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GirlMove. Elas têm 12 anos e o futuro de um país nas mãos

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GirlMove. Elas têm 12 anos e o futuro de um país nas mãos

Em Moçambique, só 10% das raparigas terminam o ensino secundário. Antes dos 18 anos, 40% já tiveram pelo menos um filho.

Alexandra Machado não tem asas nos pés mas sabe o que é preciso para correr uma maratona. Há cinco anos, a antiga diretora da Nike em Portugal abandonou o campeonato corporate para se dedicar ao corta-mato de criar e gerir uma Organização Não Governamental. A GirlMove nasceu da vontade de fazer a diferença num país onde a meta da igualdade ainda não passa de uma miragem.

Alexandra vai a Moçambique todos os meses. Foi de lá que trouxe para Portugal o primeiro grupo de jovens licenciadas para estagiarem durante dois meses numa grande empresa. Em 2016 foram 13 as contempladas. Licenciadas em direito, marketing ou agricultura, foram destacadas para companhias tão díspares como a L’Oreal, EDP, Sonae ou Jerónimo Martins.

A lista de empresas tem aumentado todos os anos, porque o número de jovens selecionadas pela academia da GirlMove também não para de crescer. No ano passado foram 21. No final deste ano, entre setembro e outubro, serão 31 as jovens que vão fazer a ligação entre Maputo e Lisboa.

“O objetivo é dotá-las de visão e de uma rede, para que possam voltar para Moçambique enriquecidas com a experiência. O que temos notado também é que elas causam um grande impacto nas empresas por onde passam. Trazem uma lufada de ar fresco através do intercâmbio cultural. Às vezes queixamo-nos tanto e não temos a mínima noção da realidade que estas mulheres enfrentam”, conta Alexandra Machado, diretora-geral da GirlMove, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Os resultados das edições anteriores já permitem tirar algumas conclusões. As jovens selecionadas para o programa da GirlMove, que dura um ano e inclui ainda uma formação na Universidade Católica, chegam ao mercado de trabalho em Moçambique e “vão para posições três ou quatro furos acima” do que iriam se saíssem diretamente da universidade. A taxa de empregabilidade ronda os 90%.

A GirlMove “recruta” licenciadas em todas as universidades de Moçambique. São escolhidas as que têm “mais potencial para virem a ser change makers“. Só para a edição deste ano recebeu 700 candidaturas. Um número “muito bom”, sublinha Alexandra Machado, considerando que o país forma “apenas” seis mil mulheres por ano e só 1% chegam a frequentar o ensino superior.

Um número que a GirlMove quer multiplicar nos próximos anos. E é aqui que surge a outra vertente do programa desta ONG.

“Durante o ano, as jovens licenciadas são mentoras de 30 raparigas na casa dos 12 anos. O objetivo é mostrar que vale a pena estudar. A mãe destas raparigas não viu outro futuro e elas precisam de um modelo de referência, de alguém que seja credível para elas porque passou pelas mesmas dificuldades. Se eu for para lá dizer isso não terá o mesmo impacto”, destaca a fundadora.

Em Moçambique, só 10% das raparigas terminam o ensino secundário. Antes dos 18 anos, 40% já tiveram pelo menos um filho. E mais de 60% são mães solteiras quando completam 35 anos. Alexandra chama-lhe o “ciclo de pobreza planeada”.

“O problema é muito grave. Há cinco ou seis filhos que são educados por uma mãe que desde muito cedo teve de deixar a escola. A fase mais crítica é aos 12 anos, quando acabam o ensino primário e as meninas acabam por engravidar. É aqui que estamos a atuar”.

Em cinco anos passaram 2600 meninas de 12 anos pelo programa de mentoria da GirlMove. Destas, cerca de 70% passaram para o ensino secundário, e a taxa de maternidade infantil é de 0%. Alexandra mostra-se orgulhosa dos números, mas sabe que a maratona ainda só está a começar. Há três milhões de raparigas em Moçambique em risco de não terem acesso à educação.

Em última instância, é um problema económico para o país. “Os indicadores mostram que um ano a mais de ensino secundário representa um aumento salarial de 25% para as mulheres, o que tem um grande impacto no PIB do país. No geral, os países mais pobres são os que dão menos acesso à educação às raparigas”, explica Alexandra Machado.

Em Moçambique, a fonte do problema é a cultura. “Além das raparigas temos de conquistar os pais porque estamos a ir contra a cultura instalada e é muito difícil mudar mentalidades”.

Alexandra Machado descreve a GirlMove como uma “incubadora de futuras líderes” de Moçambique, que tem como ambição “ao fim de dez anos influenciar a nova geração de mulheres que vão estar no poder”.

Das jovens universitárias que fazem parte do programa da GirlMove, todas regressaram a Moçambique depois do estágio em Portugal. “São mulheres que passaram por dificuldades mas que acabaram por resistir às pressões do sistema. Ao terminarem o curso têm vontade de ser agentes de mudança do seu país. Aqui são uma entre muitas, lá são talentos únicos”.

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