Franz Fayot: "Inflação vai durar, mesmo que o BCE suba os juros"

Ministro da Economia do Luxemburgo veio a Portugal procurar parcerias de negócios. Acredita que a crise vai piorar e os próximos dois anos serão ainda mais difíceis. E teme efeitos da falta de força da liderança europeia.

Na comitiva dos Grão-Duques do Luxemburgo, que cumpriram nesta semana dois dias de visita oficial a Portugal, o ministro da Economia, Franz Fayot, trouxe na agenda a vontade de intensificar as relações comerciais entre dois países especialmente próximos na Europa. Startups e Espaço estão entre oportunidades de negócio.

Que áreas traz na agenda económica desta visita a Portugal?
As startups são uma área muito relevante, em que acredito que podemos intensificar relações, dado o importante ecossistema que existe aqui, em particular em Lisboa e Porto, em áreas em que também nós apostamos: o digital, o Espaço, a tecnologia verde, a saúde... Queremos desenvolver esse potencial, considerando os laços fortes que as nossas comunidades têm e que ainda não se traduzem a nível económico. Esse é um dos objetivos desta visita. Sentámo-nos também com as câmaras de comércio bilaterais para olhar oportunidades no turismo - este é um destino de férias por excelência, o Luxemburgo é forte em turismo de negócios. Estamos também a construir um setor espacial forte; e há ainda interesse na construção sustentável e na economia circular.

A nível de investimentos ou para estimular o comércio bilateral?
Mais pelas trocas comerciais do que pelo investimento, mas há muitos luxemburgueses a investir crescentemente em empresas portuguesas - algumas delas da diáspora. O que queremos é abrir oportunidades de colaboração, parcerias entre os dois países e eventualmente investimentos cruzados.

Os PRR trazem importantes envelopes financeiros a projetos nomeadamente nas tecnologias, nas infraestruturas... Vê aí oportunidades?
Nem tanto... o Luxemburgo é um mercado muito pequeno, não é muito interessante, mas é para startups pode sê-lo, porque tem um ambiente multicultural e a vantagem de ser um grande centro financeiro, um bom local para atrair investimento. Temos a maior praça de green bonds, de ocean bonds e isso passa por dar a conhecer as nossas economias e ver como podemos tirar melhor partido.

Como vê a transformação energética e a crise que vivemos?
É sem dúvida um momento transformador, que começou com a covid e o choque de sermos, de um momento para outro, cortados do mundo. A logística tornou-se um pesadelo, ficámos sem acesso a equipamentos médicos, medicamentos, e nesse momento percebemos a importância da nossa independência estratégica, de reindustrializar a Europa e recuperar produções estratégicas. Os semicondutores são um exemplo, a comida - não faz sentido importarmos da China. E agora essas ideias ganharam ainda mais tração, com esta guerra trágica na Ucrânia e a consequente dependência energética. Enquanto continente, realizámos que não estamos preparados, que cometemos erros estratégicos ao não construirmos um suporte energético europeu.

E estamos a andar suficientemente rápido agora?
Estamos a fazer o possível, mas é complicado, quando cada país tem o seu próprio roadmap. Portugal tem a sorte de ter 60% de renováveis, Espanha compra gás ao norte de África, a Alemanha virou-se para o Qatar para fugir ao gás russo... Este vai ser o maior desafio dos próximos dois ou três anos e até lá vamos viver tempos muito difíceis.

Já estamos a viver, a inflação...
Sim, mas temo que não melhorará no curto prazo. Há falta de muitas coisas, não é só energia, são produtos, matérias-primas, terras raras, até pessoas. Vamos ter uma conjuntura inflacionista, mesmo que o BCE suba os juros em breve.

A estratégia do BCE é a certa?
É preciso cuidado, para não causar outra escalada nos juros, com o crédito, por exemplo, que adicione crise à crise e nos atire para uma tempestade perfeita. Nós não estamos na situação dos EUA, que têm uma inflação clássica, com emprego muito alto e que podem agir ao nível da política monetária. Não estou entre os que acreditam que o BCE tem de agir depressa, tem é de se preparar bem, ir enviando sinais ao mercado. A expectativa é que no final do ano haja subida das taxas diretoras, mas é preciso cuidado.

Qual é a sua principal preocupação quanto ao Luxemburgo?
Há uma quantidade de pessoas a pagar contas mais altas - energia, supermercado, tudo -, as empresas têm carência de talento, de materiais, altas faturas energéticas e esta combinação é um mix social perigoso. Somos um dos poucos países onde há indexação de salários à inflação - se esta sobe mais de 2,5% num dado período, os salários sobem de imediato. Se isso acontece três ou quatro vezes num ano, cria-se um problema para as empresas. Há uns meses, decidimos modular este sistema para evitar isso, dando em simultâneo compensações a quem tem rendimentos mais baixos, para fazer face aos aumentos. Fui criticado por sindicatos, mas acho que na generalidade todos concordam que era necessário, porque se a guerra continua e a inflação se mantém alta, as matérias-primas a faltar, os canais logísticos interrompidos, tudo isto quando precisamos de transformar a economia e investir fortemente na descarbonização... Porque esse investimento tem de ser feito aqui e nos países em desenvolvimento - menos dinheiro nos orçamentos significa que esses países vão cortar nos seus planos de descarbonização, o que vai piorar a crise. Se não fazemos as escolhas políticas certas e não investimos massivamente, teremos problemas graves, as pessoas mais frágeis vão ficar para trás.

Essas questões têm enorme reflexo na estabilidade social. Teme que suba o peso da extrema-direita na Europa?
Absolutamente, sim. Vemos o que se passou em França. Até aqui, um país moderado, há agora um partido de extrema-direita...

Também há um Partido Comunista, o que é um caso singular...
Sim, mas não acredito que o vosso PCP ainda queira fazer a revolução. Estes movimentos num país que não tem verdadeiros problemas de imigração revelam que a preocupação das pessoas está noutros campos, são as classes médias que não conseguem viver com o salário que recebem... é muito assustador.

Acha que a resposta da UE a estas crises - a covid, a guerra, a inflação - podia ser mais eficiente?
Sou um grande apoiante da UE, é um projeto único de que temos de tomar conta, mas podia ser muito mais ambicioso. O que se fez no pós-covid com o NextGenEU e os 750 mil milhões levantados para o primeiro passo de investimento coordenado foi um marco, mas podia haver muito mais. Temos de ter a ambição de fazer muito mais enquanto europeus - o que é difícil enquanto se tem esta discussão tóxica sobre imigração e o posicionamento que vemos em alguns países de Leste e os frugais a norte... Um efeito secundário positivo desta horrível guerra foi aproximar a Europa e entendermos que esta transformação que temos de fazer, rumo à descarbonização, para travar as alterações climáticas com sociedades transformadas é mesmo urgente. Se levarmos finalmente a ciência a sério, temos uma janela de dez anos, no máximo, para evitar o pior.

Precisamos de um momento vacina, em que a Europa se junta toda?
Mesmo essa resposta não foi perfeita... Nós somos um país pequeno e vimos as fronteiras fechar-se-nos... não devia acontecer isso. Mas ao mesmo tempo foi uma reação razoável, apesar de algumas coisas menos boas. Ainda assim, pensei que a covid seria mais importante para nos mostrar que estávamos confinados em casa mas também no território europeu e - isto parece um bocado à Greta, mas - não temos um planeta B, temos de cuidar deste. Essa foi para mim a grande lição da covid, mas gostava que tivéssemos aprendido melhor. Porque estes momentos vão ser mais frequentes, mais do que as policrises, as sucessões de crises, umas entrarem com as outras ainda a durar - temos a covid ainda e o clima, que vai piorar. Não chove no Luxemburgo há três semanas, no ano passado tivemos enchentes em toda a região, morreram pessoas na Alemanha. Estes eventos extremos vão acontecer cada vez mais, combinados com o stress nas nossas democracias. O debate democrático está a ser poluído pelas redes sociais, há pessoas a explicar problemas com teorias da conspiração... é muito preopcupante. Temos de ter líderes fortes para responder.

E temos uma liderança europeia forte e capaz?
Temos uma gestão... Eu liderei o movimento socialista luxemburguês e fizemos campanha por uma Europa diferente, muito mais ambiciosa nas questões sociais, ambientais, empenhada em mudar o capitalismo, a gestão da UE. Muito disso não se fez e acho que podíamos ir muito mais longe. Mas precisamos de maiorias, de convencer as pessoas de que pode haver uma Europa melhor do que a que temos.

E como vê nesse quadro o Reino Unido pós-brexit?
Vejo que também os britânicos têm grandes problemas: inflação a explodir, descontentamento, crises... tem os mesmos problemas do que nós, mas não têm as mesmas alianças - e já estão a falar em rever o acordo com a Irlanda do Norte. E têm um enorme problema de liderança, Boris Johnson é um desastre. A verdade é que os britânicos já não são o que achavam que ainda eram, já não são um império e parecem-me estar bastante isolados internacionalmente. Ainda são um país com enorme potencial, mas o brexit foi um desastre e deixou o Reino Unido muito só.

A Europa devia virar-se para outras relações geopolíticas? Estamos sempre a falar da importância de África, mas nunca acontece nada. Pode ser agora?
Espero que sim, tivemos a Cimeira UE-União Africana e há quadros financeiros diferentes e uma atitude de financiamento às infraestruturas africanas com um generoso envelope financeiro. Mas temos de levar isso muito a sério e entender que a China está muito presente na região, tal como a Rússia.

É um incentivo para nos mexermos?
É uma chamada de atenção, mostra-nos que é uma região estratégica, além de vizinha. Há muitas razões por que devíamos estabelecer parcerias com esses países. O Luxemburgo fá-lo em regiões no Sael, no Senegal, em Cabo Verde. Mas a Europa em conjunto tem de ser mais bem coordenada. Este Team Europe que está a ser montado ajuda, o BEI tem projetos sólidos, mas é uma questão de compromisso financeiro e de ajudar a construir infraestruturas verdes. É um imperativo, se queremos evitar problemas na vizinhança deste continente, que é o mais jovem e que arriscamos estar a deixar para trás.

Qual será a relação europeia com a Rússia depois da guerra?
A menos que haja uma mudança completa de liderança e na forma de gestão, não vejo como será possível ter alguma relação significativa nos próximos tempos. Claro que não podemos ignorar a Rússia, mas um país atacar outro assim, com o objetivo de destruí-lo, arrasá-lo, é uma coisa de outra época. Todas as sanções avançaram e acredito que estamos a caminhar para outra realidade geopolítica, para um mundo multipolarizado, com a China mais isolada, talvez em parceria com a Rússia, os EUA com uma agenda própria... Temos um mundo novo desde 24 de fevereiro. E acho que a relação com a Rússia depois disto será semelhante aos tempos da Guerra Fria.

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