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Têxteis técnicos. Portugal na liderança da inovação

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Foram quase 40 as empresas portuguesas presentes na Techtextil, a mais importante feira internacional de têxteis técnicos, que este mês decorreu em Frankfurt, na Alemanha. Conheça aqui algumas das inovações que Portugal levou à capital da inovação têxtil no mundo

Sedacor – Quem disse que a cortiça não podia ser fiada?
A cortiça foi a grande estrela da edição de 2019 da Techtextil, arrecadando um dos sete prémios de inovação da feira. O cork-a-tex, um fio de algodão revestido a cortiça, desenvolvido pela Sedacor e pela Têxteis Penedo, em parceria com o Citeve, venceu o galardão na categoria de Novo Material. “Quando quis colocar cortiça em têxteis disseram-me que era impossível. Afinal, a minha loucura é positiva e nada melhor do que um prémio como este para demonstrar as potencialidades da cortiça”, diz Albertino Oliveira, da Sedacor. A prova-lo está o facto do novo fio, que começará a ser produzido, de forma industrial, a partir de setembro, ter sido responsável por um terço dos visitantes que passaram pelo stand da empresa de São de Oleiros. A primeira fábrica portuguesa no mundo a fazer fio de cortiça vai ficar em Guimarães, perto da Têxteis Penedo, e é um investimento conjunto das duas empresas.

A Sedacor apresentou, ainda, em Frankfurt a sua vasta gama de tecidos de cortiça, sob a marca cork ’n rol, para as indústrias do calçado, da moda e do mobiliário. “Numa altura em que a sustentabilidade é uma questão cada vez mais relevante, esta é a nossa oferta de pele vegetal. A cortiça tem o dobro da resistência das peles à abrasão como permite a impressão digital”, Albertino Oliveira. Um sofá e quatro cadeiras forradas a cortiça atestavam as potencialidades do material no domínio da decoração.

Têxteis Penedo – E se uma almofada pudesse ser uma cama?
Também no stand da Têxteis Penedo, o cork-a-tex esteve em lugar de destaque. Xavier Leite, presidente da empresa de Guimarães, destacou o interesse que o inovador fio suscitou já junto das indústrias da moda, automóvel e até da aviação. “A junção da cortiça ao algodão confere ao fio propriedades extremamente valiosas”, reconhece, destacando a sua enorme resistência, o isolamento térmico e a capacidade retardante ao fogo.

O Pillow2Bed foi outro dos produtos inovadores que a têxtil de Guimarães teve em exposição, este desenvolvido individualmente. “Quisemos arranjar uma solução de mobilidade que ajudasse a simplificar o acolhimento de um visitante, desenvolvendo uma almofada decorativa que se transforma numa cama”, explica Agostinho Afonso, administrador da empresa. Apresentado pela primeira vez numa feira, o Pillow2Bed gerou grande interesse entre os visitantes. Tem incorporado um colchão antiderrapante.

O photofabric foi outra das inovações que apresentou. A empresa consegue transformar qualquer fotografia, com um mínimo de 300 dpi, num tecido jacquard em algodão, de decoração. Permite, por exemplo, decorar uma parede com uma imagem de grande nitidez.

Coltec com colchão inovador para a área hospitalar
A Coltec, empresa especializada em laminação têxtil, colagens e revestimentos com termo-adesivos e autoadesivos, designadamente para as indústrias dos têxteis-lar e automóvel, desenvolveu um colchão inovador para a área hospitalar, com sistema de monitorização integrada para doentes acamados. O novo colchão, desenvolvido em parceria com o Citeve e o CENTi, “tem um sensor integrado que monitoriza o tempo e a pressão a que está sujeito e emite um sinal de alerta caso o doente esteja demasiado tempo numa mesma posição”, explicou ao Dinheiro Vivo Paulo Neves, presidente da empresa. O protótipo foi apresentado na Techtextil e a Coltec procura um investidor que queira ajudar a industrializar este produto, que, em breve, estará devidamente patenteado.

A empresa de Guimarães, que vai já na segunda geração, nasceu como produtora de entretelas, forros e espumas para a indústria do calçado, mas foi a partir de 2003 que começou a trabalhar os têxteis técnicos, primeiro centrada nos têxteis-lar, com o fabrico de protetores de colchão, toalhas plastificadas e tecidos para estores opacos (os chamados blackout’s), e, mais recentemente, com vista à indústria automóvel. Desde 2017, a empresa investiu quase cinco milhões de euros, tendo triplicado a área produtiva, aumentado o departamento de investigação laboratorial e comprado diversos equipamentos piloto para testes em áreas diversas, designadamente na laminação e extrusão. Com 42 trabalhadores, a Coltec fatura 5,3 milhões. Praticamente tudo o que produz é para o mercado externo.

LMA – Malhas que protegem das radiações eletromagnéticas
Respirável, impermeável e termo-regulador. Estas são as três características que a LMA juntou num único substrato têxtil para que seja usado em coberturas de colchões. O Thermic foi a novidade que a empresa de Rebordões, Santo Tirso, apresentou na feira de Frankfurt, uma inovação desenvolvida em parceria com um laboratório inglês. O pedido partiu de um fabricante nórdico de colchões, que procurava uma cobertura que permitisse uma forte circulação do ar, essencial para pessoas acamadas, mas, também proteção em caso de incontinência, assim como um tecido que aquece quando está frio ou que refresca quando está calor.

Apresentado pela primeira vez na Techtextil, o Thermic teve “muito boa recetividade”, com vários potenciais clientes interessados. O tecido pode, ainda, ser enriquecido com novas funcionalidades, como a proteção antiácaros, antibacteriana e as propriedades cicatrizantes. Outra das novidades apresentadas pela LMA foi a malha que criou com efeito barreira contra radiações eletromagnéticas, desenvolvida, também, a pedido de um cliente nórdico. Neste caso, o objetivo era dar resposta às preocupações suscitadas pelos estudos médicos que indicam que o uso do telemóvel no bolso das calças é responsável pelo aumento do risco de infertilidade masculina. A nova malha destina-se ao fabrico de roupa interior masculina, mas não só. Pode ser usada, explica Manuel Barros, diretor executivo da LMA, nos bolsos dos casacos para proteção das radiações eletromagnéticas nos utentes de pacemakers.

Lipaco – Fios com partículas de vidro para coletes refletores
Na Lipaco, a grande novidade no Techtextil foram os fios reciclados e biodegradáveis certificados, produzidos a partir de garrafas de plástico. Aliás, com a A. Sampaio e a Têxteis Penedo, foram as únicas empresas portuguesas integradas no diretório sustentável da feira, um quadro de honra criado pela primeira vez este ano, com 47 empresas, e elaborado a partir da seleção de um conjunto de especialistas internacionais. “A sustentabilidade começou por ser um tema na moda, mas hoje é uma obrigatoriedade, uma questão de consciência para todos nós”, diz Jorge Pereira, presidente da empresa de Esposende, que fatura cerca de 2,5 milhões de euros, dos quais cerca de 10% neste tipo de produtos. “É uma tendência crescente. Começamos o ano passado, mas acreditamos que, dentro de dois anos, os reciclados e biodegradáveis vão valer 40% das nossas vendas. Até porque há muitos setores novos a consumir reciclados, desde a área médica, ao setor automóvel, passando pela moda, pelo desporto e pela indústrias mais pesada, como a segurança”, frisa.

E a oferta da Lipaco neste domínio é variada, incluindo fios resultantes do reaproveitamento de desperdícios de várias indústrias. Os resíduos de madeira, por exemplo, renascem como um fio que, à primeira vista, parece um algodão normalíssimo. Mas um dos maiores sucessos da Lipaco em Frankfurt foram mesmo os fios refletores, produzidos com partículas de vidro, muito procurados pelas áreas do desporto e do vestuário de trabalho. Em atividade há 32 anos, a Lipaco é uma empresa familiar que nasceu como produtora de linhas de costura, área de negócio que hoje vale 40%, tanto como a dos fios. Tem, ainda, uma atividade de prestação de serviços de tinturaria e acabamentos a fios de terceiros. Dá emprego a 55 pessoas e exporta 40% da sua produção para mercados como a Alemanha, Inglaterra, França, Rússia, Tunísia e Colômbia. Fornece, direta e indiretamente, grandes nomes da moda mundial, como Hugo Boss, Fred Perry, Inditex, Adidas, Nike, Benetton ou Next.

Fitexar apresentou a sua Ecofibers
A Têxtil António Falcão nasceu como produtora de collants para senhora, mas, a necessidade de se assumirem como um grupo vertical, levou à entrada na produção de fios. Hoje, esta área de negócio é da responsabilidade da Fitexar, outra empresa do grupo, e produz fios técnicos em poliamida e poliéster para os segmentos de moda, desporto, saúde, trabalho e calçado. A área de reciclados foi englobada, pela primeira vez, há três anos, em resposta à procura dos clientes, e hoje a Fitexar criou já uma marca só para esse segmento de negócio, os Ecofibers, que apresentou, pela primeira vez, na Techtextil. A empresa está a produzir fibras a partir de materiais reciclados, designadamente de garrafas recolhidas do mar.

Com uma produção da ordem das 300 toneladas de fios por mês, os reciclados representam 10% das vendas da empresa, mas “com tendência para crescer”. Recentemente, uma jovem blogger inglesa lançou a sua própria marca de vestuário para desporto e escolheu as Ecofibers da Fitexar para a sua coleção. “Vendeu 13 mil peças em 20 minutos, cada uma delas ostentando a indicação de Made in Portugal e com a respetiva etiquea Ecofibers. O sucesso foi tal que já nos duplicaram a encomenda”, diz António Falcão.

ERT – Desperdícios de solas transformados em laminados que parecem cortiça
Com a sustentabilidade na ordem do dia, o grupo ERT resolveu aproveitar os desperdícios da sua fábrica de chinelos e pantufas, onde produz cerca de um milhão de pares ao ano, para criar o BioEva. Os desperdícios das solas de borracha são triturados e transformados em blocos ou laminados em folhas de diferentes espessuras, que chegam a parecer cortiça, “muito apreciados por arquitetos, designers e pelas indústrias de componentes para calçado”, explica Fernando Merino, diretor geral do grupo de São João da Madeira que fatura cerca de 120 milhões de euros e dá emprego a mais de 1100 pessoas. O BioEva tem uma grande capacidade de absorção ao impacto, além de ser leve e resistente. Faz grande sucesso no mercado norte-americano.

Embora os têxteis técnicos para a indústria automóvel assegurem 85% das vendas do grupo, que conta com fábricas em Marrocos, na República Checa e na Roménia, e esteja a estudar a abertura de unidades no México e na China, o grupo ERT apresentou-se em Frankfurt apenas com os seus produtos para os setores não-automóvel, que está a concentrar sob a designação W-Tex – Working with Layers, na sua unidade de Felgueiras, criada para abastecer o negócio do calçado na região, mas, também, com o objetivo de “investir em novas tecnologias para dar resposta a outras indústrias, como a do vestuário, do desporto, dos têxteis-lar e da construção”. Com a Polisport, de Oliveira de Azeméis, e com o apoio do Citeve, está a desenvolver um processo inovador de injeção de plástico sobre têxtil para a criação de coletes de proteção para motociclistas ou para estofos de cadeiras para transporte de crianças em bicicletas.

Cordex – Dos fios de sisal ao filme estirável para a agricultura
Também a Cordex marcou presença em Frankfurt, com a sua oferta de multi-filamentos para redes de segurança, para fabricantes de cintas têxteis e para a indústria de filtros e com monofilamentos para aplicação em tecidos geotêxteis. A grande novidade foi a inclusão do filme estirável agrícola na sua gama de produtos, destinado a assegurar a manutenção da qualidade no armazenamento dos fardos de forragem, tornando-se, assim, “o único fabricante agrícola a cobrir a gama total, desde os fios de sisal, passando pela rede agrícola, ao filme estirável”, diz o diretor de vendas, Nuno Vitó.

O segmento de cordoaria contribui com 90 milhões de euros para a faturação total do grupo, na ordem dos 220 milhões, sendo que 75% das cordas que fabricam se destinam ao segmento agrícola. Os Estados Unidos são o maior mercado de exportação deste grupo familiar que dá emprego a 800 pessoas, 550 das quais na cordoaria.

 

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