Geração Milénio. Prometeram-lhes um mundo que chega a conta-gotas

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"Temos onde cair", é assim que Sílvio Silva, 24 anos, nascido na Suíça mas criado em Braga, olha para a sua geração. A comparação parece fácil: "O meu pai teve de sair de casa para ir trabalhar e viver com outra família ainda nem sequer tinha 16 anos, hoje, isso nunca iria acontecer. Nós sabemos que podemos arriscar, estudar, fazer estágio atrás de estágio porque aconteça o que acontecer os nossos pais vão estar lá, física e monetariamente, para nos ajudar."

Foram habituados a isso, ainda que hoje a rede dos pais não seja uma garantia. Estiveram na vanguarda das mudanças, cresceram com os walkmans, tiveram discmans e hoje têm iPods, iPhones, iPads. Viram Portugal entrar na CEE; a passagem para UE; experimentaram o escudo, mas rapidamente se adaptaram ao euro. Assistiram a uma época farta, em que os fundos comunitários enchiam as empresas e os serviços e criavam emprego para qualificados e menos qualificados.

São a geração milénio: jovens que nasceram entre 1980 e 2000 – os filhos da geração X e netos dos baby boomers – e que agora se veem confrontados com dificuldades para constituir família e ter um emprego duradouro ou bem pago – o que será ter os dois ao mesmo tempo? São o Sílvio, a Carolina, a Ana Maria, a Cláudia, o Pedro e o Samuel. Alunos brilhantes, altamente qualificados e a quem as promessas de mundo estão a ser pagas a conta-gotas. Pior, os pais nem sempre conseguem ter as condições necessárias para ser a rede de que precisam. “Tiveram tudo, mas quando pediam que a sociedade os amparasse para entrarem no mercado de trabalho não viram nada”, refere João Vasconcelos, presidente da Startup Lisboa, que assiste de perto ao nascimento de novas ideias de negócio a maior parte precisamente com partida e chegada nesta geração. “Ao mesmo tempo que é a geração mais preparada e com as melhores ideias é a que tem maior mágoa”, admite o responsável por esta incubadora de ideias.

São também mal-amados, refere Maria Filomena Mónica. “A minha geração, a nascida em 1940, tende a olhar estes jovens com indevido desprezo, considerando-os malcriados. Será que não param para se interrogar sobre quem os educou?”, questiona a investigadora em sociologia, admitindo que a capacidade de dar outro rumo ao país não está nas suas mãos. “A economia é que pode “revitalizá-los”, admite.

Ideia semelhante tem Elísio Estanque, também sociólogo. “A sociedade não tem condições para cumprir o que prometeu” a esta geração, o que ajuda a explicar o movimento de emigração e também de empreendedorismo.

Samuel Pimenta é um exemplo disso mesmo: quando a licenciatura de três anos em Ciências da Comunicação não lhe deu o que procurava, tornou-se escritor. Aos 24 anos já está presente em várias coletâneas de contos e antologias de poesia, editadas em Portugal, Espanha e Brasil. Escreve para jornais e revistas em Portugal, Brasil, Angola, Galiza e Moçambique e, a solo, como gosta de referir, já publicou três livros, o último Geo Metria editado em junho do ano passado.

Também Cláudia Oliveira, 26 anos, reconverteu a sua formação inicial e, depois da Comunicação Estratégica, optou por uma pós-graduação em Gestão de Eventos e iniciou um mestrado em Gestão de Destinos Turísticos. O sonho, diz, é ser “turista profissional” e utiliza uma frase da saga Senhor dos Anéis para explicar: “A única coisa que tenho de decidir é o que fazer com o tempo que me é dado.”

Ana Maria Lopes também trata por tu a capacidade de se adaptar. Faz gestão de conteúdos numa entidade de renome em Portugal, que prefere não revelar por motivos profissionais, mas ainda não alcançou o quadro da empresa. O percurso repete o de tantos jovens: depois de uma licenciatura pré-Bolonha em Literatura e Línguas Clássicas, em que aprendeu grego e latim, por gosto, optou por uma nova licenciatura em Ciências da Comunicação. Seguiu-se o mergulho na realidade com um estágio sem qualquer remuneração que se multiplicou por demasiado tempo até chegar o vínculo laboral.

O ritmo lento a que a entrada no mundo de trabalho os habitou não esconde, no entanto, uma enorme pressão – a sociedade portuguesa, cada vez mais envelhecida, vai precisar de novos empresários, novos CEO, novos políticos. E os millennials estão na linha da frente para agarrar estes postos. “É uma incógnita perceber como vão estes jovens, que tiveram formação ao nível mais elevado da Europa, podem ser o futuro do país. O nível de qualificações não tem correspondência com o mercado de trabalho que encontram”, lembra Pedro Araújo, sociólogo e investigador. “O problema de base é sempre o dinheiro, voltamos sempre ao dinheiro. Basta ver o Charlie Hebdo. A raiz dos problemas são os recursos.” Ou a falta deles.

Elísio Estanque tem a quem apontar o dedo: “A sociedade não preveniu estas gerações para que tivessem maior iniciativa e maior autonomia. É uma questão cultural que os remete para uma atitude passiva de constante espera por um momento melhor e de resguardo familiar”. Isto leva, na visão do investigador, a uma necessidade de reconversão e adaptação à maré da economia e da crise, tal como os jovens contactados pelo Dinheiro Vivo mostram. Remedeiam enquanto esperam.

Mas que não haja enganos. Se os especialistas têm uma visão mais periférica e até pessimista relativamente à forma como podem estes jovens salvar o país, quem está na pele de millennial já olha para lá da penumbra. Talvez por inexperiência e otimismo inabalável, os discursos fazem-se de cabeça levantada e com esperança. É preciso “agarrar as armas e ir à luta”, diz Cláudia Oliveira, que está a trabalhar numa empresa de turismo, com contratos mensais, enquanto espera pela abertura do programa Inov Contacto para saber para que parte do mundo irá estagiar. E não esconde a pressão: “No meu caso os padrões estão elevados para alcançar um pai major do exército e uma mãe professora especializada em educação especial.” Acresce ainda o avô engenheiro, já altamente especializado para a época.

Pedro Costa, gestor de 26 anos e a trabalhar numa multinacional de origem portuguesa, dá uso à sua formação para justificar o otimismo que o caracteriza: “As crises são cíclicas e historicamente sabemos que depois de uma crise virá um período de crescimento e de novas oportunidades. Nós somos a geração que está a passar pela fase negativa, mas também somos a que estará em primeiro plano quando a curva se inverter.”

A economia portuguesa já mostra algumas melhorias. Se tudo correr como o governo previu, o PIB terá crescido 1%, pela primeira vez desde 2010. O desemprego, que chegou a 17,4% em 2013, no auge da crise, passou para 13,9% em novembro com a população sem trabalho a cair para 119 mil no final do terceiro trimestre. É claro que os números da emigração ajudaram a mitigar o problema mas, os estágios comparticipados pelo Estado também tiveram o seu papel. “Agora já estamos a conseguir trazer jovens para Portugal. Lisboa está a tornar-se uma verdadeira capital europeia. Mas nos últimos anos ninguém pedia uma empresa em Portugal. E obviamente os melhores jovens quiseram ir para o estrangeiro”, diz João Vasconcelos. O que correu mal? “É óbvio para todos que durante três anos não houve qualquer política ativa de emprego. Agora começa a aparecer umas coisas, mas continuamos a precisar de encontrar um equilíbrio para que estes jovens não voltem a estar no meio da maior crise de cem anos sem qualquer apoio.”

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Pedro Costa Gestor, 26 anos A minha geração tem uma mentalidade muito mais global. Hoje, de uma forma geral, mais gente domina melhor ferramentas como línguas estrangeiras e temos acesso a conhecimento que nos permite olhar para o mundo de uma forma diferente, imaginando que podemos viver e trabalhar em quase todos os países. A forma como o ensino universitário evoluiu e o crescimento brutal de coisas como a televisão, a internet ou as redes sociais tiveram um papel fundamental para que a geração de hoje seja muito mais global do que a anterior. Eu trabalho há três anos e meio e saí de casa dos meus pais há um ano. Segui uma licenciatura em Gestão e, depois de três anos, hesitei bastante sobre o que fazer. Decidi continuar a estudar, pedi um empréstimo e apostei num mestrado em Gestão com uma grande orientação internacional. Lembro–me de imaginar outras coisas na minha vida, como ser casado, ser um bom pai, ser um tipo porreiro e rodeado de amigos, que viajasse muito. Vou no bom caminho, já casei e acho que sou um tipo porreiro rodeado de amigos, com a sorte de poder viajar muito. Considero que o emprego é uma parte da nossa vida, mas que deve servir um propósito maior.

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Cláudia Oliveira Técnica de turismo, 26 anos A minha geração tem mais facilidades mas menos oportunidades. Que quero dizer com isto? Na altura dos meus pais, a economia estava em pleno desenvolvimento e era impossível viver como a geração anterior. No entanto, havia muitas oportunidades para subir na vida desde que houvesse alguma vontade e ambição para estudar, trabalhar e viver uma vida melhor. A minha geração cresceu com as facilidades e os direitos que os nossos pais conseguiram, mas em contrapartida não tem oportunidades. Sempre me disseram que “se não estudares não és ninguém”, mas a verdade é que às vezes, por mais estudos que tenhamos, estes não nos servem de muito. Acabo de me despedir de um trabalho numa agência de viagens online, onde estava há 8 meses com contratos mensais, para entrar na edição deste ano do Inov Contacto. Ainda não sei para onde vou nem fazer o quê, mas parece-me que a experiência será uma mais-valia. Sou uma pessoa dinâmica, adaptável e considero que devemos beber de todas as fontes de conhecimento, fiz Erasmus em Itália, vivi e trabalhei na República Dominicana durante dois anos. E agora preparo-me para uma nova aventura.

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Samuel Pimenta Escritor, 24 anos Sempre fui uma pessoa que gosta de ouvir as histórias que os outros têm para contar, gosto dos atos e dos objetos de comunicação, talvez por isso tenha começado a escrever tão cedo e, em 2008, tenha entrado no curso de Ciências de Comunicação da Universidade Nova de Lisboa. Terminei em 2011 e desde então já tive cinco empregos, além da escrita, que me acompanha desde os 10 anos. Já tive alguns períodos em que estive desempregado, como agora, mas encontro sempre alguma coisa para fazer, nem que seja algum dos meus projetos literários. Não sou de ficar parado a cristalizar. Sei que todos os dias cumpro um pouquinho do desejo de mudar o mundo, até porque há sonhos que se realizam mais rápido do que outros. Nada é mais estimulante do que saber que estamos no início de uma era nova e que temos todas as possibilidades à nossa frente, com a vantagem de trazer toda a herança do conhecimento do passado. O ideal é usarmos tudo isso para que possamos construir um futuro melhor. O que mais me ajuda são as experiências pelas quais passei, sejam pessoais, artísticas ou profissionais. É a história pessoal que faz a diferença entre dez candidatos com um curso tirado na mesma faculdade.

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Carolina Sá Investigadora, 32 anos A minha geração cresceu com internet e tecnologia, que facilitaram muito o acesso à informação e à comunicação. Acho que ainda estamos a aprender a filtrar toda a informação que temos ao dispor. Faço investigação no Mare, Marine and Environmental Sciences Research Centre, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde sou neste momento bolseira pós-doc. Trabalho num projeto europeu que pretende desenvolver ferramentas tecnológicas para apoiar a gestão de aquaculturas. Gosto muito da diversidade que envolve o meu trabalho. Aprende-se todos os dias. Há saídas de campo (semanas no mar), tempo de laboratório e períodos de gabinete em frente ao computador. As medidas de sucesso não são iguais para todos e podemos considerar vários parâmetros de sucesso. A nível profissional ou pessoal. Uma carreira profissional estável poderá ser difícil de alcançar, mas é preciso contextualizar. Nas condições atuais, se fizermos o melhor que pudermos, só temos de sentir que cumprimos o nosso dever. Há fatores externos que não dependem de nós. Nunca fiz muito o exercício de “como serei aos 32?”, mas sinto-me bem como estou.

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Sílvio Silva Country manager, 24 anos Pensar que hoje temos uma população jovem das mais instruídas da Europa é algo que nos deve orgulhar. Mas também temos de pensar que somos dos países da Europa onde os jovens saem de casa dos pais cada vez mais tarde, onde os jovens entram no mercado de trabalho remunerado quando já não são assim tão jovens e onde as leis dos estágios curriculares e estágios profissionais ajudam mais as empresas do que os jovens. Ao fim de três anos de licenciatura, um estágio curricular na área e um curso técnico de especialização, o mercado de trabalho não só me pedia para trabalhar de graça – peço desculpa, são ajudas de custo – como também me pedia para saber marketing, comunicação, design, três línguas estrangeiras e fazer o salto mortal encurvado com um ângulo de 90 graus. Com uma renda para pagar, passe, comida e pós-graduação no IADE, tive de entrar no mercado de trabalho remunerado, começando assim por um contact center, que foi a minha “casa” durante quatro anos. Foi numa empresa que nada tem que ver com a mentalidade portuguesa que tive agora a hipótese de trabalhar em marketing. Emigrei para Budapeste, na Hungria, no dia 5 de janeiro.

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Ana Maria Lopes Técnica de Comunicação Cultural, 30 anos Tirei duas licenciaturas e costumo dizer que uma foi por amor e outra por oportunidades. Não foi uma decisão fácil, pois dediquei sete anos da minha vida ao estudo, adiei muitos projetos, viagens e resoluções por causa dessa decisão, sobrecarreguei economicamente os meus pais – apesar de ter sido uma decisão tomada em conjunto e com o seu total apoio. Mas hoje acho que foi uma excelente decisão. E devo-a também aos meus pais. Olhando para trás, orgulho-me do meu percurso, da minha carreira académica, dos amigos, da sapiência e das experiências que ganhei ao longo destes anos. Para mim, os meus pais foram muito bem-sucedidos. Lutaram por muita coisa na vida, conseguiram ter quatro filhos, dar-lhes estabilidade a vários níveis… e cursos superiores a todos. E também, como nós, passaram por crises políticas, económicas e sociais. Com 30 anos, ainda não tenho a estabilidade que os meus pais tinham, mas a minha geração não é igual à dos meus pais. Vivemos tempos diferentes. Exigem-nos coisas diferentes. Dão-nos coisas diferentes. Neste momento da minha vida vivo muito o dia-a-dia, até porque os planos a longo prazo baseiam-se nas poupanças de cada dia. O presente influenciará definitivamente o meu futuro.

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