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Indústria. Estas mulheres exportam mais de 40 milhões

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As mulheres ocupam 13% dos cargos de direção, mas só 2% dos lugares de CEO. Dielmar, Casa Ermelinda Freitas, Extrusal e a Take a Walk estão nestes 2%

  1. Quatro empresas, setores distintos, os mesmos desafios. O crescimento, a inovação, a competitividade internacional. Casa Ermelinda Freitas, Extrusal, Dielmar e Take a Walk são quatro empresas que têm em comum serem lideradas por mulheres. Faturam quase 85 milhões, dão emprego a mais de 800 pessoas e exportam, conjuntamente, mais de 40 milhões de euros. Um pequeno retrato da liderança no feminino.

A Extrusal, de Aveiro, é responsável por mais de metade destes valores. Cristina e Carla Bóia são filhas do fundador da empresa de Aveiro, especializada em perfis de ligas de alumínio para a arquitetura e a indústria, e que hoje lideram a gestão. Cristina como presidente da direção, com os pelouros comercial e económico-financeiro, Carla mais virada para a área operacional, mas com crescente atuação no segmento comercial. Ambas estão a par de tudo e o pai, Carlos Bóia, vai quase todos os dias à fábrica.

Fundada em 1972, começou por produzir caixilharia de alumínio, mas hoje 75% do que faz é para a indústria, com especial destaque no setor automóvel, mas não só. A Extrusal fornece produtores diversos, desde o fabrico de bicicletas a escadotes, passando pelas canadianas na área da saúde e fechou o ano de 2017 com 44,9 milhões de euros de faturação, mais 30% do que no ano anterior.

Cristina Bóia chegou à Extrusal no início do milénio e as exportações eram irrisórias. “Durante muito anos nunca conseguimos subir acima dos 7%. Em 2004, com a criação de um departamento específico para a internacionalização, e a entrada em força na indústria automóvel, descolámos”, diz. Pelo caminho nasceram empresas comerciais em Cabo Verde, Angola e Moçambique. Em 2014, as exportações diretas já valiam 50%. Hoje, estão nos 40%, não por decréscimo da aposta externa, mas por crescimento do mercado nacional. A Europa é o principal destino das exportações, com a Alemanha a valer quase metade. Também vende para África, México e Estados Unidos. Dá emprego a 330 pessoas.

Continuar a crescer nos mercados externos é a grande aposta de futuro, mas, ao mesmo tempo, a prioridade atual é a reorganização interna em curso. “Queremos consolidar a organização e o controlo do grupo, pelo que reforçámos a equipa de gestão”, refere a CEO da empresa.

Mas nem tudo tem sido fácil. Os recentes anos de crise foram “especialmente duros”, sobretudo porque tinham acabado de fazer “investimentos avultados”. “Foi um período muito conturbado, tivemos que negociar com a banca e resistir, explica Cristina Bóia, que aponta o dedo à crescente “concorrência agressiva e desleal” no setor. “Pagávamos ordenados muito bons, mas fomos forçados ajustá-los, senão não sobrevivíamos. Há muita empresa no setor a pagar o salário mínimo”, garante.

Ser mulher fez a diferença? “As mulheres têm mais jogo de cintura e isso ajudou a ultrapassar alguns problemas”, refere Cristina Bóia. Carla lembra que a compatibilização do cargo com a vida familiar “é uma gestão muito difícil”.

A Dielmar e os seus fatos para homem dispensam apresentações. Ana Paula Rafael é a CEO da empresa já lá vão 10 anos. Mesmo que a gestão seja partilhada com o irmão, Luís Filipe, o rosto da empresa é ela. Sempre em defesa do bem saber fazer nacional e da “importância de conseguir manter em Alcains”, no interior do país, uma unidade fabril de sucesso que dá emprego a mais de 400 pessoas. “Somos uma família, todos me tratam por Paulinha, fui ao casamento deles. A empresa comemora este sábado, 12 de maio, 53 anos e ainda há dias homenageámos uma funcionária que tinha 51 anos de casa e que se reformou”, conta, emocionada.

Quando chegou à empresa, o mercado nacional valia 64% das vendas e Espanha 20%. Ana Paula Rafael procurou imprimir uma gestão “muito partilhada” com a equipa e uma estratégia muito focada na internacionalização e a marca está presente em 20 países, com destaque para França, Espanha, Brasil e EUA. As exportações valem 62% dos 13 milhões faturados, mas o objetivo é chegar aos 80%. “Continuo a acreditar que o crescimento da Dielmar passa pela internacionalização e pelo desenvolvimento de um produto diferenciado, mas simultaneamente competitivo”, diz.

Indústria 4.0
O grande desafio é “conseguir aliar o saber fazer mais tradicional da alfaiataria à inovação e ao design”, num segmento de moda “muito exigente”. E, por isso, a digitalização do chão de fábrica, com a introdução de novos processos de fabrico e de melhorias ao nível da organização e da eficiência é a sua grande aposta. Em Alcains, a indústria 4.0 é uma realidade em marcha. “Versatilidade, flexibilidade e inovação são exigências diárias”, diz, até porque “estamos em Alcains, mas competimos nos quatro continentes”.

A dois anos do centenário está a Casa Ermelinda Freitas, que conta hoje com 445 hectares de vinhas na região do Palmela e faturou, o ano passado, 20,5 milhões de euros. Um aumento de 17% face a 2016. As exportações valem 40%, com os vinhos Ermelinda Freitas a marcarem presença em 30 países. Os mercados europeus, a China, a Rússia, o Brasil, os EUA, o México e a Colômbia.

“Temos uma riqueza enorme espalhada pelo mundo que são os nossos emigrantes. Os portugueses residentes no estrangeiro preferem os produtos portugueses, nomeadamente o vinho, e são a via de acesso aos naturais dos países onde estão presentes. Para mim, o mercado da emigração é essencial”, refere Leonor Freitas, a quarta geração de mulheres a liderar os destinos da empresa. A filha, Joana Freitas, é a responsável pelos mercados internacionais.

“Não há trabalhos para homens ou mulheres, há as pessoas certas para os lugares certos”, defende a CEO, para quem uma boa liderança depende de “empenho, alma e dedicação”, mas sobretudo do “envolvimento da equipa” com que se trabalha, aproveitando os saberes de cada um. Abrir novos mercados e consolidar os existentes é a aposta constante. “Vamos continuar de malas feitas pelo mundo, queremos continuar a crescer e a levar a qualidade do vinho de Portugal ao mundo inteiro”, diz Leonor Freitas.

No setor dos têxteis não faltam casos de empresas lideradas por mulheres. No calçado são mais raras e Salomé Almeida é uma das exceções: “Não tenho tradição no setor, a minha família é do têxtil, mas trabalhei dois anos como comercial numa empresa de calçado e desafiaram-me a avançar com um projeto próprio”, explica. A Take a Walk nasceu em 2000; hoje emprega 82 pessoas e fatura 6,3 milhões. Tudo exportado. Procura, agora, apostar no mercado interno, em lojas de nicho, com uma marca em nome próprio.

Ser mulher num mundo de homens não é fácil, reconhece: “Hoje sorriem-me, mas no início diziam que a empresa estava condenada”. Não esquece o apoio de alguns fornecedores. “Quando se é jovem e se arranca do nada, a banca bate-nos com a porta na cara. Foram os meus fornecedores de solas e de pelos, grandes amigos a quem estou muito grata, que me deram o crédito para me firmar”, sublinha.

“Começámos com 65 pessoas e fomos crescendo. Não quero crescer em demasia, porque é uma responsabilidade social muito grande. São 82 famílias”, defende. Sobretudo atendendo à conjuntura difícil do setor. “2017 foi um ano positivo, crescemos 9%, mas olho com muita apreensão o mercado. Houve colegas a passar um mau momento neste primeiro trimestre. Felizmente não nos tem faltado trabalho e tenho que dizer que está a correr bem, estou a conseguir manter os postos de trabalho”, frisa.

Razões deste arranque negativo do ano são “muitas e em simultâneo”, desde a meteorologia “que não ajuda” à retração dos consumidores. “Temos uma enorme dependência dos mercados europeus, na ordem dos 85%, que não têm tido desempenhos brilhantes”, lembra. A solução é continuar a “trabalhar muito” e fazer “cada vez melhor”. “Vamos mudar o lay out da empresa para sermos ainda mais flexíveis e versáteis. A resposta pronta é uma exigência constante”, argumenta.

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