entrevista

Frederico Falcão. “Há muitos jovens e estrangeiros a querer investir em vinha”

Frederico Falcão, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Frederico Falcão, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

O presidente do IVV elogia o dinamismo do setor, patente nas exportações e no investimento. De tal modo que os apoios do VITIS já estão esgotados

O bom momento dos vinhos portugueses no mundo são o tema da conversa com o presidente do Instituto da Vinha e do Vinho. Frederico Falcão diz mesmo que “o país está em grande” no setor.

As vindimas estão aí e tudo aponta para um ano com mais vinho. E a qualidade?
As previsões são muito boas, com regiões como o Douro e o Dão a crescer 20%, a Bairrada 17% e os Vinhos Verdes 15%. Em termos nacionais, a previsão é para um aumento de 10%, que pode ficar um pouco aquém por causa deste final de ciclo muito quente. Espera-se um ano de excelente qualidade nos brancos, nos tintos é cedo para avaliar, embora os produtores com quem tenho falado se mostrem muito satisfeitos.

As vindimas foram antecipadas por causa da seca. Os produtores estão conscientes dos efeitos das alterações climáticas? Já começaram a pensar nisso?
Nem todos. Até há pouco tempo, a tendência era termos vinhos cada vez mais alcoólicos, era aumentar a parede vegetativa das plantas de maneira a terem maior exposição solar, quer dos cachos quer das folhas. Num cenário de aquecimento, se calhar o caminho devia ser um bocadinho ao contrário e, de facto, nós não vemos isso, ainda, vertido na maioria dos produtores.

E o IVV que tem feito?
Estamos a iniciar, com o setor, um trabalho importante de estudo do nosso património genético, das nossas castas, num sentido muito prático. O trabalho de preservação genética do património vitícola está bem feito, bem estudado, pelo setor, agora falta perceber o potencial enológico dessas castas.

Que castas são essas?
Foram identificadas 197 castas daquelas que consideramos que são menos conhecidas no setor. Agora, o setor vai definir a lista prioritária para plantar algumas pelo país e estudá-las. Algumas castas que, há 50 anos, poderiam ter pouco interesse e foram desaparecendo das nossas vinhas podem, afinal, ser a solução para um futuro próximo, cada vez mais quente e com maior instabilidade.

Os vinhos, tal como os conhecemos hoje, estão condenados?
Vão mudar. Os vinhos que temos hoje não são nada parecidos com os que se bebiam há 40 anos. E, daqui a 20 ou 30 anos, o estilo de vinho que se vai beber vai ser muito diferente. Já o sentimos no mercado. As pessoas procuram vinhos mais frescos, mais fáceis, mais pela elegância do que pela robustez.

Esse movimento é-nos benéfico? Somos um país de tintos…
E continuamos a ser mais de tintos do que de brancos. Mas somos um país que tem muita elegância nos vinhos e é isso que tem cativado o público internacional. Os nossos vinhos são diferentes.

E tem cativado bem, que as exportações continuam a crescer.
As exportações correm-nos muito bem. O país está em grande. Temos vindo a subir nos últimos sete anos, com 2016, pelo meio, a atrapalhar-nos um bocadinho as contas. Mas, este ano, as coisas voltaram a inverter-se, com as exportações, no primeiro semestre, a aumentarem 10%, com os mercados que caíram o ano passado, como Angola e Brasil, a crescerem fortemente. Portugal está na moda em termos internacionais e temos que aproveitar este momento para promover, cada vez mais, o país e os seus vinhos.

E a que se deve este momento extraordinário?
Vive-se uma paz grande no setor e há uma grande articulação entre as várias entidades, o IVV, a ViniPortugal, as comissões vitivinícolas, o que ajuda a concertar posições e a coordenar ações. Também a marca Wines of Portugal, criada em 2010, ajuda a um reconhecimento do país. Várias ações de promoção feitas debaixo do mesmo chapéu ajudam a passar a imagem. Ganhamos todos com esta união de esforços. E não posso esquecer o grande trabalho que está a ser feito pelas comissões vitivinícolas regionais (CVR), nem a importância do turismo. Quem vem a Portugal fica apaixonado pelo país e pela gastronomia e sai ‘embaixador’ dos nossos vinhos. As pessoas começam-se a cansar um bocadinho dos vinhos serem muito homogéneos e viram-se para países onde veem essa diferença. E Portugal é uma dos países com maior diversidade de castas no mundo, tem vinhos cada vez mais bem feitos, tem excelente qualidade, tem excelente profissionais e um património genético que mais ninguém tem e isto desperta a atenção primeiro dos jornalistas internacionais e dos conhecedores e, depois, devagarinho vai passando um bocadinho para o público em geral.

Falou em paz no setor, não há uma polémica no Alentejo com a possibilidade de incorporar 15% de vinho de fora da região?
É um tema sensível. O regulamento europeu permite que, nos vinhos regionais, sejam incorporados 15% de vinhos de fora da região. Permite-o desde sempre. E, de facto, a maioria das regiões não o impede, até porque não têm poder para isso. O Alentejo é a única região que, formalmente, quis proibir essa incorporação. Há uma divergência de opiniões, as questões estão a ser tratadas e tudo se vai resolver.

Há outras CVR a garantir que não aceitam a incorporação de vinho de fora.
A questão está a ser definida até por uma revisão que estamos a tratar do decreto-lei que regulamenta as CVR e as regiões, no sentido de dar poder às entidades certificadoras para poderem tomar esse tipo de decisões, que não têm neste momento.

Concorda, então, que as CVR tenham esse poder…
Concordo. Esse e outros. Há vários tipos de decisões que as CVR tomam e que, nem todas, têm base legal para isso. E deviam ter.

Por exemplo?
Há mais, mas não me quero adiantar muito. É intenção do IVV e da tutela dotar as CVR dos mecanismos legais que, neste momento, não têm.

Essa incorporação de vinho de fora não pode ser nociva do ponto de vista da imagem do vinho?
Isto não é uma legislação feita à medida de Portugal, é europeia e transversal a todos os Estados-membros. E a Comissão Europeia entende que colocar 15% de um vinho de fora da região, mas do mesmo país – ou até pode ser de dentro, mas de uvas que não estejam classificadas para regional -, não vai desvirtuar a essência e as características do produto. É como um varietal. Por exemplo, para ser classificado como um Touriga Nacional o vinho não tem que ser 100% desta casta, só tem que ter 85%, no mínimo. Mas, insisto, estamos a falar de vinho com Indicação Geográfica, que nós designamos por regionais, e que têm um nível de proteção muito inferior às denominações de origem.

Grande parte deste bom momento do setor deve-se, também, à grande aposta dos viticultores na reestruturação das vinhas. É verdade que os apoios do VITIS estão esgotados?
O Regime de Apoio à Reestruturação e Reconversão de Vinhas (VITIS) tem uma dotação anual de 53 milhões. Nos últimos anos temos vindo a aprovar valores superiores e tivemos que, em 2017, restringir um pouco. Dotamos a medida, inicialmente, com 35 milhões, que depois subiu para 40. Acabamos por a duplicar, passando para 80 milhões, e aceitar todas as candidaturas que nos chegavam.

E agora?
Vamos ter que ter mais de cuidado. Isto foi possível porque, entretanto, desbloqueamos o novo quadro comunitário 2019-2023, descativando logo verbas para 2019 e 2020. Os valores para além de 2020 estão dependentes das negociações da PAC mas conseguimos, pelo menos, desbloquear mais 130 milhões. Claro que os quadros não esticam, aumentar para 80 milhões foi ‘comer’ um bocadinho da verba futura, responder às necessidade de um setor que está muito ativo e aprovando todas as candidaturas. Para o ano, o próximo VITIS que abrir já não vai poder ser tão generoso.

Estamos em agosto. Quanto há de VITIS?
Estamos a apurar, das verbas comprometidas, quais não foram usadas e na próxima semana terei esse valor disponível até para apresentar ao senhor secretário de Estado para definirmos a abertura do próximo VITIS. De qualquer forma, isto é um bom sinal, é fruto da grande dinâmica do setor, que está muito ativo, a crescer e com grande vontade de investir. E isso vê-se, também, nas novas autorizações [de plantação]. Este ano disponibilizamos 1932 hectares de nova quota para plantar vinha e tivemos, praticamente, o dobro das intenções.

Mas, também aí há polémica, o Douro não queria, de todo, um aumento de área…
Sim, e limitou o aumento a 150 hectares, mas a procura foi três vezes superior. A quota é nacional e a área atribuída no Douro acabou por ser de, apenas, 64 hectares. Que, nos mais de 247 mil hectares da região demarcada, não me parece que seja substancial ou seja por aí que vem problema ao Douro. Sabendo-se de antemão que esta quota poderá não ter apoios à plantação, quem a usar será algum com algum capital de investimento e que vem para trazer benefícios ao Douro e não para o prejudicar em termos do preço médio do vinho vendido.

Diz que não é por aí que vem mal ao Douro, mas a região contempla interesses muito diversos. Os produtores de vinho do Porto, por exemplo, queixam-se imenso de estar estrangulados por regras e de desigualdade de concorrência face aos produtores de vinhos do Douro.
Sobre as regras do Douro e Porto não me quero pronunciar. A quota distribuída foi, apenas, para Douro. Para Porto foi praticamente zero. Há alguns problemas estruturais na região a que o setor, no Douro, está atento e acredito que estejam a tratar de os resolver. Não creio é que a solução seja bloquear a entrada de novos agentes com vontade de investir e de trazer bons projetos ao Douro.

Então qual é a solução?
Estou convencido que as forças vivas do Douro serão capazes de encontrar a solução mais adequada para resolver os problemas da região.

Que balanço faz destes dois anos de aplicação do novo regime dos direitos de plantação?
Ainda é cedo para fazer balanço. Participamos na construção deste novo regime. Na altura havia uma parte da UE a querer que o crescimento [da área vitícola] fosse da casa dos 2% ou superior ao ano. Os países do sul mantiveram uma posição mais conservadora. Confesso que fiquei surpreendido este ano com a afluência que houve. Se continuar, se calhar é um sinal para a União Europeia pensar se não devemos aumentar esta quota. Vamos avaliando, daqui a cinco anos irá haver uma revisão desta legislação sobre a vinha, nessa altura temos de fazer um balanço do que se passou e, eventualmente, decidir se alargamos um bocadinho esta possibilidade de crescer a mais de 1% face à procura que há.

Mas o PCP teme a liberalização pós-2030…
A liberalização dos direitos pós-2030 é o que está negociado. Mas já esteve previsto para 2016 e, em 2012, acabou por se negociar uma solução transitória. Vamos ver se, quando chegarmos a perto de 2030, deixamos acontecer a liberalização ou se uns anos antes vamos tentar encontrar uma forma de abrir mais suavemente.

Quem tem investido em vinha?
Há muita gente a querer entrar para o setor. Muitos jovens, muito capital estrangeiro. Temos recebido aqui no IVV investidores de Inglaterra, do Brasil, da China. Pessoas que vêm saber como podem obter quota, como é que as coisas funcionam. E também há muitos jovens, alguns que nem estão ligados à agricultura. E a nossa preocupação tem sido dar-lhes prioridade. Trazer mais jovens ao setor, com uma outra dinâmica, é, claramente, uma garantia de sustentabilidade futura.

Como vão ser distribuídos os novos direitos de plantação este ano?
Vamos divulgar esses dados para a semana, mas posso já adiantar que foram aprovadas 428 candidaturas, das quais 122 são de jovens produtores. Em termos de regiões, o Minho é o que tem o maior número de candidaturas contempladas (108), mas, em termos de área, é o Alentejo que mais vai crescer: 800 hectares.

Está a um ano do fim do mandato. Que prioridades tem?
Tenho como objetivo encerrar este projeto de diploma de decreto-lei das comissões vitivinícolas regionais, que está em cima da mesa há dois anos. E queria finalizar aquilo que me propus em termos de reorganização interna do sistema informático do IVV para poder automatizar muitos processos e libertar pessoas de funções que são obsoletas.

Está disponível para um segundo mandato?
Não pensei nisso ainda. Não é uma preocupação.

Qual é o orçamento do IVV?
Um bocadinho superior a 11 milhões por ano. Só receitas próprias.

Tem sido alvo de cativações? De que montante?
Sim, grandes, sobretudo nos últimos anos. Um bocadinho a par de tudo o que é a Função Pública.

Mas o dinheiro do IVV não vem do Orçamento do Estado.
O dinheiro do IVV não estica, mas a preocupação tem sido que as verbas para a promoção não sejam afetadas. Temos que encolher um bocadinho o cinto e gerir as contas. Havia investimentos que estavam previstos e que não vamos poder fazer. A nossa preocupação, claramente, é não prejudicar o setor nas verbas para a promoção.

Quanto vai por ano para promoção?
Quase 11 milhões de euros ao ano de apoios públicos. São sete milhões da Europa e quase quatro milhões de verba nacional. Depois, há as comparticipações privadas.

Que investimentos ficaram por fazer?
Alguns de informática, outros em edifícios. Não têm qualquer efeitos em termos de pessoal nem de desempenho do IVV. Eu costumo dizer que há o must have e o nice to have. No must have, não estamos comprometidos. No nice to have, vamos ter que apertar o cinto e viver com o que temos.

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