Santiago de Compostela

Caminhos de Santiago trazem cada vez mais turistas a Portugal

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Os caminhos portugueses de Santiago nunca tiveram tanta procura. A tendência é para crescer. A economia local é que está a ganhar

Os caminhos portugueses para Santiago (o Central e o da Costa) estão a registar uma forte procura. No verão, entre junho e setembro, quase 50 mil pessoas percorreram estas rotas para chegar à Oficina do Peregrino de Santiago e obter a Compostela, um certificado que comprova que cumpriram a peregrinação.

Foi um aumento de 20% face ao mesmo período de 2017 e valeu 24% do número total de peregrinos nesta época do ano (cerca de 204 mil). Este incremento está a potenciar as economias das cidades e aldeias portuguesas por onde passam os caminhos. O Central foi seguido por mais de 40 mil pessoas (+11,7%), e o da Costa teve a preferência de 8710 (+82%).

Os peregrinos, cujas motivações para se fazerem ao caminho ultrapassam, muitas das vezes, a esfera religiosa, são essencialmente espanhóis (a nacionalidade com maior relevância), portugueses, alemães e italianos, diz a Junta da Galiza. Mas atraem cidadãos dos quatro cantos do mundo.

Como sublinha António Rodrigues, proprietário da Quinta São Miguel de Arcos – empreendimento de turismo rural em Vila do Conde – há australianos, norte-americanos, brasileiros, neozelandeses…
Em terras por onde não passa a onda massiva do turismo, estes caminhantes fazem florescer a economia local e são um antídoto à sazonalidade da procura. A oferta turística está a adaptar-se às necessidades destes aventureiros, que no mínimo têm de percorrer os últimos 100 quilómetros até Santiago de Compostela (se forem a pé ou a cavalo, já de bicicleta são 200) para obterem a Compostela.

Abílio Macedo assumiu há três anos a propriedade do café Barbosa, também em Arcos, e reconhece que “se não fossem os caminhos já estaria encerrado”. Nessa localidade de Vila do Conde, estão registados 700 habitantes, mas muitos já não vivem na freguesia. A mulher de Abílio – boa cozinheira – adoçou a cozinha às solicitações dos peregrinos: saladas 5 estrelas, panados, sandwiches e, claro, pequenos-almoços, conta.

Já António Rodrigues é perentório em afirmar que este movimento “transformou a época média em época alta” e, nessa altura, 50% dos hóspedes são peregrinos e 99% estrangeiros. No solar do século XVIII não há lugar ao pé descalço, “querem boa cama e boa mesa”, diz. Segundo conta, até subiu o preço por noite em 10 euros para diferenciar o alojamento.

Um operador português
A Portugal Green Walks é o maior operador turístico português a trabalhar os Caminhos de Santiago. Paulo Lopes, acionista da empresa, adianta que, “nos últimos cinco anos, o crescimento anual da procura tem-se situado entre os 30 e 40%”. No ano passado, a operadora apoiou “clientes de mais de 30 nacionalidades”, sendo que os produtos que comercializa têm por base o conforto no alojamento, o transporte de bagagem entre hotéis, a comodidade de uma documentação organizada e a segurança em qualquer emergência.

Como sublinha, a Portugal Green Walks “trabalha com mais de 120 parceiros, sejam hotéis, casas de turismo rural, empresas de táxi e transporte, restaurantes…”. E esta dinâmica garante, principalmente nas áreas mais rurais, uma base de clientes seguros para inúmeras atividades económicas ligadas ao turismo.

O Hotel Meira, em Vila Praia de Âncora, também já firmou uma parceria para o transporte de mochilas e bicicletas do aeroporto do Porto e de Vigo até ao empreendimento, conta Luiza Vila Boas, diretora-geral. De março e até ao início de novembro, os peregrinos chegam dos vários cantos do mundo. “Muitos alemães e um pouco de tudo: irlandeses, australianos, ingleses, espanhóis”, adianta.

Luiza Vila Boas reconhece que estes turistas, com perfil socioeconómico médio-alto, já representam 5% da ocupação anual e permitiram aumentar as receitas em 4%. E a tendência é de crescimento, assegura. Já há reservas para 2019. O Hotel Meira, que pode ser ponto de partida para Santiago de Compostela e local para carimbo da credencial, apostou na introdução de um menu de peregrino, num serviço de massagens e também de lavandaria, e abriu as portas aos animais de estimação.

Um filme
O filme “O caminho”, drama lançado em 2010 pelo realizador Emilio Estevez e onde marca presença o ator norte-americano Martin Sheen, deu também um forte impulso à internacionalização dos Caminhos de Santiago. A rota francesa, ainda hoje a mais percorrida, está esgotada e, isso acabou por potenciar os caminhos portugueses. Como diz Paulo Lopes, “a massificação que o caminho francês foi sujeito nos últimos anos levou à demanda de muitos turistas por mais sossego” e os caminhos portugueses “posicionaram-se como um percurso alternativo”.

Ricardo Rodrigues, proprietário dos Apartamentos Turísticos Vila Praia, não tem dúvidas que o filme deu o novo élan às rotas nacionais. O seu negócio também floresceu na época baixa e, por isso, até colocou uma placa junto à entrada do empreendimento a publicitar que pratica tarifas para peregrinos. Ainda assim, a maioria dos hóspedes – 75% alemães – reservam através dos sites de alojamento e pagam o preço tabelado.

O café Oceano, na orla marítima de Vila Praia de Âncora, é um bom local para os peregrinos descansarem da jornada, e repousar o olhar no mar. Segundo Vítor Costa, agora há peregrinos todo o ano e sentam-se para comer o pequeno-almoço ou uma refeição ligeira e económica. As canadianas Lesley Milane e Liz Berkley preparam-se para rumar à esplanada junto ao mar. Chegaram cansadas ao Hotel Meira, apesar de habituadas a caminhadas, e só pensam em ir beber uma cerveja. Vieram pelo gosto da caminhada e pelo prazer de descobrir Portugal a pé, não têm motivações religiosas, apenas querem desfrutar as férias. E, para o ano, admitem voltar.

Ano Santo
O Caminho Português da Costa recebeu, nos últimos dois anos, um forte impulso, fruto do trabalho da cooperação intermunicipal de valorização do património turístico, cultural e religioso pelos dez municípios que traçam esta rota. Maria José Guerreiro, vereadora da Cultura e Turismo da Câmara de Viana do Castelo, recorda que tiveram um apoio de 2,2 milhões de euros, em resultado de uma candidatura a fundos europeus, para comunicar e promover o caminho, introduzir sinalética comum e organizar eventos que potenciassem a sua notoriedade. “Foi um processo exemplar, em que apresentámos este território como um todo”, frisa.

Os resultados estão à vista. O crescimento do Caminho da Costa tem sido exponencial. Para Maria José Guerreiro, o património paisagístico, cultural e gastronómico da região Norte são mais-valias que ajudam a catapultar este movimento de turistas. Os municípios estão agora a pensar no futuro e, desta vez, também com a Galiza. O Xacobeo (Ano Santo) aproxima-se a passos largos e, antes de 2021, é necessário preparar as estruturas para o que se avizinha um ano histórico no número de peregrinos a chegar a Santiago de Compostela.

Afinal quem é o peregrino? É na maioria do sexo feminino (52%) e tem entre os 30 e os 60 anos (56%). A principal motivação ainda é religiosa (41%), mas já há 7% que percorrem o caminho por motivos culturais. É dos países da Europa que saem a grande maioria dos caminhantes (86,5%) e a preferência é a pé (89%), segue-se a bicicleta (11%) e, por último, o cavalo (0,2%).

Caminhos na UNESCO
O Caminho de Santiago em Portugal integra cinco itinerários: Central, da Costa, Nascente, Interior e de Torres, todos incluídos numa candidatura (já aceite) à lista indicativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

A Secretaria de Estado do Turismo (SET) lançou recentemente a plataforma Caminhos da Fé, que irá incluir, em breve, os Caminhos de Santiago, sendo que também foi criada uma linha de apoio à qualificação dos Caminhos de Santiago em Portugal, dentro do programa Valorizar.
Segundo informações da SET, o Alentejo está atualmente a dinamizar os caminhos do Alentejo e Ribatejo, através do desenvolvimento do Caminho Nascente e do Caminho Central.

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