Coronavírus

Procura de bens essenciais dispara e fábricas reforçam produção ao limite

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Há milhares de trabalhadores a operar diariamente para manter o abastecimento de arroz, conservas, massas ou especiarias aos supermercados

O aumento de consumo de bens essenciais devido ao isolamento social dos útimos tempos leva a que haja mais solicitações às fábricas que, por estes dias, reforçam a sua produção ao limite das capacidades. A Mundiarroz, de Coruche, está a laborar em três turnos, para aumentar a capacidade expedidora; na Cerealis, que produz bolachas, cereais de pequeno almoço, massas e farinhas, a procura em algumas categorias “supera o dobro do normal” e os funcionários administrativos até dão uma mão nas linhas fabris sempre que necessário; e a Poveira alargou o período normal de laboração em mais duas horas, começando às 5h00, em vez das 7h00, para assegurar que nada falta no mercado. Manter as estruturas operacionais é a prioridade, garantindo sempre a segurança e a saúde dos funcionários.

A implementação de turnos estanques, em que ninguém se cruza com ninguém fora do seu grupo de trabalho, foi a estratégia implementada pelas várias empresas, tentando assegurar que, se houver um funcionário infetado com o novo coronavírus, tal não obrigue ao encerramento completo das unidades. As medidas de controlo foram reforçadas – há quem meça a temperatura a todos os funcionários diariamente -, bem como o uso de equipamentos de proteção. E vão trabalhando intensivamente para abastecer os supermercados e as despensas dos portugueses.

Com 250 trabalhadores, A Póveira, dona das conservas Minerva, Lapa e Capitão Poveiro, reforçou a sua produção em cerca de 50% logo na semana de 9 de março: “Não tanto para responder à procura imediata, porque tínhamos stocks, mas para assegurar a contínua capacidade de resposta. Sabemos que em períodos de crise, o consumo de conservas dispara e contamos que a procura se mantenha acima da média até ao verão, designadamente nos mercados internacionais”, diz Sofia Brandão, responsável de mercados externos e de marketing da empresa da Póvoa de Varzim. Com uma faturação de 24,3 milhões, A Poveira destina cerca de 40% à exportação, em especial para os EUA, Áustria, Alemanha e Itália. E continua a exportar, sem limitações. “O nosso maior desafio é conseguir continuar a trabalhar a este ritmo, garantido a completa segurança e saúde dos nossos trabalhadores, é isso que nos preocupa todos os dias”, frisa Sofia Brandão.

Na Cerealis, dona da Nacional e da Milaneza, entre outras, a procura em algumas categorias “supera o dobro do normal” e o grupo está a assegurar, nos seus cinco centros de produção (Maia, Porto, Trofa, Coimbra e Lisboa), mais de 700 mil embalagens de massa por dia, a que se juntam 220 mil embalagens de cereais de pequeno-almoço, 110 mil de bolachas e 140 mil de farinhas. Além das 950 toneladas por dia de farinhas industriais. No total, saem das fábricas da Cerealis mais de 150 camiões todos os dias. “Sendo uma indústria de laboração contínua, em que, habitualmente, laboramos a três turnos, estamos a recorrer aos fins de semana para responder a este pico de procura”, explica Graça Amorim, administradora do grupo. As fábricas funcionam em três turnos, que nunca se cruzam, havendo sempre uma equipa em casa em períodos de cinco dias.

“Na Cerealis estamos conscientes da responsabilidade que temos na manutenção do fornecimento de alimentos essenciais à alimentação diária dos consumidores. Nas últimas semanas temos vindo a responder a uma procura extraordinária. Nenhuma empresa está preparada para, de repente, responder a uma procura que, em algumas categorias supera o dobro do normal”, refere esta responsável.

Toda a operação foi redesenhada, à luz da necessidade de garantir a segurança dos colaboradores, com a implementação de um plano de contingência, e a máxima eficiência industrial. “Esta gigantesca operação só tem sido possível graças à disponibilidade dos nossos fornecedores de matérias-primas, de material de embalagem e dos operadores de transportes rodoviários. E claro, com a incrível adesão das centenas de trabalhadores do grupo que, diariamente têm vindo a garantir a descarga dos cereais, a produção, embalamento, expedição dos produtos, controlo de qualidade, implementação e controlo das medidas de higiene e segurança, assim como dos voluntários das áreas administrativas que nos têm ajudado nas operações sempre que temos vindo a necessitar”, destaca, ainda, Graça Amorim.

Com uma faturação de 210 milhões de euros em 2019, o grupo Cerealis destina, em condições normais, 25% dos seus produtos de grande consumo à exportação. Está presente em mais de 40 mercados, com especial destaque para Espanha e os países africanos de língua oficial portuguesa. Na atual conjuntura, continua a exportar, “mas com um ritmo menor, devido às restrições que existem na cadeia logística, agravadas com as greves no sector portuário em Lisboa e Setúbal, que são completamente inadmissíveis nesta altura, agravando ainda mais um cenário potencial de crise económica que se adivinha no pós-covid-19”, considera a administradora da Cerealis.

Graça Amorim está, ainda, preocupada com o abastecimento de equipamentos de proteção para os colaboradores, cujo stock terá, em breve, de renovar. “Este é um elemento fundamental para que a nossa capacidade de resposta se possa manter. Com o comércio internacional com fortes restrições, a manutenção da oferta nacional de produtos alimentares é crucial”, frisa.

Na Mundiarroz, de Coruche, a produção de arroz embalado está 35% acima do ano passado, “mas os pedidos são 60 ou 70% mais, eu é que não posso vender mais, porque tenho a fábrica a funcionar em capacidade máxima”, diz o diretor geral da empresa, João Potier. A fábrica conta com 50 trabalhadores que estão a trabalhar de segunda a sexta e aos sábados, sempre que é preciso. “Os trabalhadores estão muito recetivos a colaborar neste esforço. E tomámos todas as medidas possíveis e impossíveis para garantir a segurança de todos”, frisa. Manter a covid-19 “fora do universo da Mundiarroz” é o seu maior desafio, a par da necessidade de “fazer face ao acréscimo de pedidos sem comprometer a sustentabilidade económica, ambiental e de segurança dos trabalhadores”.

Na Navires, a fábrica de Vila Nova de Gaia onde as especiarias da marca Suldouro são embaladas, trabalho não falta: em vez dos três turnos habituais, a Navires agrupou os 30 trabalhadores em duas equipas, que trabalham das 9h00 às 18h00, e que trocam entre si, trabalhando uma semana e pausando outra. “Esta situação vai durar meses e a nossa prioridade e o nosso compromisso é conseguir que as pessoas levem o seu ordenado completo para casa todos os meses”, diz José António Brito, responsável da empresa.

O plano foi combinado com os próprios trabalhadores que sabem que, quando a normalidade for reposta, terão de dar dias para compensar o tempo que estão agora em casa. Todos concordaram. “Até agora tem corrido tudo bem. Ainda passou pouco tempo – começamos com isto a 16 de março -, mas já fizemos esta rotação três vezes”, explica.

O lay-off não está em cima da mesa na Navires. “Entendemos que tínhamos que nos valer a nós próprios, com o que temos, e tentar manter toda a gente animada enquanto pudermos. Claro que estamos assoberbados porque, para todos os efeitos, estamos a trabalhar só com metade das pessoas, mas temos o compromisso, com os nossos clientes, de procurarmos fazer o melhor que podemos para entregar a mercadoria o mais rápido possível, mesmo que isso implique uma falha numa ou outra referência… e procuramos, assim, dar confiança aos nossos fornecedores de que iremos continuar a manter os pagamentos direitinhos”, afiança o empresário.

O objetivo é aguentar a empresa, sem perder capacidade produtiva, durante os três ou quatro meses necessários, espera-se, para que a normalidade seja reposta. De lado ficam os planos de ampliação das instalações e de compra de novos equipamentos em que ia aplicar mais de meio milhão de euros. “As empresas existem para dar lucro, naturalmente, mas, também têm uma grande responsabilidade social. E enquanto tivermos encomendas, a nossa obrigação é continuarmos a trabalhar e ir ajustando tudo à medida que a situação evolua. Estamos a navegar à vista, não há plano que nos salve”, frisa.

A laborar em pleno está, também, o grupo Cofaco, que detém a marca Bom Petisco, entre outras. “As empresas do grupo Cofaco têm vivido com natural apreensão os atuais tempos, cientes de que operam num sector de atividade que tem de continuar a garantir a demanda dos seus clientes”, diz o administrador, Carlos Mota. Com mais de 400 trabalhadores, o grupo “continua a respeitar os planos de produção”, sendo que, nas últimas semanas se assistiu a “um aumento das solicitações de fornecimento” por parte das cadeias de distribuição. E, até ao momento, o abastecimento de matéria-prima não tem sido um problema, embora, o se assista a um aumento, à escala mundial, do preço do pescado.

“Dentro do quadro de anormalidade que assola o quotidiano das últimas semanas, a Cofaco procura manter a sua atividade do modo mais normal possível, assegurando a produção e fornecimento das suas conservas, e adaptando o seu dia-a-dia às recomendações das entidades administrativas e de saúde”, promete este responsável.

Mas por detrás de cada fábrica de produtos alimentares há uma série de outros fornecedores que continuam a trabalhar em força para que tudo chegue à mão do consumidor nas melhores condições. É o caso da Gepack, fabricante de embalagens PET premium para a indústria farmacêutica e alimentar, e que dá emprego a 120 pessoas em Aveiras de Cima. Com uma capacidade para produzir 190 milhões de embalagens ao ano, a Gepack é uma das empresas que registou um aumento de procura devido à pandemia.

“O desafio é que tivemos de mandar trabalhadores para casa e temos um nível de produção superior ao normal”, diz Lígia Passos, responsável de operações. Motivar as pessoas e ajudá-las a sentirem-se confiantes tem sido outro dos desafios, porque “as pessoas são o ingrediente que faz a diferença aqui dentro. É viver um dia de cada vez”.

O plano de contingência foi implementado já há algumas semanas, limitando o acesso à fábrica. Os trabalhadores são sujeitos a rastreio à entrada, além de terem sido implementadas medidas adicionais de desinfeção. A relação com os produtores e as transportadoras “é de grande proximidade”, o que tem ajudado. “A cooperação é fundamental”, defende.

* Com E.T.

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