Gaspar lembra que bisavô de Ferreira Leite não quis pagar dívida

Vítor Gaspar
Vítor Gaspar

Vítor Gaspar recordou, num debate entre vários ministros das Finanças onde estava Manuela Ferreira Leite, que o bisavô da ex-ministra recusou um acordo com os credores no final do século XIX, precipitando a bancarrota e o incumprimento do país em 1892.

No Fórum das Políticas Públicas, que decorre no ISCTE, em Lisboa, Gaspar, um defensor acérrimo da ortodoxia monetária, que está em trânsito para um lugar de topo no FMI, fez críticas duríssimas ao antepassado de Manuela Ferreira Leite, sentada à sua frente no painel.

José Dias Ferreira, presidente do conselho de ministros na altura da bancarrota de finais do século XIX (de 1892 a 1893), foi, na opinião de Gaspar, quem espoletou o incumprimento soberano do país porque “Dias Ferreira rejeitou o convénio com os credores proposto por Joaquim Pedro Oliveira Martins [o ministro da Fazenda ou das Finanças na altura]”. “A resposta de Dias Ferreira foi que não se devia pagar”, atirou.

Na sequência de uma grave crise financeira, a bancarrota de Portugal haveria de acontecer em 1892. O governo cairia no ano seguinte.

Ironia da História, o ministro da Fazenda Oliveira Martins, que tanto fascina Gaspar, é o tio-bisavô de Guilherme d’Oliveira Martins, atual presidente do Tribunal de Contas.

Perante o olhar atento de Manuela Ferreira Leite, Vítor Gaspar recuou ainda mais, ao século XVIII, e lembrou que os fundamentos do bom crédito público foram original e “cristalinamente” sistematizados por Alexander Hamilton, o primeiro secretário de Estado do Tesouro dos Estados Unidos.

Gaspar contou que tem passado “os últimos meses” a estudar o pensamento deste personagem histórico pela importância que teve no estabelecimento de um Tesouro e de uma união monetária nos Estados Unidos.

Sobre a recente proposta do manifesto dos 74 a favor da reestruturação da dívida portuguesa, Gaspar disse “não posso e não quero comentar, mas vou dizer coisas”. E disse.

Referiu que as reestruturações vêm sempre acompanhadas de penalizações maiores para os devedores do que para os credores.

Por isso, “é possível fazer um paralelo com o tempo de Oliveira Martins” e “pensar que não se pode perceber a extensão dos desafios de Portugal isoladamente, é preciso perceber as políticas europeias”.

Gaspar diz estar convicto de que se Portugal fizer tudo como mandam as regras económicas e orçamentais europeias “durante as próximas décadas”, o país “terá condições para prosperar”.

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