Indústria

Portugal na linha da frente dos têxteis para desporto

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Meias anti-entorse, caneleiras personalizadas ou tecnologia RFID em suporte têxtil são exemplos das novidades apresentadas por 41 empresas portuguesas na ISPO Munique

Mais de 70% dos desportistas mundiais têm problemas de entorses e é a esse mercado que Carlos Maia, fundador da CM Socks quer chegar. A empresa bracarense garante ter “a única meia no mundo anti-entorse”, as Prevent Sprain, que são desenvolvidas em parceria com a Escola Superior de Saúde do Porto e cuja tecnologia está patenteada em 143 países. Usadas já pela Seleção Nacional de Voleibol, pela equipa de séniores de andebol do Porto e de basquetebol do Guimarães, bem como pelos atletas Jéssica Pontes e André Silva, está já acordado que, em breve, as meias inovadoras da CM Sock serão testadas pelos americanos Miami Dolphins.

Este é apenas um dos exemplos das 41 empresas portuguesas que esta semana marcaram presença na maior feira mundial de desporto, a ISPO Munique, apoiadas pela Associação Portuguesa de Têxtil e Vestuário e pela Selectiva Moda. Com 170 trabalhadores e uma faturação de 10,5 milhões de euros, a CM Socks faz meias de desporto, saúde e bem-estar e de moda e exporta quase tudo o que produz para toda a Europa, Rússia, Brasil e Estados Unidos. E fornece grandes marcas de internacionais, como a Hummel, a Donnay, Dunlop, Umbro, Lotto, Kappa ou Slazenger, mas, também, a Coca-Cola ou a Playboy. E Carlos Maia está disposto a licenciar as Prevent Sprain. “É uma questão de negociar”, diz.

A caminho dos EUA está, também, a SAK Project, a startup de Viseu especializada na produção de caneleiras feitas à medida e personalizáveis, usadas no plantel dos três grandes do futebol nacional, mas também por jogadores do Real Madrid, Juventus, Mónaco, Manchester City ou Wolverhampton. A médio prazo, novos desportos se seguirão, como o hóquei, mas no imediato a aposta está mesmo do outro lado do oceano: “Na segunda metade do ano vamos atacar o mercado americano, onde o soccer está a crescer muito e onde o futebol feminino tem uma dimensão muito interessante”, diz Madalena Albuquerque, lembrando que 2019 é ano de Campeonato do Mundo Feminino. Na ISPO apresentaram a sua nova linha de vestuário de compressão para homens, lançada no final do ano passado e que “esgotou tres meses antes do previsto”. Para breve esta roupa técnica para melhoria da performance dos atletas chegará também em versão feminina.

Com 23 trabalhadores, a SAK Projects tem por acionista a Armilar Venture Partners e, por isso, não divulga, ainda, quanto fatura. Mas Madalena Albuquerque admite que, em 2018, as vendas da SAK duplicaram e que, em 2019, deverão “praticamente triplicar”, sem contabilizar o efeito Estados Unidos. Aposta para a qual fazer, este ano, um levantamento de capital na ordem dos dois a três de euros. Desde 2017 que a SAk Projects entrou no retalho, estando já presente em mais de 200 pontos de venda na Europa e África do Sul, mas chega a todo o mundo através das vendas da loja online da marca. Tem disponível o sistema de scan nas lojas Sportzone do Norteshopping e do Colombo onde é possível fazer umas caneleiras à medida. Tecnologia que esteve presente no seu stand em Munique, e que permitiu realizar scan, na hora, a Javier Martinez, jogador do Bayern de Munique.

E o que tem o têxtil a ver com os festivais de música? Muito, responde a Heliotêxtil, empresa de São João da Madeira, especializada em etiquetas e passamanarias, e que integrou um chip RFID numa pulseira têxtil para permitir a validação de entradas num qualquer evento. Começou pela Viagem Medieval, em Santa Maria da Feira, desenvolvendo todo o hard e software necessário, e rapidamente chegou aos grandes festivais, como o NOS Primavera Sound, o Vodafone Paredes de Coura ou o Super Bock Super Rock.

E este ano a Heliotêxtil vai exportar o conceito, começando pelo Peru e outros países da América do Sul. Mas não só. Na verdade, o objetivo é acoplar em artigos têxteis as credenciais de utilização de um determinado serviço, seja uma pulseira com a assinatura mensal de um ginásio ou uma camisola de uma equipa de futebol que integra o bilhete da temporada para o estádio. Com duas fábricas e cerca de 120 trabalhadores, a Heliotêxtil fatura cerca de seis milhões de euros. E todos os anos aplica, “no mínimo 10% da faturação”, garante Paulo Castro, responsável da empresa, em inovação. Na ISPO, a empresa apresentou a sua nova marca, a Identity FC, que pretende oferecer um serviço completo na costumização de artigos desportivos, que vai desde a disponibilização de uma loja pop up – um pequeno cubo pronto a ser instalado em qualquer lugar onde uma marca queira criar um ponto de venda rápido e flexível -, à criação da coleção e da plataforma online que permite agilizar todo o processo da personalização.

Presença habitual na ISPO é a Impetus, conhecida pelas suas marcas de underwear masculino, mas que tem aproveitado o know how aí acumulado para apostar cada vez mais no vestuário para desporto. Aí apresentou aquela que crê ser a primeira mochila seamless, no mundo, ou seja, produzida em malha dupla e sem costuras. A componente ecológica, com o recurso a fios reciclados, foi outra das vertentes que procurou destacar. Com quase mil trabalhadores a Impetus tem uma faturação global da ordem dos 56 milhões de euros, 40% dos quais são obtidos com recurso ao private label (marcas dos clientes).

Grande preocupação com o ambiente e a economia circular tem, também, a Tapa Costuras, do grupo Brandbias, fabricantes de vestuário em malha com a certificação STeP, como produtora têxtil sustentável. Com 20 trabalhadores, a empresa maiata fatura perto de um milhão de euros, dos quais 85% nos mercados europeus. Aboliu todo o plástico da sua fábrica e procura reaproveitar todos os materiais, designadamente fazendo sacos de pano para a separação de lixo, produzidos a partir de desperdícios de matérias-primas. “Os recursos do planeta não são infinitos e a fast fashion tem que acabar, não podemos continuar a consumir assim”, diz Gonçalo Serra. Em março, a Tapa Costuras vai iniciar o processo de certificação GOTS (Global Organic Textil Standard), mas, o objetivo”é criar um dia uma marca própria que seja, verdadeiramente, circular, promovendo a recuperação das peças em fim de vida para serem recicladas”.

Já a P&R Têxteis, marca que opera no nicho de mercado da alta competição, sendo a fornecedora de fatos para os Jogos Olímpicos desde 1996, levou a Munique o fato da seleção de rugby África do Sul que produziu para o 100º aniversário do nascimento de Nelson Mandela, em 2018. Uma edição especial limitada, “que esgotou em poucas horas”, garante Nuno Pinto, fundador e acionista da empresa de Barcelos. Com 220 trabalhadores e uma faturação anual que ronda os 15 milhões de euros, a P&R investiu recentemente quatro milhões de euros na remodelação das suas instalações, duplicando a sua área produtiva. Fornecedora de marcas como a Adidas, a Asics ou a Le Coq Sportif, entre outras, a P&R produz fatos para ciclismo, atletismo, remo e outros desportos aquáticos. Em preparação estão, já, os fatos para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, e mesmo os primeiros desenvolvimentos, admite Nuno Pinto, para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Razões do sucesso? “Uma base de trabalho árduo, muita persistência e muito trabalho em equipa. E, claro, um relacionamento muito próximo, de grande lealdade, com os nossos principais clientes e que nos incentivam, continuamente, a inovar. Porque, como se costuma dizer na P&R, innovation is a team sport“, diz Nuno Pinto.

Dos 22 prémios que as empresas de têxteis portugueses arrecadaram na edição de 2019 dos ISPO Textrends, concurso que pretende destacar as inovações de futuro, a A. Sampaio ganhou 11, dois dos quais incluídos no top 10 da respetiva categoria e ambos com uma grande preocupação na vertente da sustentabilidade. Algo em que a empresa de Santo Tirso, que dá emprego a mais de 190 pessoas e fatura mais de 20 milhões de euros, vem apostando já há mais de uma década, garante João Mendes, da terceira geração na A. Sampaio.

A combinação de Seaqual, um fio poliéster reciclado que incorpora resíduos de plástico recolhidos no fundo do mar, com lã orgânica permitiu à A. Sampaio desenvolver uma malha que promove a transferência de humidade do interior para o exterior, assegurando um “isolamento térmico excelente” e propriedades mecânicas para “promover a durabilidade, a elasticidade e a resistência”. O outro produto premiado foi uma malha com 72% de algodão orgânico e que incorpora, também, poliéster reciclado Seaqual. E embora as suas malhas se destinem a algumas das grandes marcas de desporto internacionais, João e Miguel Mendes recusam nomeá-las, por razões de confidencialidade. Tal como não indicam quais as forças de segurança na Europa cujas fardas são produzidas com materiais da A. Sampaio, garantindo, apenas, que são várias, desde polícias a militares. Aliás, o crescimento das vendas na área do vestuário de proteção e segurança levou a empresa a criar uma linha específica que designou de Protection +. Crescer nos Estados Unidos e Canadá, “sem nunca descurar o mercado europeu”, é a sua grande aposta.

Também a LMA, de Santo Tirso, tem um grande foco no segmento do vestuário de proteção, participando com o Exército Português e a Universidade do Minho, no projeto AuxDefense, com vista ao desenvolvimento de estruturas têxteis que permitam ter um índice de dissipação de energia muito elevada, destinados à produção de coletes à prova de bala, mas não só. Das dez áreas de atuação da LMA, destaque, ainda, para o desenvolvimento de estruturas têxteis com fios condutores incorporados e extremidades sensoriais que permitem a monitorização das funções vitais do corpo. Com 50 trabalhadores e uma faturação da ordem dos nove milhões de euros (dados de 2017), a LMA tem, também, um grande foco na sustentabilidade. Na ISPO de Munique, a empresa teve vários produtos premiados, como o seu tecido de poliéster reciclado à base de plásticos recolhidos no mar, o Seaqual, e ao qual juntou uma película de cortiça, que lhe assegura propriedades ao nível da respirabilidade e da absorção de choque e ruído. Em estudo estão novos investimentos, mas que a LMA não desvenda, para já.

A funcionalização de tecidos e malhas é uma das principais mais-valias no segmento de desporto e a Smart Inovation tem uma tecnologia patenteada em 147 países, produzindo, designadamente, soluções antibacterianas, antifúngicas, de repelência aos mosquitos, e de neutralização de odores, sem recurso a metais. Com uma capacidade instalada para produção de 100 toneladas ao mês, a empresa pretende faturar, este ano, 1,4 milhões. Vende para vários países europeus e africanos, mas pretende descentralizar a produção para a Índia, a partir do verão, de modo a tornar-se “mais competitiva”, diz Mário Brito. “As grandes multinacionais produzem na Índia, mas os custos alfandegários inviabilizam o negócio, por isso temos uma parceria estratégica com uma entidade local que vai produzir e distribuir na Índia”, explica. Segue-se o Brasil, logo que as autoridades locais aprovem o registo do produto.

Estreante na ISPO foi a Ropar. A empresa de calçado de Vila do Conde levou à feira de Munique as suas sabrinas da Easy Walk Experience, um “calçado de conforto, mas trendy, e que segue uma tendência desportiva”, que pretende fazer vencer no segmento de outdoor. A localização na feira “não foi a melhor”, mas, mesmo assim, “a recetividade foi grande”, diz Elio Parodi, o responsável da empresa. A marca recebeu manifestações de interesse de potenciais compradores do Chile, de Hong Kong, da Argentina, Brasil, África do Sul e Nigéria.

Dividir para reinar o que se propõe fazer a Gulbena, em associação com um parceiro italiano. “Temos um projeto que estamos a estudar e que, ssr avançar, será feito em regime de joint venture com parceiro italiano. Estamos a estudar uma candidatura ao Portugal 2020, que poderá chegar aos cinco milhões de euros”, explica Rui Teixeira, CEO do grupo . O empresário não avança com pormenores, garantindo, apenas, que o objetivo é aumentar a capacidade e juntar novas valências ao que o grupo já faz. “Somos empresas complementares e a ideia seria sermos a porta de entrada dos parceiros italianos em Espanha e Portugal e eles a nossa porta de acesso a Itália”, refere. A decisão será tomada “até ao final do ano”, estando já definido que, se avançar, o projeto implicará a construção de mais uma fábrica que criará, numa primeira fase, 35 postos de trabalho. “Tudo tem que ser meticulosamente estudado para ver se há, ou não, viabilidade para fazermos algo diferente e fora do que é a cultura dos portugueses, em que todos olham é para o seu umbigo. Queremos crescer e se, para isso, for preciso dividir para reinar, é o que faremos”, frisa. A sustentabilidade é outra das grandes apostas do grupo, que procura utilizar fibras recicladas e materiais com baixo impacto para o ambiente, e teve vários dos seus desenvolvimento premiados na ISPO, designadamente uma malha sustentável produzida a partir de algodão orgânico com Lyocel, uma fibra de origem vegetal, ou uma outra produzida a partir de poliéster reciclado com elastano, que concede ao material características compressivas e com grande potencial para o fabrico de vestuário de desporto.

Empresa de cariz familiar, sedeada em Fafe, a Gulbena dá emprego a mais de 100 pessoas e fatura sete milhões de euros. Grupo verticalizado, incorpora marcas como a Imprimis, especializada em estamparia digital de tecidos e malhas, a Corporalys, que produz tecidos e malhas com funcionalidades técnicas, e a Bergand, a unidade de confeções que dá corpo à peça final. Conta, ainda, com a TTTTech, que assegura a tinturaria e acabamentos. Trabalha em regime de subcontratação (private label) e não quer ter marca própria. “Somos uma empresa industrial, acreditamos que é um erro ter uma marca. Se a quiséssemos ter teria de ser fora do universo industrial, mesmo que tirando partido de todas as sinergias do grupo”, diz Rui Teixeira, CEO da empresa. Inditex, Hugo Boss ou H&M são alguns dos seus clientes na área da tinturaria. Já na estamparia digital fornece marcas como a Moschino ou a Armani, e, através da Corporalys, fornece os tecidos e malhas para o fardamento de empresas como a VW, a BMW ou a Zeiss. Quanto à Bergand, fornece clientes de nicho. A modernização tecnológica tem sido uma das grandes apostas do grupo que, só nos últimos seis anos, investiu cerca de seis milhões de euros em novos equipamentos, metade dos quais na área da estamparia digital.

A aposta crescente das empresas portuguesas nos têxteis com elevada tecnicidade – aquilo a que vulgarmente se chama de têxteis técnicos, embora esta seja uma designação referente às aplicações para indústrias como a automóvel ou a construção – é patente no crescimento das presenças nas feiras mais técnicas, como a ISPO, mas, também, a TechTextil, a Medica ou a Automotive Interiores. Em 2010 havia 15 empresas a participar, este ano deverão ser 70. E a Selectiva Moda alerta que não estão contabilizados, ainda, neste números os participantes na Outdoor by ISPO, a Medica ou a Automotive.

Os dados dos centros de investigação ajudam, também, a perceber esta evolução: desde 2008, o volume de vendas do Centi passou de um para oito milhões de euros, com um peso muito relevante das aplicações que envolvem têxteis, enquanto no Citeve a componente de investigação e desenvolvimento “mais do que duplicou para oito milhões de euros”, diz o presidente das duas instituições. Braz Costa lembra que grande parte das funcionalidades dos têxteis para desporto têm, também, aplicação na área da defesa e da proteção pessoal, e sublinha que, este ano, está a ser preparada a presença de uma delegação de empresas portuguesas a uma feira de relevo deste sector. “Não está, ainda, definida qual, mas este ano iremos a uma das maiores. Se conseguirmos ter uma boa representação com cinco empresas ficaremos muito satisfeitos porque o exemplo funciona e ajuda a alargar a base”, frisa. Recorde-se que se estima que os têxteis de elevada tecnicidade representem já mais de 30% do volume de negócios da empresa, ou seja, mais de 2,2 mil milhões de euros.

O grande ‘elefante no meio da sala’ desta edição da ISPO foi a Berg Outdoor. A marca de artigos de desporto e outdoor da Sonae que o grupo liderado por Paulo Azevedo decidiu “descontinuar”, em dezembro, a poucos dias do Natal, rescindindo contrato com uma série de trabalhadores, tinha um stand já pago na feira, mas cancelou a sua presença. O espaço de 100 metros quadrados acabou por ser ocupado pela Selectiva Moda que aí instalou o fórum From Portugal, com uma mostra de artigos das empresas presentes nos outros pavilhões. Mas mesmo sem estar presente, a Berg Outdoor arrecadou dois prémios: as botas Sordo, 100% biodegradáveis, foram selecionadas como Produto do Ano na categoria Urban, e o casaco Gerês, da Linha Gravidade Zero, produzido a partir de um material 100% reciclado a partir de desperdícios recebeu um ISPO Gold Award na categoria Outdoor. Em Munique estiveram alguns colaboradores a receber os prémios, mas que se recusaram a falar à comunicação social. Questionado pelos jornalistas, Braz Costa, presidente do Citeve, lamentou a ironia desta “homenagem post-mortum”: “Tenho pena de ver desaparecer uma marca portuguesa que nasceu dentro de um grupo que sabe criar e dar expressão a marcas. Todos lhe vaticinavam um futuro brilhante e desaparece de uma forma que eu não consigo compreender”.

* A jornalista viajou a convite da Selectiva Moda

 

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