matéria-prima

Gelados de baunilha com sabor a crise

(DR)
(DR)

Tempestade tropical em Madagáscar desequilibra mercado mundial da gelataria. Marcas portuguesas suportam custos para não afetar clientes.

É uma ilha no Índico, antiga colónia francesa, com um tamanho seis vezes superior ao de Portugal e o dobro da nossa população. Madagáscar tem um PIB per capita de 1.563 dólares, vive sobretudo da agricultura e é frequentemente assolada por tempestades tropicais. A mais recente, o ciclone Enawo, que varreu a ilha no passado mês de março, não agitou apenas os ventos da região. Provocou também um tumulto na economia global. É que Madagáscar é o maior produtor mundial de baunilha, com uma quota de 80% do mercado, e o Enawo, para além de ter provocado quase uma centena de mortos e milhares de desalojados, arrasou por completo a zona de Sava, onde se situam as plantações do produto, tendo destruído cerca de 30% das culturas.

“Prevemos ter uma colheita catastrófica este ano”, afirmou na altura Mamy Razakarivony, presidente do grupo de exportadores da baunilha do país, citado pela Reuters, temendo que as consequências da tempestade impactassem a qualidade da matéria-prima e provocassem flutuações acentuadas no mercado de consumo. Os resultados só se estão a sentir agora. E os receios confirmaram-se. Os preços da baunilha, como já era esperado, dispararam.

Em Portugal, algumas das maiores marcas de gelado estão a sentir os efeitos. Só que as flutuações do produto não são de agora. “Desde 2014 que temos assistido a um aumento gradual dos preços, mas os nossos fornecedores disseram-nos que era por causa da abertura do mercado aos chineses, que tinha feito aumentar a procura. De 60€/kg nesse ano passou a 260€/kg, que é o preço atual. No ano passado em julho, a escassez era tanta que nem conseguimos comprar baunilha. Se com os ciclones ainda piorar, não sei mesmo como vamos fazer”, lamenta Luisa Lampreia da Artisani, explicando ao Dinheiro Vivo que baunilha é o sabor com mais sucesso da marca e garantindo que aumentar os preços ao consumidor final está fora de questão. “Vamos ter que procurar alternativas. Já tentámos comprar noutros mercados, como o Taiti, mas não se compara. A vagem de Madagáscar é muito mais rica, maior e saborosa”.

Também os gelados Santini suportam sozinhos as flutuações dos mercados das matérias-primas, não deixando que as crises nos produtos afetem os preços que praticam. “Pagamos nós, claro. Já estamos habituados. A baunilha é muito volátil, ao mínimo problema sobe logo de preço”, conta Eduardo Santini. “Mas não é a única. Já tivemos a crise do chocolate, a crise do açúcar, a crise do ovo. Quando se trata de matérias-primas não há nada a fazer. Não procuramos alternativas, suportamos o preço e pronto.” E como se faz para que esta instabilidade não afete as contas da empresa? “Quando o mercado está abundante também não baixamos muito os valores”.

As marcas portuguesas vivem os mesmos desafios que as empresas do mundo inteiro. O Financial Times recolheu preocupações semelhantes juntos de vários responsáveis da indústria do setor. A cadeia britânica Oddono’s optou por retirar o sabor baunilha do seu cardápio, devido a “uma escassez sem precedentes”. Espera, no entanto, poder reintroduzi-lo ainda ao longo do ano, quando as plantações recuperarem da crise. A loja de gelados saudáveis Oppo viu os seus custos de produção duplicarem e teve que diversificar a sua carteira de fornecedores, para conseguir manter o preço ao consumidor final. Uma opção diferente da tomada pela Nestlé, que aumentou o valor dos gelados da marca gourmet Mövenpick em 2,5%. Já a Madécasse Chocolate & Vanilla aguarda que o mercado recupere e recue aos preços praticados há quatro anos. Por outro lado, houve empresas que se precaveram de antemão, antevendo a volatilidade do mercado, como a norte-americana JP Licks, que comprou stock suficiente para aguentar todo o ano. Algo que também o distribuidor alimentar canadiano Aust & Hachmann tentou fazer, embora com dificuldade.

Só que a baunilha não afeta só a gelataria. A especiaria está presente nas gastronomias do mundo inteiro e é essencial também para a perfumaria e cosmética. Contudo, apenas 1% da utilização por essas indústrias provém de vagens naturais. A maior parte das empresas usa vanilina, um composto aromatizante, presente na baunilha e que pode ser sintetizado a partir do petróleo, madeira, alcatrão, farelo de arroz ou óleo de cravo.

Uma estimativa da SeedMap indica que 97% de toda a baunilha usada no mundo é de origem artificial. Desde que uma série de furacões atingiu a ilha de Madagáscar no ano 2000, os preços do produto passaram a subir de forma descontrolada e nunca mais recuperaram. Só o ciclone Enawo, este ano, fez os valores quadruplicarem, indica a Quartz. Dessa forma, as empresas tiveram que recorrer a alternativas e compostos, de forma a compensar as colheitas, uma vez que o sabor da baunilha é um dos mais procurados do mundo.

Hoje em dia, as pessoas já estão habituadas aos produtos artificiais e, em testes cegos, como o realizado pela plataforma de alimentação Serious Eats, chegam a preferi-lo ao natural. Ainda assim, há marcas que resistem à tendência do mercado e sujeitam-se a aguentar até a instabilidade dos ciclones em prol da utilização das vagens verdadeiras. “Não abdicamos do produto natural e não substituímos por nenhuma alternativa artificial”, garante Eduardo Santini. “Mas, para nós, nem é um problema tão grande já que a baunilha não é dos sabores mais vendidos. Os nossos clientes preferem, de longe, o chocolate ou o morango”.

Baunilha. Produto fulcral na cosmética e alimentação

Luxo. É a segunda especiaria mais cara do mundo, a seguir ao açafrão. A baunilha abosluta, a forma mais pura do produto, custa milhares de dólares por kilo e é a nota de longa duração de perfumes como o famoso Chanel Nº5.

Família das flores. A baunilha é uma orquídea, o maior segmento floral do mundo, com mais de 20 mil variações. Só a baunilha é comestível e das 150 variedades de orquídea baunilha existentes, só a Bourbon e a Tahitian são comercializados.

Extrato de baunilha. A Coca-cola é o maior consumidor mundial de extrato de baunilha. O extrato é atualmente a forma mais comum de se consumir o produto e utiliza apenas um dos 171 compostos da baunilha: a vanilina.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Mário Centeno

Centeno volta a cativar mais dinheiro

Natalidade. Fotografia: Pedro Granadeiro / Global Imagens

Despesa com apoios à família é a quinta mais baixa da UE

Greve dos estivadores do Porto de Setúbal.

Estivadores de Setúbal anunciam greves parciais mas poupam Autoeuropa

Gelados de baunilha com sabor a crise