Jean-Claude Trichet

Jean-Claude Trichet: “Estou confiante, sem ser ingénuo”

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A crise na Catalunha e a dicotomia europeia patente nos desafios da França e da Alemanha vistos pelo antigo presidente do Banco Central Europeu

A análise ao papel do governador do Banco de Portugal, o peso do capital estrangeiro na banca e o malparado em Portugal, a crise na Catalunha e a dicotomia europeia patente nos desafios da França e da Alemanha vistos pelo antigo presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet.

O método de operação do sistema europeu de bancos centrais é opaco? Em Portugal, o governador do banco central recusou dar informações importantes ao Parlamento, alegando que o BCE não permitiu. Isto faz sentido?

Se há informações de que todos os colegas do conselho de governação e o BCE concordam em não passar ao mercado, então só pode ser pelo facto de ser informação demasiado sensível, e isso temos de respeitar. Mas, do que sei, em todos os países o BCE é absolutamente transparente. Em comparação com o banco central do Japão e a Reserva Federal dos EUA, diria que o BCE é extremamente transparente. Cada um dos bancos centrais nacionais representa o BCE perante as outras instituições em cada país. Conheço bem o governador do Banco de Portugal, sei que é dedicado e profissional e não tenho dúvidas de que o Parlamento dispõe de toda a informação necessária.

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O peso cada vez maior de capital extraeuropeu na banca europeia (em Portugal isso é visível na presença angolana e chinesa) pode trazer problemas de demasiada independência em relação às orientações do BCE? E há cada vez menos bancos pequenos e os grandes estão a ficar maiores. Este caminho não é arriscado? Estamos outra vez a cair no erro do too big to fail?

Too big too fail era uma questão que dizia respeito ao globo em si mesmo, a toda a economia global. Há uma lista de bancos que são considerados sistémicos e que a comunidade internacional, como um todo, quis evitar que fossem tratados como too big to fail. Há um problema específico na Europa, nomeadamente o facto de sermos um mercado único com uma moeda única na zona euro, e devíamos ter uma estrutura transfronteiriça. Temos um sindicato bancário e, normalmente, os bancos na Europa deviam funcionar como os bancos dos EUA na perspetiva do mercado único. Devo dizer que não é o caso. E quando comparamos a estrutura dos nossos bancos com os bancos de outros mercados únicos equivalentes, vemos que não temos as operações transfronteiriças que provavelmente seriam necessárias. O problema, para mim, na perspetiva da zona euro, passa mais pela reestruturação ao nível do mercado europeu, em si mesmo, do que por proteger qualquer segmento específico de mercado – e Portugal é um segmento do mercado único -, e acho que não devemos pensar assim.

Portugal agora está a trabalhar numa solução para o crédito malparado. Está na altura de Bruxelas e Frankfurt avançarem com uma solução europeia?

Uma das recomendações que me chegaram por parte dos observadores, incluindo do FMI, foi a de pedir melhorias na resiliência do sistema financeiro de Portugal. Melhorar a resiliência do setor financeiro será a solução para o crédito malparado. Não quero entrar em pormenores, acho que o que foi feito noutros países, incluindo em Espanha e Itália, deve ser observado. Mas é claro que há espaço para melhorar a resiliência do setor financeiro.

Falando em Espanha, está preocupado com a Catalunha? Temos em Portugal o catalão Caixa Bank, que detém o BPI…

No que diz respeito à Catalunha e à situação política, estou muito muito triste porque isto é exatamente o que os europeus não precisam. Num período tão exigente como este, em que temos uma janela de oportunidade para irmos na direção certa com mais reformas na Europa, esta ideia de que um país como a Espanha pode ser dividido – porque não é um simples pedido de autonomia, é de independência, embora espere que seja transformado num pedido de mais autonomia – não ajuda. É uma situação política muitíssimo complexa. Espero que a solução apropriada seja encontrada.

Qual o impacto que prevê para os bancos? Há risco sistémico?

Com a Catalunha a ser uma parte tão importante da prosperidade de Espanha, pode haver falta de confiança, e essa situação iria abalar ambas as economias, da Catalunha e de toda a Espanha. É tão absurdo que não consigo acreditar que seja verdade! Mas isto sou eu a especular. Talvez esteja a ser demasiado otimista, mas acho que vai ser encontrada uma solução política.
Está preocupado com a situação política na Europa? Por um lado, a chanceler Merkel tem de lidar com a extrema-direita, por outro lado, em França, o presidente Macron pede “mais Europa”. Na Europa tem-se andado a discutir a harmonização fiscal e laços mais fortes ao nível financeiro e económico há anos.

Dadas estas realidades antagónicas, esse reforço continua a ser um sonho?

Não é, de todo, um sonho. A coligação que a chanceler conseguir, logo se vê como corre. Vai haver uma maioria de sensibilidades pró-europeias, mas aí não temos de nos preocupar demasiado. De qualquer forma, ou há uma coligação com o SPD – embora eles já já tenham dito que não estão nada entusiasmados com uma eventual coligação com a CDU – ou outra coligação possível, com o tal partido a que chamam Jamaica, os liberais e os Verdes. Não é nenhum conto de fadas! Sabemos disso há muito tempo. Não acredito que o avanço da Europa seja prejudicado. Acredito que não vamos perder a janela de oportunidade, mas vamos ver. A negociação da coligação vai demorar, como sempre acontece na Alemanha. O sentimento dos europeus é de que é a altura de avançar em vários aspetos, não só no económico. Não falamos aqui de terrorismo, de defesa, de segurança externa e interna, mas fazem parte do conjunto de mudanças importantes que se esperam na Europa. Diria que a ideia é a de avançarmos no sentido de um único ministro das Finanças da zona euro, avançarmos na direção de completar a União Bancária, de termos um orçamento europeu, ainda que pequeno no início e com várias possibilidades que podiam passar por ajudar a estabilizar o buraco financeiro da zona euro ou só para ajudar os países. Tudo isto tem de ser discutido. Estes conceitos foram aprovados, tornados públicos e apoiados politicamente pelo presidente Emmanuel Macron. E acredito que sejam também assuntos que vão merecer a atenção da chanceler alemã. Estou confiante, sem ser ingénuo.

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