Web Summit 2018

Um dia com Carlos Moo-eh-dash, o Comissário da Web

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Deu entrevistas e apertos de mão. Entregou um milhão de euros e conheceu o criador da internet. O DV acompanhou o Comissário Europeu na Web Summit

O momento é ensaiado nos bastidores. Faltam cinco minutos para entrar em palco quando Carlos Moedas percebe que não tem à mão as notas que preparou. Exige lê-las outra vez, não vá o teleponto do palco principal da Web Summit falhar na hora H, como aconteceu na inauguração do evento ao primeiro-ministro, António Costa. “Mas ele safou-se bem”, comenta.

São 10h45 da manhã e o Comissário Europeu para a Ciência e Inovação está prestes a anunciar, perante uma plateia de 20 mil pessoas, a capital europeia da inovação em 2019. Ganhou Atenas, que levou um milhão de euros para a Grécia. Lisboa caiu pelo caminho. Ficou satisfeito? “Sim, fiquei emocionado, porque sei as dificuldades que eles passaram. Sofreram muito, e ainda sofrem. É claro que gostaria que… bem, não posso dizer o que gostaria”.

Carlos Moedas aterrou em Lisboa no dia anterior. Chegou ao Parque das Nações às 07h45, quando ainda era possível caminhar pelos pavilhões da FIL sem dar um encontrão num empreendedor. Despachou uma, duas, três entrevistas, antes do segundo café. “Estes dias são estranhos, chega-se à noite e sente-se um cansaço acumulado que parece que nos espremeram. Esta semana vai ser dramática”, revela. Depois de Lisboa, o Comissário tinha o check in feito para Bruxelas para, no dia seguinte, voar para Helsínquia e 24 horas depois aterrar em Madrid e voltar, no fim, à casa de partida: Bruxelas. “Sei que vou chegar ao final da semana sem saber o que fiz na terça-feira. Mas nem todas as semanas são assim. Preciso de dias mais calmos, para ler documentos e ter reuniões”.

“Gosto muito deste mundo”
Na agenda segue-se um direto no Facebook para anunciar o prémio de inovação feminina, uma das causas que haveria de repetir ao longo do dia. O evento discreto decorre no ainda mais discreto stand da Comissão na Web Summit, que este ano, de propósito ou não, ficou lado a lado com o pavilhão do Reino Unido. Moedas tem de ser arrancado pelo staff às selfies e apertos de mão para seguir para o próximo compromisso.

Na terceira e última Web Summit em que participa como Comissário Europeu, o evento ainda lhe reserva surpresas. “Gosto muito deste mundo. Claro que venho para aqui com um chip, sabendo de antemão o que tenho de fazer, como é normal nestas conferências. Mas acontece sempre algo de diferente. Ontem, por exemplo, emocionou-me muito o discurso do Tim Berners Lee”. Não tinham passado 30 segundos quando, no caminho que separa a FIL da Altice Arena, o criador da World Wide Web cruza o caminho de Moedas.

Carlos Moedas encontra Tim Berners-Lee (Filipe Amorim / Global Imagens)

Carlos Moedas encontra Tim Berners-Lee
(Filipe Amorim / Global Imagens)

De todas as mãos que apertou naquele dia, aquela foi especial. “Foi um bom momento porque estávamos mesmo a falar nele. Ele reconheceu-me e achei piada porque é um ícone. Ele está a criar um contrato para melhorar a internet e eu gostava de explorar isso na UE”, haveria de confessar ao final do dia. Do encontro saiu uma promessa: “Let’s keep in touch” (vamos ficar em contacto).

De Bruxelas para a Web
Foi pela mão de Carlos Moedas que Paddy Cosgrave foi nomeado conselheiro da Comissão Europeia para a inovação. A boa relação entre os dois, espelhada nos minutos em que nessa tarde percorreram lado a lado um dos pavilhões dedicados às startups, não foi, no entanto, decisiva para a cimeira ficar em Lisboa por mais dez anos. “Fiquei muito contente, o que se retira para Portugal é bastante superior aos custos. E sim, cheguei a falar com ele, disse que gostava que ficasse, mas foi só. Não havia nada que pudesse fazer”.

 (Filipe Amorim / Global Imagens)


(Filipe Amorim / Global Imagens)

No dia que passou na Web Summit, e que o Dinheiro Vivo acompanhou de perto, Carlos Moedas nunca trocou a pele de Comissário pela de português. Diz que a missão assim o obriga. “Os cidadãos não conhecem aquilo que fazemos por eles. A comunicação do que fazemos é uma discussão antiga, porque a Comissão Europeia foi construída para não comunicar e é preciso mudar isso. É para comunicar com as pessoas que apostamos na presença na Web Summit. Tem mais efeito entregar um prémio aqui do que numa sala em Bruxelas”, aponta, durante a pausa de dez minutos, reservada para um almoço que, de tão frugal, não chegou a sê-lo.

“Essa vamos twittar”
No teleponto de Paddy Cosgrave, que o apresenta antes da subida ao palco grande, o Comissário é Carlos Moo-eh-dash, não vá a pronúncia sair ao lado. Na “notícia” de um jornal satírico transforma-se em Carlos Bitcoins. “Essa vamos twittar, tem muita graça”, atira. No ecrã do smartphone é o “papá”, com sotaque francês, a quem a filha de 11 anos pergunta o que vai fazer com o cheque de un million de eurô que segura na fotografia. Explica que o dinheiro não vai para casa, em Bruxelas, mas para uns senhores na Grécia que receberam um prémio, e que só lhe coube a tarefa de entregá-lo. A resposta chega em segundos. “Ah, ok”.

 (Filipe Amorim / Global Imagens)


(Filipe Amorim / Global Imagens)

Carlos Moedas cumpre o último ano de mandato na Comissão Europeia, antes das eleições de 2019, mas ainda não preparou o discurso de despedida. E esquiva-se quando a pergunta é sobre o que vem a seguir. “Não há expetativas a não ser acabar o meu trabalho. Ainda falta um ano e há muito para fazer, porque quero acabar isto bem. Depois logo se vê. A vida leva-nos por caminhos desconhecidos e eu não gosto de pensar no futuro. Fiz o meu trabalho e deixo uma proposta para um programa de 100 mil milhões de euros, que é único e foi conseguido à custa de muito suor, lágrimas e esforço”.

Quando encontra por fim as notas que lhe permitem entrar no palco sem nervos, lança o mote para o futuro. “Nunca me assustei com palcos grandes, as audiências pequenas intimidam mais. Lembro-me sempre uma frase da Sarah Bernhardt. Uma vez, uma atriz que não era grande coisa disse-lhe: ‘nunca estou nervosa quando vou para o palco’. Ao que ela respondeu, ‘não se preocupe, isso virá com o talento’. E eu concordo plenamente”.

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