro? Pediu emprestado?

Tinha algum, sou um homem de economias. Já tinha o meu projecto em mente e tinha algum de lado. Depois apareceram dois jovens que trabalhavam com o pai mas queriam ter a fábrica deles e convidaram-me para ser sócio. Entrei com a minha parte e fizemos uma sociedade a três.

Quanto é que pôs nessa altura? Quantos contos?

Não sei se foram mil ou 1750 contos. Foi a minha primeira fábrica. Estive lá sete anos e só então sai para realizar o meu projecto, que era diferente do deles. Eles estavam mais vocacionados para as grandes produções, para os grandes clientes. Eu queria uma marca própria. Houve alguns atritos porque quando se desfaz uma sociedade é como quando se desfaz um casamento, mas hoje somos amigos e convivemos muito. Convidei o Amílcar, que já trabalhava comigo desde os 15 anos, e um economista e disse-lhes: “Ficais com 10% cada um e vamos fazer uma fábrica com uma marca. Mas vais trabalhar muito e não será fácil, não penseis que vamos ficar todos ricos”. E começou a Kyaia.

Kyaia por causa da zona onde esteve em Angola.

Gostei tanto de lá estar que quis prestar essa homenagem a Kyaia.

E avançou logo com a marca própria?

Fizemos isto em 84, e só em 91/92 é que começámos a avançar com a criação da marca. Depois de vermos como é que o mercado funcionava. Começámos com 150 mil contos no primeiro ano. E fomos sempre crescendo. Hoje o grupo factura 55 milhões de euros.

E quantos empregados já tem?

De 20 passámos para cerca de 600, mais ou menos.

E andava de feira em feira?

Antes de ter a fábrica, como fui mecânico e vendedor de máquinas de calçado, conheci várias feiras. Paris e Dusseldorf eram as mais importantes. Mas foi uma das minhas ideias, conhecer como era o mercado.

Diz que o seu sonho de ter uma marca própria foi crescendo. Foi assim que chegou à Fly London, que é hoje a sua grande referência?

Foi na feira de Dusseldorf. Bem… como é que a gente casa com uma mulher? Encontra-a em qualquer lado até que pensa “é esta que me interessa”. Depois até pode dar uma barraca do caraças, mas é assim! (risos) É essa a nossa história. Andávamos a mastigar essa ideia de uma marca, já tínhamos feito algumas tentativas de mudar o lettering da Kyaia, mas nunca resultava. Estas coisas não têm explicação, nem científica, nem matemática. Há algo emocional… Não escolhemos uma mulher porque é muito alta ou muito baixa, é um olhar que se troca, outra coisa qualquer. Nessa feira de Dusseldorf uma pessoa contou-nos que uns gajos de um stand que estava ali a meia dúzia de metros não ia abrir porque eles se tinham zangado, tinham ido de carro de Inglaterra e chatearam-se no caminho.

E?

No mundo dos negócios é assim: vemos uma coisa e ou se perde oportunidade, ou não se perde. Chegámos lá e vimos Fly, aquela marca estranha da mosca estilizada, e foi logo. “Eh pá!, fogo, a gente anda a sonhar com isto mas nunca encontrou, é isto que nos interessa!”. Tomámos a decisão naquele momento. “Acabou, não se gasta mais dinheiro a fazer desenhos, quem são os donos?”. Fomos ter com um e dissemos “nós sabemos que isto é um projecto que já não vai para a frente, quer vender?”, e o gajo, como era o capitalista, quis foi receber o dinheiro que tinha gasto.

Quanto é que custou?

Já não sei, foi das coisas que nunca mais me preocupou. Mas era um dinheirito, que a gente nem tinha na ocasião.

Quem conhece os sapatos Fly, o estilo, o design, não vê nem a marca como portuguesa, nem a si como dono. Como é que gostou de algo tão diferente?

A marca era um projecto, era um bebé, e quando um bebé nasce não se sabe se ele vai ser padre, se vai ser ditador. A gente precisava de um bebé e sabíamos que tratamento lhe dar… e o bebé agradou-nos à primeira vista! Era bonito, tinha aquela imagem…

O símbolo da mosca?

Sim. Sou muito conservador nos hábitos, mas no espírito sou muito liberal e achei que aquilo… Repare no símbolo da Kyaia, quando o fiz também tinha pouco dinheiro e tive de me servir de um amigo que desenhava umas coisas. Pedi-lhe para fazer qualquer coisa que rompesse. Veja [mostra a marca num quadro da parede do escritório, cheio de fotos antigas], aquele círculo preto é o mundo, que era negro naquele tempo, e o K rasga e vai por aí fora, para uma coisa mais clarinha e bonita. É toda uma simbologia: “A gente vive aqui num mundo fechado, Portugal é um mundo fechado, eu quero rasgar esta porcaria!”. A Fly tem também essa lógica, é uma mosca que pode voar para o infinito!

Sim, é o lema, “Don’t walk, Fly”.

Exactamente! Foi esse espírito. O Kyaia não era tratável em termos comerciais, mas o Fly já é. É um raciocínio muito simples, não tem grandes estudos de marketing, tem um instinto, é o meu instinto da conservação, algo da natureza humana, que me apontou que aquilo era realmente um projecto em que devia e podia arriscar.

Quem é que começou a desenhar os sapatos tão inovadores, tão fora do vulgar?

O primeiro passo foi comprar ao capitalista o projecto. O segundo foi ir ter com o técnico que ele tinha e perguntar se queria trabalhar connosco. Era um técnico inglês. Nós já vendíamos sapatos para Inglaterra, mas sem marca, os sapatos saíam daqui a 10, 15 libras e depois a gente ia vê-los nas lojas a 60 e a 65 libras. Fazíamos sapatos avançados para a época, a Kyaia deve ter sido a primeira fábrica no país a fazer sapatos vermelhos, amarelos, azuis, cor-de-rosa, nas cores mais espectaculares que havia para a época e com um espírito libertário que cá não havia, nem ninguém queria. Eram para os alemães, para os franceses…

A marca Fly aproveitou a experiência?

O nosso espírito rapidamente se adaptou à lógica do designer. Já tínhamos uma escola, uma filosofia de colecção. Não foi preciso pegar na fábrica e virá-la do avesso. Sabíamos que objectivo queríamos atingir, só não sabíamos o caminho. Ele foi o indivíduo que o indicou.

Quanto tempo é que ele esteve convosco?

Seis ou sete anos. Tinha um contrato. No momento em que o infringiu, acabámos. A regra era trabalhar em exclusivo para nós. Mas como sempre, em Portugal, começou a ser tentado pela serpente do paraíso. Ganhava muito dinheiro mas, a natureza humana é assim, achava que ainda podia ganhar mais e quando lhe apareceu a serpente não resistiu. Nós soubemos e acabou.

Contrataram alguém para o lugar?

Já tínhamos uma ou duas pessoas a trabalhar em paralelo com ele. Ele não aceitava muito bem essas regras e penso que pensou “esta gente está dependente de mim, portanto vou fazer o que me apetece”. Mas comigo ninguém pode dizer isso.

Mostram-lhes os desenhos dos sapatos antes de avançar? Quem é que aprova?

As pessoas vêm e expõem as suas ideias…os desenhos, o produto. E depois tomamos a decisão de avançar ou não. Hoje quem trata disso é o Amílcar, que é o homem que foi especializado nessa área. Quando o convidei para sócio foi para ser comercial e para aprender. Até inglês aprendeu, a trabalhar, não na escola. Ele é que foi acompanhando todo este processo e hoje é o responsável: as pessoas apresentam-lhe os projectos, ele coordena, faz estudos sobre as tendências. Enquanto uma colecção de um estilista como um Miguel Vieira é baseada no poder criativo, nós baseamos a nossa numa história. É como Portugal, tem 800 anos de história. A Fly London tem 15 ou 16. O seu crescimento é sustentado não por inspirações, por flashes, mas pelo historial que vai criando. Os principais responsáveis da criação da Fly não são os estilistas, é o consumidor. Alicerça-se tudo nos dados dos últimos seis, sete anos. Penso que o fracasso do nosso país hoje é exactamente porque os políticos nunca olham para o passado, olham sempre para o futuro e fazem-nos afundar. A lógica deles é mudar, em vez de ver o passado como sustento do futuro.

O nome em inglês, Fly London, ajudou? Durante algum tempo sei que nem dizia que era portuguesa…

A marca apareceu no mercado e o cliente não questionava se era português ou americano. As pessoas gostavam, sabiam quanto tinham que pagar, não nos pediam explicações. Quando agrada as pessoas compram e não questionam se é do Manuel, se é do Joaquim.

Quanto tempo é que demora, mais ou menos, a formação de um empregado?

Ao fim de dois anos um empregado começa a saber fazer algum serviço. Se não for malandro ou desleixado, se for interessado… Na nossa empresa, não exagero se lhe disser que 85 a 90% dos lugares de chefia são ocupados por gente que veio para aqui com 16, 17 anos.

Conhece os empregados todos? Os mais de 600…

A maioria conheço. Não falo com eles todos os dias, mas gosto de passar por eles e poder dizer “estás bom, ó Zé?”! Sei se casaram, se tiveram filhos… faz parte do ambiente cultural da empresa. E há filhos que já cá trabalham.

Além de Paredes de Coura, também fez uma fábrica no Paquistão. Porquê tão longe?

Íamos começar a nossa actividade industrial, tínhamos fechado o negócio com uma fábrica de curtumes para nos fornecer as peles para essa primeira encomenda, eram 60, 70 mil pares, muita pele. Demos a encomenda com tempo, três meses. Oito dias antes de precisarmos das peles veio cá o representante da fábrica dizer que não nos podia fornecer nem na qualidade que tínhamos comprado, nem por aquele preço. Era normal perante os industriais de calçado, à última hora…

Aumentavam o preço?

Aumentavam o preço, havia sempre qualquer coisa! Fiquei desesperado porque íamos ter graves prejuízos. Tive que me meter num avião e ir a uma feira de couro em Paris. Por mero acaso caí no pavilhão dos paquistaneses. Tinham exactamente a pele que ia gastar, na mesma cor, tudo direitinho. Fui falar com o homem, não falava inglês, perguntei-lhe o preço e qual foi o meu espanto por ser menos de 50% do que aqui em Portugal. Quase desmaiava, mas não quis demonstrar. As peles do Paquistão são das melhores que há para fazer botas e sapatos de senhora. E eu ali um bocado atrapalhado, não sabia como é que me havia de entender com o homem, também não queria perder o negócio…Olhei para um corredor e passou um português que eu conhecia. Ele veio, traduziu, só dizia “isto é realmente um negócio da China”… Eu para o paquistanês “Preciso de tantos pés.” E ele “Há carta de crédito?”. Ora a nossa empresa tinha para aí um mês, mês e meio, tinha lá carta de crédito. Expliquei a coisa, propus algo como as tranches da troika, ele dava-me a primeira tranche, eu pagava, e depois dava-me tempo para saber como conseguir a carta de crédito. O homem deve ter gostado de mim e mandou. Já morreu, coitado. Chegámos a desenvolver uma amizade muito grande e muito forte, ao ponto de eu lá ir várias vezes com a minha família e ele vir cá.

E ainda tem lá negócios agora?

Não. As peles encareceram muito, o mercado das peles é assim. Mas temos relações de amizade ainda.

Onde é que agora compra as peles?

Em Portugal é sempre o residual. 80%, 90% são compradas fora. Da Europa e algumas da América. Acima de tudo, do leste.

“Sempre apologista de mais uma hora de trabalho, no mínimo”

Acha que em Portugal se produz pouco?

Não! Em Portugal não se produz pouco, em Portugal incorpora-se pouco valor acrescentado naquilo que fazemos. Esse é o nosso grande drama. A indústria do calçado é uma indústria competitiva, mas ainda precisa de meia dúzia de anos para podemos dar valor e vender sapatos ao preço dos italianos. Aí seremos os melhores. Se houver uma política correcta, uma visão correcta dos industriais, dos trabalhadores, dos sindicatos, dentro de meia dúzia de anos podemos vender os sapatos tão caros como os italianos.

O seu lema é “não preciso que me ajudem, mas não me atrapalhem”. Certo?

Sim. Farto-me de o dizer. Ora, hoje, não é assim. Estamos a discutir a meia hora, eu fui sempre apologista de mais uma hora, no mínimo, e defendo-o há muito tempo, há mais de um ano que o ando a dizer. Meia hora dá-nos 6% de competitividade. O que nós precisávamos era de aumentar o salário mínimo, aumentar as pensões mais baixas. Se as empresas ganhassem em vez de 6%, 12% de competitividade com mais uma hora de trabalho por dia, podiam pegar em metade para subir o salário mínimo e as pensões mais baixas. Essa gente não vai para o estrangeiro gozar férias, vão gastar na mercearia, é dinheiro que é injectado na economia! E o tempo de férias? Então agora os homens quando têm filhos gozam 30 dias?! A mulher é que pariu, é que sofreu, e o homem vai parar?! Lá que fossem oito dias, para ajudar a mulher com o bebé quando ele nasce! Os outros podiam ser substituídos por aumento de alguns ordenados! E quem não falta tem mais três dias de férias, porquê?! Então esta gente não pensa! Continuavam com os 20 dias e esses três a mais eram transformados em aumento salarial. Há um conjunto de coisas que se em vez de serem ócio fossem salários, todos ganhavam mais!

Consumiam mais, produziam mais?

Isso é o motor! Depois teria que haver campanhas de “consumam o que é português”, “temos um país de categoria, não vá passar férias a outro”, campanhas de sensibilização, de educação, para as pessoas gastarem. Não é preciso grandes doutores, grandes economistas para fazer isto. Só que fazem exactamente o contrário e estamos aqui! Isto preocupa-me porque tenho um negócio com 220 trabalhadores que vive desta economia, da economia real. A Foreva foi uma empresa que comprámos falida há cinco anos, tinha 160 trabalhadores, pagámos um milhão de contos a pequenos fornecedores que iam para a falência se não pagássemos, não fomos buscar dinheiro nenhum ao estado, pusemos a empresa, que era um Titanic no fundo do mar, navegar à vela! Empenhámos todas as nossas economias, não fomos buscar ajudas nenhumas quando o estado andava para aí a dar dinheiro a torto e a direito a empresas falidas, fizemos isto com o nosso suor, gastámos horas e horas a pôr aquela empresa direita. E agora vêm uns doutores quaisquer dizer “não, tem que se cortar, cortar, cortar”.

Você acha que esses doutores, como lhes chama, os governantes, falta-lhes vir a este país real?

Não, não! Eles sabem! Estão é a desempenhar um papel. Alguém lhes disse “vocês vão ser zombies, não vão ouvir ninguém, não vão falar com ninguém, vão fazer isto assim e assim”. E os zombies estão a fazer isto, insensíveis a tudo e a todos. São autênticos zombies e querem transformar esta sociedade também em zombie. Não pode ser! As pessoas têm de reagir! A gente olha para o ministro da economia, olha para o ministro das finanças, e não vê ali homens com sentimentos. Vê zombies! Não sei se se pode governar um país assim, que é feito por milhões de pessoas.

“É impossível fazer negócio no Brasil: Cobram 50% de imposto aos sapatos portugueses e que só paga 4% ou 5% para pôr cá os seus”

Como é um dia seu de trabalho? A que horas se levanta?

Normalmente, às seis e meia. O massagista acorda-me às seis e meia.

Começa o dia com uma massagem?

Às seis e meia, exactamente. Depois faço meia hora de tapete, tomo o pequeno-almoço…

Em casa? Mora aqui na zona de Guimarães?

Em casa. Moro a dez minutos daqui da fábrica. Moro, vivo aqui, sempre vivi! Tenho uma quinta e é lá que durmo agora, porque estou a fazer obras em casa. Depois tomo banho e vou para a cidade. Vou comprar o jornal, tomo um café e venho para a fábrica.

A que horas chega à fábrica?

Nove horas, nove e meia. Às vezes marco alguma coisa para tratar, quando tenho coisas na cidade, marco antes de vir para a fábrica. Mas às nove, nove e meia estou aqui.

Almoça aqui?

Não porque tenho sempre almoços com pessoas, clientes.

E jantar, vai jantar a casa?

Nunca janto em casa. Só ao fim-de-semana. É só trabalho, trabalho. Também tenho a Associação Portuguesa de Calçado [é presidente]. Já lá estou há anos, nem sei, dizem que estou para ganhar dinheiro, mas até os jantares pago do meu bolso. Dedico-lhe as noites. Chego a casa onze e meia, meia-noite.

Só ao fim-de-semana é que pára?

O sábado e o domingo são dedicados à família. Família e amigos! Os da tropa, que nos encontramos para jogar uma suecada, vão a minha casa, estamos lá todos, vemos futebol, jogamos, fazemos um lanchezinho e depois cada um vai para a sua…

E férias, tem?

Tenho. Nunca os 20 dias, mas oito dias, dez dias, isso sempre.

Cá em Portugal ou vai para o estrangeiro?

Sempre em Portugal e sempre no mesmo hotel, há 30 e poucos anos. O Alfamar, em Albufeira. Já sou mais dono daquilo… já passaram lá muitas administrações, alguns empregados é que ainda são de há 35 anos.

Também se levanta cedo?

Não, nas férias ponho-me a pé a tempo de tomar o pequeno-almoço, depois leio o jornal até às onze, onze e meia, vou à praia, dou uma volta. Continuo a ler os jornais, um livrito e depois almoço e vou para o quarto. Fecho-me e não quero que me incomodem!

Sesta?

Sesta, ver televisão, ler um livrito, brincar… mas não saio, depois do almoço não quero mais ouvir falar em praia, fecho-me no quarto a pensar, a ver, a ler. Só quero que me incomodem às oito horas para ir jantar.

Dos sítios todos que já visitou, dos países todos do mundo que já viu, qual é que mais o impressionou?

A China, pelo seu dinamismo. A força que as pessoas têm de ganhar dinheiro, de fazer negócio, de andar, de criar riqueza, de trabalhar. A Índia, pelo seu miserabilismo. Pela incapacidade que aquela sociedade tem de resolver os seus problemas de miséria.

Vai agora para o Brasil. Vai de férias ou em trabalho?

Vou em trabalho. Trabalho da APPICAPS, há um congresso mundial da indústria do calçado.

E tem negócios seus no Brasil?

Não, porque é impossível. Um país que cobra 50% de imposto aos sapatos portugueses e que só paga 4% ou 5% para pôr cá os seus em Portugal, é impossível.

E Angola?

Angola ainda é um país de grandes negócios. Feitos a nível do Estado. Vamos ter que esperar.

Calça Fly London?

Trago Fly London nos pés. Mas são especiais para mim [mostra uns sapatos clássicos com o símbolo da Fly].

São muito modernos para uma pessoa tão conservadora?

Costumo dizer que me sinto mal nos stands, não páro lá muito tempo nas feiras porque aquela fauna que nos visita não é bem o meu estilo. Então piro-me. Mas gosto. Os italianos chegaram a dizer uma vez que nem conseguiam copiar o nosso modelo de botas de homem mais vendidos de sempre… De tão feios que eram.

Tem apostado agora muito na tecnologia também, já ganhou prémios. É um homem de tecnologia, tem um iPhone, não vive sem telemóvel?

Infelizmente não, e a minha mulher é a principal culpada disso.

Porquê?

Porque diz que não devo usar isto, eu sou teimoso, então uso. Agora acompanha-me sempre. É pequenino e a gente está sempre a par, isto permite-nos estar na Índia e ver as vendas das lojas uma a uma, a que horas é que vendeu o quê, isto realmente é uma invenção…

É um homem de Internet?

Não muito. Só o essencial, como ver as vendas. Ensinaram-me e pronto. Também tenho um iPad, comprei há pouco tempo. Ainda é melhor, porque a gente aqui faz um esforço para ver as letras…

Quais são os luxos de que não prescinde?

Não tenho luxos! Não prescindo de ir ao café e ler o jornal. Não prescindo de ver o meu jogo de futebol em casa com os amigos e não prescindo de jogar umas suecadas com eles. Só isso.

“Um lema contra a crise? Trabalhar.”

O livro da sua vida?

Não tenho só um. O da solidão, do Gabriel García Márquez [“Cem Anos de Solidão], que já o li duas ou três vezes e as lágrimas vêm-me sempre aos olhos, o “Crime e Castigo” [Fiódor Dostoiévski] e a “Guerra e Paz” [Liev Tolstoi]. Depois, o “Equador”, também gosto do Miguel Sousa Tavares. E do José Rodrigues dos Santos também já li. E há mais meia dúzia… “As Vinhas da Ira”, do Steinbeck, também é um livro comovente.

Uma cena de um filme que nunca esquece?

No meu tempo de infância era aqueles filmes de coboiadas, havia alguns que eram muito porreiros. Ainda hoje me lembra de alguns actores, embora uns fossem um bocado reaccionários, como era o caso… como é que se chama aquele?…

…John Wayne?

John Wayne, exactamente. Aqueles actores americanos… é um cinema lúdico, que tinha sempre a coisa do bom e do mau, são filmes que marcam. Recentemente há o ‘Este País Não é Para Velhos’ [dos irmãos Cohen] e o ‘Million Dollar Baby’, de Clint Eastwood que também achei muito interessantes. E há o ‘Gata em Telhado de Zinco Quente’ do… esquece-me o nome dele! Há meia dúzia deles que me marcaram.

O que é que ainda vê na televisão?

Futebol… E gosto muito da “Quadratura do Círculo”, vejo às vezes à noite, não em directo, quando acordo de noite. E para me rir um bocado, o “Eixo do Mal”. É lúdico, é uma forma de encarar a realidade, de criticar, mas é sempre interessante. E pouco mais.

O lema da sua vida?

Nunca fazer nada de que me arrependa mais tarde.

Um lema contra a crise?

Trabalhar.

De quantos em quantos minutos é que vai ver o seu email?

Quando toca! Vai tocando. Depois apago logo, se não apago…

Um lugar para passar a sua reforma?

Na fábrica!

Saiba como está o negócio da Fly London aqui.

Leia a entrevista completa na Notícias Magazine.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

Turismo vale 16% da atividade económica portuguesa

Mário Centeno, ministro das Finanças. Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante

Défice público cai 59% até ao final de outubro

Marco Schroeder

Marco Schroeder renuncia a cargo de CEO da Oi

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
Conteúdo TUI
Fortunato Frederico: “Sempre fui apologista de mais uma hora de trabalho, no mínimo”